Cientista política italiana vê semelhanças entre Bolsonaro e Mussolini e critica a Lava Jato: “influência política desde o começo”

Caterina Froio

A cientista política italiana Caterina Froio esclarece a diferença entre Jair Bolsonaro e Matteo Salvini, vice-primeiro ministro italiano desde junho.

Professora na universidade Sciences Po, em Paris, e membro do Centro para a Pesquisa sobre o Extremismo da Universidade de Oslo, ela aponta semelhanças entre ambos, mas diz que não se deve confundir direita radical populista, caso da Europa, com extrema direita, caso brasileiro.

Para Froio, o recém eleito presidente do Brasil é “mais extremo”, um discurso que encontra precedentes não no mundo contemporâneo político europeu, mas em Mussolini.

“Salvini não questiona a democracia”, explica. Nem propõe restaurar o fascismo, “inaceitável” na sociedade italiana, afirma a professora.

Nesta entrevista para o DCM, ela explica o que permitiu a ascensão do radicalismo de direita na Itália e o compara com o Brasil.

Lança suspeita sobre a independência política da Lava Jato, diferenciando-a da Operação Mani Pulite, e conclui sobre as possíveis consequências dos momentos políticos vividos hoje pelos dois países.

DCM – O que explica a ascensão de Matteo Salvini na Itália

Caterina Froio – Há uma história ligada à ideologia da Liga, antiga Liga do Norte, um partido que nasce como “partido anticorrupção”. Mas nos anos 1980, ela tem uma virada para um sentido sobretudo etnocentrista, com uma situação específica voltada para os migrantes.

Ela aumenta, nos anos 1990, o foco sobre a questão migratória na Itália, fazendo campanhas contra a migração do sul rumo ao norte da Itália. A partir dos anos 2000, há uma mudança no seu discurso, que passa a ser contra a migração não europeia, que adquire uma polarização muito forte com a crise dos refugiados que a Europa conhece a partir de 2012.

Há uma outra dimensão que me parece importante: o papel da Itália na União Europeia. Depois de 2007, depois da crise da dívida, cinco países foram muito atingidos pelas consequências da crise econômica: Espanha, Portugal, Irlanda, Grécia e Itália.

Em novembro de 2011, há a nomeação de um governo tecnocrático, conduzido pelo primeiro-ministro – nomeado pelo presidente da República – Mário Monti. Ele substituiu Silvio Berlusconi. Ele tomou medidas econômicas visando controlar a situação econômica da Itália, cortando gastos sociais, na educação, etc.

Foi nesse momento que cresceu no eleitorado italiano uma cristalização em torno da questão europeia na campanha eleitoral. A União Europeia foi politizada, uma organização supranacional que “tira” da Itália sua soberania, a gestão da economia seguindo a regulação da União Europeia.

Por que Salvini foi tão entusiástico ao felicitar Bolsonaro pelo resultado da eleição e por, nas palavras do ministro do Interior, “mandar a esquerda para casa”?

Isso tem muita a ver com algumas singularidades entre Bolsonaro e Salvini. Os dois se apresentam como homens “novos”, mas na verdade são políticos de longa data. No caso de Salvini, não se trata de um humorista, como é caso de Beppe Grillo (fundador do Movimento 5 Estrelas), ou de um acadêmico.

Em segundo lugar, na agenda política dos dois, a segurança é prioritária para o funcionamento da sociedade. Salvini liga a questão da criminalidade à da imigração. No Brasil, a questão da segurança é mais ampla e não envolve necessariamente a questão da imigração externa.

Quais são as semelhanças e diferenças entre ambos?

De um lado, há a questão do etnocentrismo e, do outro, dos homossexuais. Salvini representa o que chamamos na ciência política de direita radical populista, um governante que fala mais da diferença étnica, da questão da raça, combinando-a com questões culturais. Minha impressão é que Bolsonaro não está nesse ponto ainda.

A maneira como ele fala da etnicidade e das divisões étnicas se assemelha mais à extrema direita europeia do pós-guerra, uma concepção racial das diferenças que ele não combina necessariamente com as características culturais.

A segunda diferença é em relação aos direitos dos homossexuais. Acompanhei a campanha eleitoral de Bolsonaro e a política brasileira antes da eleição de Bolsonaro. Ele se opõe abertamente aos direitos homossexuais. Salvini é um pouco mais sutil em relação a essa questão. Ele não se expressa diretamente. Ele, na verdade, deixa membros do seu governo se expressarem sobre essa questão.

Ele nomeou Lorenzo Fontana ministro da familia, um homem bastante próximo da ala mais conservadora italiana. Salvini, enquanto representante de uma direita radical populista que se opõe aos direitos das minorias respeitando o jogo democrático, não questiona a democracia italiana, não reivindica voltar à ditadura fascista. Já no caso de Bolsonaro ainda não está claro. O discurso de sua campanha é nostálgico da ditadura militar brasileira.

Sérgio Moro, anunciado como ministro da Justiça de Bolsonaro, diz ter inspirado a Operação Lava Jato na Operação Mãos Limpas, na Itália. São parecidas?

