‘Em Hollywood a virtude de uma garota sempre valeu menos que seu penteado’

Com a palavra a deslumbrante loira platinada da Era de Ouro de Hollywood.

Imperfeição é beleza, loucura é genial e é melhor ser absolutamente ridículo do que absolutamente entediante.
“Imperfeição é beleza, loucura é genial e é melhor ser absolutamente ridículo do que absolutamente entediante.”

Embora tenha se consagrado interpretando mocinhas tolas e interesseiras, a atriz americana Marilyn Monroe era muito inteligente. A escolhemos, por isso, para mais uma de nossas Conversas com Celebridades Mortas. Suas respostas foram extraídas das múltiplas entrevistas que ela concedeu em sua vida tão breve e tão gloriosamente trágica.

Miss Monroe, você foi uma grande atriz – e é considerada uma das maiores de todos os tempos. Conquistar Hollywood sempre foi seu sonho, desde pequena?

Sim, mas a verdade é que sonhar em ser uma estrela é mais excitante do que ser uma.

Dizem que o fato de nunca ter sido realmente levada a sério e sempre ser chamada para interpretar personagens tolas a deixava triste. Isso é verdade?

Eu nunca fui levada a sério. Se eu falava que pretendia crescer como atriz, me olhavam com desconfiança. Se eu falava que queria desenvolver e aprender meu ofício, riam de mim. De alguma forma, ninguém queria que eu fosse séria em relação ao meu trabalho.

Entendo. Mas esse foi o único aspecto em sua carreira que não a agradava?

Não. O pior de todos é saber que o sucesso faz com que muitas pessoas odeiem você. Eu gostaria que isso não acontecesse. Seria maravilhoso poder aproveitar o sucesso sem ver a inveja nos olhos daquele que rodeiam você.

Interpretar apenas personagens como Lorelei Lee, de "Os Homens Preferem as Loiras", era algo que incomodava Marilyn
Interpretar apenas personagens como Lorelei Lee, de “Os Homens Preferem as Loiras”, era algo que incomodava Marilyn

Mas você deve levar em conta que uma mulher que não inveje seu corpo e seu cabelo pode ser considerada louca.

E foi graças ao meu corpo e ao meu cabelo que me tornei uma lenda. Cabelos platinados e seios grandes, foi assim que comecei. Não conseguia atuar. Tudo o que eu possuía era um corpo admirado pelos homens e cabelos loiros. Na verdade, a razão pela qual fiz sucesso foi que tive muita sorte e conheci os homens certos.

Os homens certos? O que isso significa?

Bem, digamos que em Hollywood a virtude de uma garota sempre foi muito menos importante do que seu penteado.

Você teve uma vasta experiência amorosa. Teria algum conselho romântico à nos dar?

Uma garota esperta beija mas não ama, ouve mas não acredita e parte antes de ser abandonada. E, para os garotos: se você é capaz de fazer uma garota rir, é capaz de persuadi-la a fazer qualquer coisa.

Parece, miss Monroe, que a senhorita encontrou vários, ehr, digamos, “homens certos”, já que foi casada três vezes…

E, nessas três vezes, aprendi que é melhor ser infeliz sozinha do que ser infeliz com alguém. Dizem que eu era dissimulada – e eu não concordo. Nunca enganei ninguém, só deixei que as pessoas enganassem a si mesmas. Ninguém se preocupou em tentar descobrir quem eu era de verdade. Inventaram uma personagem para mim. Nunca desmenti. Nenhum de meus casamentos deu certo porque eles, obviamente, amavam alguém que não era eu.

O que é lamentável.

Sim, mas passei a acreditar que tudo acontece por um motivo. As pessoas mudam para que você aprenda a deixá-las partir, as coisas dão errado para que você as aprecie quando dão certo, você acredita em mentiras para aprender, eventualmente, que deve acreditar apenas em si mesmo… E de vez em quando coisas boas dão errado para que coisas melhores possam acontecer.


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Você foi um dos maiores símbolos sexuais de todos os tempos. Isso a incomodava ou a deixava lisonjeada?

Bem, todos nós nascemos como criaturas sexuais, graças a Deus, e é uma pena ver como algumas pessoas desprezam e esmagam esse dom natural. Mas as coisas não são simples, e um símbolo sexual se torna um objeto. E eu realmente odeio ser vista como um objeto e me sentir como tal.

Então você não considerava particularmente agradável ser vista como um símbolo sexual?

Não é isso. Durante certo tempo é bacana. Você sente orgulho disso e gosta de ser apreciada pelos homens. Mas o tempo passa, e ser um símbolo sexual se torna um fardo muito pesado para se carregar – especialmente quando você se sente exausta, magoada e desorientada.

Miss Monroe, você apareceu nua em fotos para um calendário, e para a época isso era chocante – principalmente porque você tirou a roupa em um tempo no qual as mulheres não o faziam. Não em público, eu digo.

Sempre adorei fazer coisas que não passam pela censura. Costumo dizer que, embora eu tenha estado em um calendário, nunca estive no horário.

"ser um símbolo sexual se torna um fardo muito pesado para se carregar – especialmente quando você se sente exausta, magoada e desorientada."
“ser um símbolo sexual se torna um fardo muito pesado para se carregar – especialmente quando você se sente exausta, magoada e desorientada.”

Ah, e parece que esses seus atrasos incomodavam Laurence Olivier.

Bem, estou invariavelmente atrasada para eventos – às vezes, umas duas horas. Tentei mudar meus hábitos, mas as coisas que me atrasam costumam ser muito fortes e muito agradáveis. Sinto muito se isso incomodava Larry. Mas, afinal, homens…! Vivemos em um mundo no qual eles são priorizados, não é? Bem, não me importo em viver em um mundo machista, contanto que possa ser mulher nele. A verdade é que falta ambição às mulheres que desejam se igualar aos homens.

Só por curiosidade: é verdade que a senhorita só usava Chanel no.5 quando estava na cama?

Sim, mas isso quando estou em casa. Na Inglaterra, usava apenas Lavanda Yardley.

Uma excentricidade básica…

Imperfeição é beleza, loucura é genial e é melhor ser absolutamente ridículo do que absolutamente entediante.

Antes de se tornar esse ícone, miss Monroe, você era conhecida como Norma Jean Baker. Você mudou muito desde aquela época?

Não gosto de falar sobre minha infância. Só acho que as pessoas deveriam dizer, para todas as garotinhas, que são lindas. Mesmo quando não são.

Você disse que nunca foi particularmente talentosa. Ao que, se não o talento e o lindo cabelo loiro, você atribui seu sucesso?

O público me adorava. E eu sempre soube que pertencia ao público e ao mundo, não porque fosse particularmente talentosa e atraente, mas porque nunca havia pertencido a nada e nem a ninguém.

"eu sempre soube que pertencia ao público e ao mundo, não porque fosse particularmente talentosa e atraente, mas porque nunca havia pertencido à nada e nem a ninguém."
“Eu sempre soube que pertencia ao público e ao mundo, não porque fosse particularmente talentosa e atraente, mas porque nunca havia pertencido à nada e nem a ninguém.”

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