Guinada de Ciro à direita auxilia o ‘caos’ bolsonarista, diz analista

Publicado na Rede Brasil Atual

Jair Bolsonaro e Ciro Gomes
Jair Bolsonaro cumprimenta Ciro Gomes durante debate em 2018
Foto: REUTERS/Paulo Whitaker

De acordo com a cientista política e professora da PUC-SP Rosemary Segurado, o presidenciável do PDT, Ciro Gomes, “quer ocupar o lugar da direita de qualquer forma”. A expectativa é angariar os eleitores desse campo que estão insatisfeitos com o presidente Jair Bolsonaro. “Só que essa guinada à direita tem um preço muito grande, que é manter o país nesse caos que estamos vivendo que só interessa à extrema-direita”, disse a analista.

Em entrevista a Glauco Faria, para o Jornal Brasil Atual, nesta sexta-feira (15), Rosemary diz que Ciro cometeu “erros graves” ao afirmar que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria conspirado pela derrubada de sua sucessora, Dilma Rousseff. De acordo com a analista, trata-se de uma “mentira”, que inclusive deveria render processos contra o pedetista.

“É importante lembrar que o impeachment contra a ex-presidenta Dilma e a prisão por 580 dias de Lula eram parte desse golpe das elites do país. E o que o Ciro faz é referendar isso” disse a cientista política. Para ela, o pedetista se comporta como um “menino mimado” que está perdendo o jogo. Além disso, ela lembra que o ex-governador do Ceará, em mais de três décadas de vida pública, não construiu um partido ou organização social.

“Ciro é um desagregador. Ele sempre foi. E o que esperar de uma pessoa que teve a votação que teve (em 2018) no primeiro turno, e no lugar de se unir aos esforços das forças progressistas, quando ainda era possível impedir Bolsonaro de chegar ao poder, viaja para fora do país?”, questionou Rosemary. Ela classificou ainda como “machistas” e “misóginos” os ataques desferidos contra Dilma.

Brizola e o “sapo barbudo”

Rosemary disse que Ciro deve desculpas a Lula e Dilma. Além disso, deveria se inspirar no ex-governador Leonel Brizola, um dos fundadores do PDT. No segundo turno das eleições de 1989, o líder trabalhista não teve dúvida em apoiar Lula contra Fernando Collor, tornando-se importante cabo eleitoral do “sapo barbudo”, como se referia jocosamente ao petista. Em 1998, essa aliança voltou a se repetir já no primeiro turno, com Brizola como vice de Lula.

“Ciro podia lembrar e se inspirar em Brizola. Ele tem todo o direito de ter uma candidatura. Mas tentar ocupar o espaço de uma terceira via anti-Lula era tudo o que o PDT, a história do PDT e Ciro Gomes não precisavam”, disse a professora.

Terceira via

Ainda sobre a chamada terceira via, Rosemary diz que faltam propostas e candidatos. “Falta basicamente tudo.” Ela destaca que o avanço da fome e os recordes de desemprego que atingem o país não aparecem no discurso dos postulantes desse campo político. “Um projeto de construção do Brasil tem que colocar essas questões como prioridade absoluta”.

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