Ciro Gomes, o coronel mimado, é o sapo que o PT tem que engolir para enfrentar a direita selvagem. Por Joaquim de Carvalho

Ciro e Lula

Os ataques de Ciro Gomes ao Lula e ao PT podem surpreender muita gente, mas não o ex-presidente, a quem Ciro serviu como ministro da Integração Regional. Em março do ano passado, quando deu entrevista para o livro “A Verdade Vencerá”, Lula foi questionado sobre seu ex-ministro.

A definição é atualíssima: ele fala de Eduardo Campos, que havia atropelado a história para ser candidato a presidente, e disse que, em política, é preciso ter paciência, virtude que Ciro Gomes demonstra que não tem.

“Eu gosto do Ciro”, disse Lula. “Só acho que o Ciro faz parte de um grupo seleto de pessoas que sabem tanto das coisas que nem perguntam para a gente ‘como vai?’, porque já sabem como a gente vai”, complementou.

Ciro poderia ter a humildade de saber ouvir.

“A gente não pergunta porque não sabe, a gente pergunta por humildade, para deixar os outros se sentirem bem ao responderem como vão. Então, o que eu acho? Acho que o Ciro precisaria aprender a conquistar o PT. Porque ninguém será candidato pela esquerda sem o apoio do PT. Ofender o PT e ofender o Lula é uma desnecessidade. Pode até me ofender, mas diga: ‘Não gosto do Lula, mas adoro o PT’. Ele não diz. Ele esculhamba com o PT.”

O jornalista Juca Kfouri, que participa da entrevista, questiona se não seria o contrário: Ciro gostaria de Lula, mas não do PT.

Ciro, de fato, passava essa impressão. Ele chegou a dizer, em 2016, que, na hipótese de Lula ser alvo de um mandado de prisão, estaria disposto a protegê-lo com uma operação para levá-lo até uma embaixada.

“Eu quero me voluntariar para formar um grupo, com juristas nos assessorando, que se a gente entender que o Lula pode ser vítima de uma prisão arbitrária, a gente vai lá e sequestra ele e entrega numa embaixada. Isso eu topo fazer”, disse, na entrevista a Kiko Nogueira, no programa que o DCM tinha em parceria com a TVT.

Muita gente se iludiu com Ciro, mas não Lula.

“Ah, mas ele fala mal. Ele não perde a oportunidade. Bom, é uma pena, porque eu gosto do Ciro. Acho que ele é uma figura inteligente. Inteligente até certo ponto, porque, se fosse inteligente mesmo, estaria defendendo o PT agora, se acredita mesmo que não vou ser candidato”, afirmou.

Os ataques mais recentes de Ciro —  em que disse que Lula se corrompeu e chamou Haddad de fraude — mereceram uma resposta da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, no Twitter. “Respeite ao menos o eleitor, Ciro. Foi ele quem escolheu levar Haddad, e não vc, ao 2o. turno”, escreveu.

Poderia ter sido mais incisiva, o PT também poderia ter emitido nota, como fez em relação ao governador Rui Costa, da Bahia, que anunciou estar à disposição para se candidatar a presidente em 2022 e considerou erro a candidatura de Fernando Haddad em 2018 — ele preferia apoiar Ciro Gomes.

Mas os dirigentes do partido optaram por uma reação mais contida. Primeiro porque conhecem Ciro: o que diz não se escreve. Ele dá uma declaração hoje que é contraditória ao que disse ontem ou dirá amanhã.

Mas não é só por isso. É também estratégia política. PT e PDT têm muitos pontos em comum e são aliados naturais em qualquer eleição. Em 2020, na eleição para prefeito, devem estar unidos em várias cidades.

O cuidado que os dirigentes do PT têm e também os do PDT é para não deixar que os arroubos de Ciro Gomes comprometam a formação de uma frente para enfrentar o bolsonarismo e a direita que tenta se organizar fora do condomínio golpista que se estabeleceu em torno de Jair Bolsonaro.

É difícil ficar contido em situações assim, de agressões abaixo da linha da cintura, mas, como ensinou Brizola em 1989, há certos momentos em que é preciso engolir sapos.

Naquele momento, era o sapo barbudo. Agora é o coronel mimado.

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