“Colapso da saúde em SP são sobras do ano novo. Vai piorar”, diz ao DCM infectologista do Emílio Ribas

Enterro de vítima da covid-19 no cemitério da Vila Formosa, em São Paulo (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)

POR LUCCAS LUCENA 

Em meio a festas, aglomerações, equívocos e omissões do governo Doria, o estado de São Paulo registrou ontem 77,9% de ocupação em UTI, tendo batido recorde diário de mortes na última terça-feira com 468 óbitos em 24 horas.

O pico da primeira onda já foi superado em internações; sendo 14,7% maior agora do que o índice registrado na 29a semana epidemiológica de 2020, em julho do ano passado.

O estado inteiro está em fase vermelha devido à piora expressiva dos indicadores. A partir de sábado só serviços essenciais poderão funcionar. São 9.601 internados na enfermaria e 7.668 internados na UTI, segundo dados da última quarta-feira.

No Instituto de Infectologia Emílio Ribas, que conta com 60 leitos de UTI, a ocupação registrada era de 100% na quinta-feira (26). O infectologista Jamal Suleiman descreve que estamos vendo “sobras do ano novo”.

“A pessoa que se infectou no fim do ano não teve alta ainda”, diz.

“Quem pegou a doença nas festas do dia 31 de dezembro pro dia 1° de janeiro, começou a ter a forma grave da infecção 10 dias depois com insuficiência respiratória e foi parar na terapia intensiva. Ainda tem um contingente considerável dessas pessoas que continuam em UTI”, completa.

No início da semana, o secretário estadual da saúde Jean Gorinchteyn alertou para que o novo perfil dos internados agora são os jovens, com idade entre 30 a 49 anos.

Segundo ele, 60% desses novos pacientes ocupam as UTIs, antes era o contrário; 60% ocupavam as enfermarias e 40% as UTIs, com um tempo medio de internação relativamente maior, passando de 7 a 10 dias para 14 a 17 dias. O doutor Pedro Ribeiro Bastos, cardiologista do InCor, Instituto do Coração, acredita que essa população perdeu o medo que tinha do vírus.

“A população idosa tem se resguardado mais e a população mais jovem, de 20 a 40 e de 30 a 50 anos, tem ficado um pouco mais descrente”, explica.

Suleiman chama a atenção para o feriado da Páscoa no mês de abril, que é em família. “Juntou ano novo e carnaval e isso vai numa onda. Tenho chamado atenção pois temos outra festa cristã que, de novo, é festa de família. De novo teremos o mesmo problema. Isso que a gente tá vivendo é reflexo de aglomerações, hora mais intensas, hora menos intensas”, afirma.

Na última quarta-feira foi registrado que 150 pessoas já não conseguiram atendimento, o que representa a “iminência de um colapso no sistema de saúde”, segundo Jamal Suleiman.

Em entrevista à BandNews, o secretário Jean Gorinchteyn também aponta que diariamente 100 pessoas precisam de UTI, e descreveu como “algo nunca visto antes na pandemia”.

Jamal Suleiman, infectologista do Emílio Ribas, em SP

O governo paulista tem uma projeção de que, em duas semanas, haverá esgotamento do sistema de saúde. Com isso, foi anunciado a abertura de 500 novos leitos, sendo 339 de UTI e 161 de enfermaria em hospitais estaduais e municipais. 

Pedro diz que as UTIs não são feitas só de macas e respiradores, e a equipe médica é parte importante no processo. “Temos um ano de pandemia já e existe um esgotamento da nossa área. A parte médica, a parte dos técnicos de enfermagem, os fisioterapeutas todo dia levantando pra se deparar com pacientes graves e angustiados. Isso mexe com nosso psicológico. Também temos nossos medos e nossa família”, conta.

Verena Laila Moniz Barreto Lima, coordenadora da equipe de psicologia do Hospital São Paulo, alerta para o cansaço e irritação das equipes médicas nessa nova onda de contágio e internações.

“Ficar 12 horas na UTI com a máscara ferindo o rosto traz muita irritação”, afirma. Ela compara com a primeira onda da doença, onde a sensação era de “impotência”. “No começo era frequente pois a doença era nova. Muitos profissionais se sentiam incapazes e era comum presenciar cenas de choro. Hoje é mais irritação”, completa.

A coordenadora diz que os profissionais da saúde estão “desgastados” com toda a situação. “Os profissionais da saúde estão completamente desgastados. Não somos reconhecidos na questão salarial e não temos opções de lazer. É uma sobrecarga mental”, explica. Verena diz que há um acompanhamento pelo bem da saúde mental dos profissionais. “Nesse momento eles precisam de suporte emocional. Muitos precisam de psicólogo ou até mesmo psiquiatra”, completa.

Jamal diz que as pessoas estão cansadas e, quando pegam o vírus, acham que o trabalho médico não é nada. “Tem paciente que pega a infecção e pergunta ‘nossa, não pode fazer nada?’. ‘Tô te ligando duas vezes por dia pra saber sua situação e você acha que isso não é nada?'”, desabafa.

Ele ainda relata que os pacientes que pegaram a doença não admitem que estavam em aglomeração. “Uma vez um paciente se contaminou e disse pra mim que só tinha ido votar. Eu sei que isso não é verdade. Mas, em compensação, passou para boa parte da família”, completa.

Como não há só pessoas com covid precisando de atendimento, ele prevê que março será grave. “Quando falamos de leitos de UTI não estamos falando só de leitos de UTI para covid. Tem outras doenças também”, diz.

“A imagem que eu tenho usado pra descrever essa situação é: você tem uma porta e passam duas pessoas, onde passa dois ao mesmo tempo não dá pra passar trinta. Com a cidade ativa desse jeito temos acidentes, facadas, infarto e tudo mais. Onde vamos colocar essas pessoas? Na UTI. Quando temos 70% de leitos de UTI ocupados por Covid, temos apenas 30% para atender todo o resto”.

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