Com anúncio pró-cloroquina, jornais depõem contra trabalho de jornalistas. Por Leonardo Sakamoto

Imagem: FERNANDO MORENO/AGIF

Originalmente publicado no UOL

Por Leonardo Sakamoto

Um manifesto da Associação de Médicos pela Vida defendendo o “tratamento precoce” contra covid-19 – aquele que usa hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, entre outras drogas que não têm eficácia comprovada contra a doença – foi publicado nas versões impressas dos jornais Folha de S.Paulo, O Globo, o Estado de Minas, o Jornal do Commercio, o Zero Hora, o Correio Braziliense, O Povo e Correio, nesta terça (23).

Os anúncios provocaram indignação nas redes sociais, principalmente entre médicos e profissionais de imprensa, pois a recomendação do uso desses medicamentos, originalmente destinados a malária, lúpus, piolho, no combate à covid tem sido tratada como desinformação.

Pior: desinformação que pode levar à morte ou ao comprometimento de órgãos, como rins e o fígado, pois esse não é o uso correto dos produtos.

Não há indicativo no anúncio de que ele seja decorrente de alguma obrigação judicial.

A Sociedade Brasileira de Infectologia, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, a Associação de Medicina Intensiva Brasileira, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Organização Mundial de Saúde (OMS), ou seja, quem representa o pessoal que está na linha de frente, afirmam que não há tratamento precoce contra a covid. As entidades médicas recomendaram, em maio do ano passado, que não se use cloroquina contra a doença.

A imprensa tem sido a responsável por garantir informação de qualidade à população, em um momento em que o governo federal e, especificamente, o presidente da República, é o principal propagador de mentiras sobre a pandemia. Suas reportagens, notícias e colunas alertam, sistematicamente, sobre o distanciamento social, única forma de prevenir a covid, e os riscos do uso de medicamentos do chamado “kit covid”.

Por isso, surpreende que esses jornais aceitaram os anúncios, fazendo receita com a disseminação de falácias e de conteúdo anticientífico considerado perigoso à saúde pública.

Se por um lado, isso prova que há uma separação entre as áreas editorial e comercial dos veículos, é também indicador de que faltam critérios mais rigorosos para a admissão de publicidade.

A maioria das empresas de comunicação já estabelece limites para aqueles que compram espaço a fim de vender produtos e ideias. É inaceitável a existência de anúncios de tráfico de pessoas, de armas e de drogas, por exemplo. Há também regras impostas à publicidade infantil ou a produtos que causam mal à saúde.

O limite não foi aplicado ao “tratamento precoce”, contudo. Provavelmente, ele foi encarado como um dos lados de um debate público equilibrado. Mas não, não é. Ele é a negação dos fatos e da ciência.

Posições defendendo essas drogas podem ser veiculadas, desde que sejam acompanhadas do devido contraditório – ou seja, da explicação de que não há provas que elas funcionam contra covid. E que podem trazer riscos à saúde e à vida de quem as usar para isso.

Mas anúncios, ao contrário de conteúdo jornalístico, não são espaços que admitem contraditório. E nem caberia uma matéria acompanhando o anúncio para explicar que aquilo não tem lastro em evidências.

Um veículo de comunicação não é uma imensa plataforma digital que emula a arena pública, mas um espaço limitado de responsabilidade de seu detentor. Portanto, a questão não pode ser vista em termos de censura ou discriminação de ideias. Da mesma forma que ninguém imagina um anúncio de meia página afirmando: “Não se vacine. Você vai virar jacaré”, ninguém deveria considerar normal um repleto de falácias, defendendo um tratamento que pode causar danos irreversíveis.

A normalização do uso da cloroquina como um ponto de vista como qualquer outro só ocorre por conta da infeliz ação do presidente da República e do governo federal. A imprensa vem lutando contra essa normalização dia após dia.

Nós jornalistas, tal como os médicos e os cientistas, remamos contra a maré na tentativa de levar fatos à sociedade. Enquanto isso, o governo federal rema no sentido oposto, vendendo curas mágicas que colocam vidas em risco. É um trabalho que já seria difícil, portanto, sem anúncios como esse.

Seria bom que cada veículo de comunicação realizasse um debate interno e abrisse espaço em suas páginas para a redação tratar do ocorrido. Não basta que o anúncio tenha vindo acompanhado do termo “Informe Publicitário”. Afinal, há mais gente que sabe diferenciar picanha de maminha do que notícia de texto publicitário que simula notícia.

Em 2015, uma investigação judicial apontou que uma grande empresa havia pago um anúncio no Google, que destacava uma notícia falsa, para me difamar. Por conta da mentira, acabei sendo agredido fisicamente na rua e ameaçado de morte, frente a frente, mais de uma vez.

O limite da liberdade de expressão é quando ela passa a ser usada para ferir a dignidade de terceiros. Se isso vale para a política e o jornalismo, vale também para a publicidade. Ainda mais em uma pandemia que já matou quase 250 mil pessoas porque seu governo foi conscientemente negligente e vendeu ilusão.

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