Ciência trata todos os males, por que seria diferente com a Covid-19? Por Ubiratan de Paula Santos

Publicado originalmente no “Bem Blogado”

Por Ubiratan de Paula Santos

Recorre-se à Ciência para tratar diabetes, hipertensão, operar apendicite, tratar cânceres, sinusite, úlceras, varizes, infarto, AVC , asma….  Para cuidar de pacientes com covid-19 não deve SER ASSIM? É assim que funciona? É preciso separar posições políticas, ideológicas, religiosas, sobre times de futebol quando se aborda tratamento tratamento, seja a febre aftosa da vaca, o câncer de mama ou a Covid-19.

Essa pandemia de maluquice, de ignorância ou não sei que nome dar, que tentam passar, só faz agravar a disseminação da doença e aumentar os mortos.

Sou médico pneumologista do Instituto do Coração e professor da Faculdade de Medicina da USP e não aceito isso. Não posso adotar um tratamento que não ajuda o paciente. O tal tratamento precoce, pois pode piorar as pessoas, pelos efeitos colaterais. Além de estimular a ideia de que estão mais protegidas, se expondo mais, ou postergando a ida a hospitais, entendendo que o Kit precoce vai tratá-la.

Interno pessoas com covid todos os dias. No Estado do Amazonas foi distribuído amplamente o tratamento precoce e o que vimos? É preciso serenidade, bom senso, humanismo e ajuda mútua entre as pessoas e esforços de todas as esferas de governo para estancar a mortandade.

Sem isso, não haverá recuperação da economia e volta à vida normal.

Já morreram de Covid-19 no Brasil 260 mil pessoas, cerca de 10,5% dos mortos no mundo, sendo que nossa população representa menos do que 3% da população Global.

No começo da pandemia, em dezembro de 2019, vários tratamentos foram testados no desespero de controlar a doença.

A partir daí, foram feitos vários estudos para avaliar quais tratamentos eram mais adequados, se tinha algum efeito.

Nenhum até agora mata o vírus. O que fazemos ao monitorar um paciente com Covid é não lhe fazer mal, não dando tratamentos sem eficácia, depois procuramos dar suporte com cortisona, anticoagulantes e oxigênio, baseados nas avaliações que fazemos dos exames de imagem, nos marcadores inflamatórios no sangue e na taxa de oxigenação.

Aos internados quase sempre damos também antibióticos potentes, para prevenir infecção hospitalar por bactérias, especialmente em pacientes que estão com as defesas pulmonares reduzidas pela ação do vírus.

Procuramos manter as pessoas vivas e as funções do organismo funcionando para dar tempo ao organismo da produzir imunidade- células e anticorpos e matar o vírus.

Idosos e pessoas com defesas diminuídas por terem algumas doenças crônicas podem demorar mais tempo ou reagir menos e podem não sobreviver, mesmo com todo suporte que é dado. Cerca de 60 a 80% dos internados em UTI e intubados morrem no Brasil.

Não vejo problema as pessoas questionarem, debaterem. É muito bom, mas divulgar como certos tratamentos ou procedimentos reconhecidamente errados, pelo que temos de pesquisa no momento, não é adequado, pois ajuda a perpetuar a pandemia e as mortes.

A cada dia, semana e mês vamos conhecendo melhor e o que o mundo vai nos informando (veja toda a Europa e agora EUA e há mais tempo a Ásia). Evitar o contato entre pessoas e vacinar reduz o número de infectados e consequentemente de mortos.

*Ubiratan de Paula Santos, médico pneumologista do Instituto do Coração e professor da Faculdade de Medicina da USP, uma das maiores referências na luta pelo SUS no Estado de São Paulo, que foi diagnosticado com Covid-19 em 2020.  Militante da saúde, há mais de 40 anos.

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