Cidades decretam greve geral e milhares de pessoas vão às ruas contra o ICE nos EUA

Atualizado em 23 de janeiro de 2026 às 19:34
Manifestantes contra o ICE nos EUA. Foto: Roberto Schmidt/AFP

As cidades gêmeas de Minneapolis e St. Paul, que juntas concentram mais da metade da população de Minnesota, nos Estados Unidos, vivem nesta sexta-feira (23) um dia de greve geral em reação às operações anti-imigração conduzidas pelo governo de Donald Trump na região.

Segundo o New York Times, a paralisação mobiliza sindicatos, lideranças religiosas e comerciantes locais, que decidiram fechar centenas de estabelecimentos e convocar trabalhadores a deixar seus postos para participar de atos públicos contra o ICE, o serviço de imigração dos Estados Unidos. O movimento foi batizado pelos organizadores como um “dia da verdade e liberdade”.

Um dos articuladores da greve é o bispo evangélico Dwayne Royster, que afirmou à imprensa estadunidense que o clima nas cidades é de forte tensão social. Segundo ele, “a situação é tensa e emocional, e muitas pessoas estão sofrendo”. O religioso afirmou ainda que “os moradores de Minnesota estão demonstrando hoje resistência e solidariedade como há muito não se via”, em referência à adesão de trabalhadores e pequenos empresários ao protesto, mesmo diante de condições climáticas extremas.

As manifestações ocorrem após três semanas de operações federais intensificadas no estado, que provocaram uma escalada de indignação popular. O episódio que mais inflamou os protestos foi a morte da manifestante Renee Nicole Good, em 7 de fevereiro, atingida por um agente do ICE durante uma ação em Minneapolis.

A revolta aumentou nos últimos dias após uma escola denunciar que agentes federais teriam usado uma criança de 5 anos como isca para prender imigrantes. O menino foi detido e levado ao Texas junto com o pai, segundo relatos divulgados por autoridades locais.

Milhares de manifestantes em Minneapolis. Foto: Stephen Maturen/Getty

Outros casos também passaram a circular nas redes sociais e na imprensa regional, como o de um idoso retirado de casa por agentes do ICE durante uma nevasca em St. Paul. O homem, que vestia apenas um calção e estava coberto por uma manta, é cidadão estadunidense e não possui antecedentes criminais. As imagens do episódio reforçaram críticas sobre o uso excessivo da força e a condução das operações em bairros residenciais.

Desde o início das ações, mais de 3.000 pessoas foram presas durante protestos, acusadas de atacar agentes federais. Na quinta-feira (22), três manifestantes foram detidos dentro de uma igreja. A Casa Branca divulgou uma foto de uma das prisões, mas ativistas acusaram o governo de manipular a imagem com inteligência artificial para dar a impressão de que a manifestante estava chorando.

Em nota, o Departamento de Segurança Interna, responsável pelo ICE, classificou a greve como “loucura total”. “Por que esses chefões de sindicatos querem nos impedir de retirar ameaças à segurança pública de suas comunidades?”, diz o texto, que lista imigrantes em situação irregular acusados de crimes violentos. Também na quinta, o vice-presidente J. D. Vance esteve em Minneapolis para defender os agentes federais e acusar autoridades locais de se recusarem a cooperar com o governo.

“A tragédia aqui é múltipla”, disse Vance. “É a tragédia de que Renee Good perdeu a vida. E é a tragédia de que há agentes do ICE entrando em comunidades sem saber se, quando ligarem para a polícia, receberão apoio ou não. É isso que produz essa situação terrível”.

A greve desta sexta ocorre sob temperaturas extremas: uma nevasca no meio-oeste dos EUA derrubou os termômetros para -27°C, ampliando os desafios enfrentados pelos manifestantes.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.