Círculo de ódio será rompido em breve. Por Kakay

Trump já se foi, falta a cópia. Foto: Reprodução

Por Kakay

Irmão negro de voz quente, o olhar magoado,

diz-me:

Que séculos de escravidão geraram tua voz dolente?

Quem pôs o mistério e a dor em cada palavra tua?

E a humilde resignação na tua triste canção?

E o poço da melancolia no fundo do teu olhar?

Foi a vida? o desespero? o medo?

Diz-me aqui, em segredo,

Irmão negro.”

– Noémia de Sousa, Sangue Negro

É muito significativo que a frase que ecoou no mundo todo, ao retratar o assassinato de um homem negro nos EUA, George Floyd, tenha sido: “Eu não consigo respirar”.

Isso acontece no momento em que, no Brasil, as pessoas também não conseguem respirar por falta de oxigênio nos hospitais. Vários são os pontos que, simbolicamente, podemos refletir sobre o dia em que o policial que matou covardemente George Floyd foi condenado.

A regra nos EUA, que tem uma polícia extremamente violenta, especialmente contra os negros, é que homicídios cometidos por policiais não resultem em condenação. Segundo o Washington Post, 1.014 pessoas foram assassinadas a tiros por policiais em 2019, a maioria das vítimas era de negros. Estudos da ONG Mapping Police Violence demonstram que, nos EUA, os negros têm três vezes mais chances de serem mortos pela polícia do que os brancos. No Brasil, a polícia matou 17 vezes o número de negros mortos por agentes policiais em 2019 nos Estados Unidos, conforme matéria publicada aqui em junho de 2020. Recorro-me a Belchior, interpretado por Emicida em AmarElo:

Tenho sangrado demais

Tenho chorado pra cachorro

Ano passado eu morri

Mas este ano eu não morro.”

A primeira pergunta que devemos fazer é se o policial branco, Derek Chauvin, seria condenado pela morte de Floyd caso Trump tivesse sido reeleito presidente. O que vimos foi o presidente Biden se manifestando fortemente contra a violência policial, inclusive falou pessoalmente com os familiares e prometeu uma reforma na polícia. Da mesma maneira, o ex-presidente Barack Obama reagiu à sentença afirmando que “não podemos descansar”, pedindo justiça. Poderia ter citado Maya Angelou:

Você pode me fuzilar com suas palavras, você pode me cortar com seus olhos, você pode me matar com seu ódio. Mas ainda assim, como o ar, eu vou me levantar.

É importante ressaltar que o recém-empossado presidente norte-americano, de maneira corajosa, anunciou recentemente uma série de medidas de controle contra, nas suas palavras, uma “epidemia de violência de armas de fogo” nos Estados Unidos. Sabemos da enorme dificuldade que o democrata enfrentará, pois a cultura republicana armamentista é fortíssima.

Também impressiona a postura do presidente Biden no combate à covid. Antes da sua posse, a curva de mortos nos EUA era mais acentuada que no Brasil. Um Trump negacionista que se irmanava com Bolsonaro no trato não científico do vírus. Com a prioridade absoluta na vacina e a responsabilidade que tem um presidente no sistema presidencialista, os Estados Unidos já aplicaram mais de 200 milhões de doses. Ou seja, 128 milhões de americanos já receberam pelo menos uma dose da vacina.

No Brasil, apenas 13% da população foi vacinada, totalizando 27 milhões de pessoas que tomaram pelo menos uma dose, num total de 38 milhões de doses distribuídas. A irresponsabilidade do presidente Bolsonaro chegou a tal ponto que o Conselho Federal da OAB fez uma representação criminal imputando-lhe responsabilidade, por omissão, pela morte de milhares de brasileiros. Os atos omissivos envergonham a nação, a irresponsabilidade absoluta de desprezar a necessidade da compra das vacinas, o escárnio com a dor dos brasileiros. Remeto-me a Sophia de Mello Breyner:

Não podemos aceitar. O teu sangue não seca.

Não repousamos em paz na tua morte.

A hora da tua morte continua próxima e veemente.

E a terra onde abriram a tua sepultura

É semelhante à ferida que não fecha.

A noite não pode beber nossa tristeza

E por mais que te escondam não ficas sepultado.”

Enquanto isso, a corrida armamentista se fortalece enormemente no Brasil. Números apontados pelo Poder360 dão conta que temos hoje, nas mãos de civis, 1,151 milhão de armas legais. Um aumento de 65% na era Bolsonaro. O que falta de oxigênio e vacina sobra abundantemente em armas. Somente em 2020, o número de novos registros de arma de fogo no Brasil aumentou 90%, de acordo com a Polícia Federal. E é importante constar que 70% desse total se enquadra na categoria “cidadão comum”. Ao que parece, o presidente, sabendo que será responsabilizado pelo desastre na condução da crise sanitária, resolveu armar a população para dar força aos seus delírios golpistas.

O impressionante e chocante número oficial de 378 mil mortos, que certamente é muito maior pela enorme quantidade de subnotificação, nos deixa chocados e indignados com a postura genocida e sádica do presidente.

É impossível não fazer uma comparação sobre a postura dos responsáveis na condução da política dos 2 países. Sabemos todos as enormes diferenças econômicas que nos separam. Mas, em um regime presidencialista, a definição da linha de ação cabe ao presidente, e é necessário que os brasileiros tenham a coragem de se indignar e cobrar a punição pelo descaso doloso que está deixando o Brasil sem respirar.

Essa semana ouvi de médicos que trabalham em um hospital de ponta que estavam com dificuldades de dar alta a pacientes, pois não havia oxigênio disponível no mercado. Cria-se então um círculo vicioso, perigoso e cruel. Pessoas desesperadas por um leito e outras ocupando leitos por não poderem sair por falta de oxigênio fora da estrutura hospitalar. E o pior: na maioria dos lugares a falta de vagas nos hospitais para acolher o enorme número de infectados é gritante. Esse descompasso não permite sequer um monitoramento digno de boa parte dos doentes. E me impressionou a exaustão que acompanha os responsáveis pelo tratamento dos pacientes.

Por isso o simbolismo do grito de Floyd bradando ao mundo que não conseguia respirar me emocionou. Esse grito eternizado por uma gravação feita num celular permitiu não só que o mundo inteiro ouvisse o pedido de socorro covardemente negado pelos assassinos, mas que a população americana, especialmente a negra, se mobilizasse pedindo justiça. E a responsabilidade e a força do presidente dos Estados Unidos deram vazão ao grito.

Aqui no Brasil, vivemos presos em um círculo invisível de giz. Sem forças para romper o silêncio e gritar ao mundo que o povo brasileiro não está conseguindo respirar. Que estamos sufocados por mãos e joelhos assassinos que nos tiram o ar, nos amordaçam a voz e nos cegam a visão. E que pretendem não só nos levar à lona por cansaço de tanto descaso, mas nos vencer pela força, truculência e ignorância.

Mal sabem esses bárbaros que o ódio e a prepotência deles servem de alimento e ânimo para que possamos romper o círculo que nos aprisiona. E que a hora deles se aproxima, serão vítimas de todos os excessos e truculência que os caracterizam. Quem cultua a morte e a violência acaba perdendo para sua própria mediocridade, para seu próprio sadismo. Aprenda com Miguel Torga, em Penas do Purgatório:

Guarde a sua desgraça

O desgraçado.

Viva já sepultado

Noite e dia.

Sofra sem dizer nada.

Uma boa agonia

Deve ser lenta, lúgubre e calada.

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