De fato se trata de duas campanhas anticorrupção, mas me parecem muito muito (ênfase) diferentes. A operação Mani Pulite é uma investigação conduzida inteiramente pela magistratura sobre a política.

Foi a magistratura que de maneira independente conduziu uma investigação sobre a corrupção que caracterizava o sistema político italiano. Então, não houve intervenção política direta. Pelo contrário. As decisões tomadas pelos juízes afetaram radicalmente o sistema político italiano. Não me parece exatamente comparável à outra situação (da Operação Lava Jato).

Por quê?

Porque viu-se a independência da magistratura. A magistratura pôde investigar e agir profundamente contra a corrupção.

Não é o caso no Brasil?

Me parece que a dinâmica é um pouco diferente em relação a quem começou o processo. No caso italiano, foi realmente a magistratura. No caso do Brasil, não estou segura de que não houve influência política desde o começo.

Como é possível Salvini estar no poder de um país que viveu o fascismo?

Uma questão muito interessante. Ela remete ao que é a Liga do Norte. Os observadores externos da Liga do Norte a classificam como um partido de extrema direita, ligando-o à ditadura fascista do início do século XX. Mas se a olharmos de perto e compararmos com a extrema direita de matriz fascista, veremos que é sobretudo um partido de matriz etnocêntrica, que faz campanha para que só os italianos tenham espaço na Itália.

Quando se trata do autoritarismo, não há referência direta à ditadura fascista italiana. A Liga nunca dirá, nunca disse que gostaria de restaurar a ditadura fascista porque fazer esse tipo de proposta é inaceitável, mesmo num contexto polarizado e sobretudo na direita. Por isso eu sugiro classificar a Liga do Norte como um partido de direita radical populista.

Trata-se de partidos que sempre tiveram problemas com as minorias, como a extrema direita durante e imediatamente depois da Segunda Guerra Mundial. Mas eles pensam a questão do autoritarismo como eliminação da criminalidade na sociedade mais do que como um retorno ao totalitarismo do passado.

Há uma outra dimensão que caracteriza a Liga do Norte hoje e que faz dela mais um partido de direita radical: a questão do populismo. Não se pode ser populista se crê-se que o líder e a multidão não são intercambiáveis. Era o caso dos ditadores fascistas, a figura do führer na Alemanha ou do Duce na Itália. Eram figuras carismáticas porque eram pessoas “excepcionais”.

Enquanto, no caso do populismo contemporâneo, pensa-se que o líder é apenas a voz do povo; é sobre isso que Salvini construiu seu apoio eleitoral.

O discurso de Bolsonaro lembra o de Mussolini?

Bolsonaro não me faz pensar nos líderes populistas contemporâneos da Europa. Eu tenho dificuldade para compará-lo com Marine Le Pen ou Matteo Salvini. Em relação a essas pessoas, Bolsonaro é um pouco mais extremo porque ele tem um culto típico do militarismo, uma estética que encontrou-se mais na formação da extrema direita e no pós-Guerra na Europa e mesmo em Mussolini, que era chefe do Exército durante a ditadura.

A retórica militar, encontramos em Matteo Salvini e Marine Le Pen, que são da direita radical populista. Mas minha impressão ao escutar o discurso de Bolsonaro sobre o exército é que ele se situa mais à extrema direita do que à direita radical populista. Não estou segura de que Bolsonaro seja alguém democrático.

No plano econômico, o governo italiano teve um orçamento recusado pela União Europeia. O que você pensa sobre isso?

Essa é uma questão muito interessante que você faz porque mostra que há uma crispação de relações entre a Itália – na verdade o governo da Liga – e a União Europeia; é uma tensão que não é nova. Desde o governo tecnocrático de Mario Monti, de 2012, representantes da Italia lamentam abertamente face a Bruxelas a imposição de uma política para o crescimento econômico do país. Nesse sentido, Salvini e o Movimento Cinco Estrelas não fazem nada de novo.

Eles apenas retomam uma retórica que já existia no sistema político italiano, levando-a ao extremo, indo contra os parâmetros definidos por Bruxelas. O que isso quer dizer? Não posso fazer previsões, mas Salvini e o movimento Cinco Estrelas tentam instrumentalizar essa tensão para capitalizá-la em termo de popularidade. Isso reflete um mal-estar que há na Itália hoje, um país historicamente pró-Europa, em relação ao modo de governo europeu.

De um lado, há um mal estar na relação entre Itália e União Europeia. Por outro lado, é necessário repensar a maneira como a União Europeia, sobretudo o governo econômico europeu, funciona se não quisermos ter um Salvini ou um Di Maio (vice-primeiro ministro, membro do partido 5 Estrelas) no poder.

Quais serão as consequências econômicas e sociais do governo atual italiano para a Itália e a Europa e Bolsonaro para o Brasil?

São países que se retraem cada vez mais sobre eles mesmos, tanto do ponto de vista social quanto econômico.

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