“Com discurso messiânico e golpista, Bolsonaro abre porta de impeachment”, diz imprensa europeia

Jornal português vê possibilidade de impeachment

Três palavras resumem o 7 de setembro na mídia europeia desta quarta-feira: ameaça, golpe e impopularidade. Na visão dos principais jornais da Europa, as manifestações de ontem refletem o pior momento de Bolsonaro, que pode piorar.

Na Espanha, o El País não hesitou em qualificar de golpistas as declarações do presidente brasileiro.

“Seu discurso, em tom messiânico e diante de uma multidão, incluiu uma ameaça golpista aos juízes do Supremo que lhe investigam por propagar notícias falsas”, em referência à frase que diz “Ou o chefe desse Poder [STF] enquadra o seu ou esse Poder pode sofrer aquilo que nós não queremos”.

“Seus constantes ataques à separação de poderes e seus gestos autoritários suscitam periodicamente o temor de um autogolpe ou algum tipo de quebra da ordem constitucional na terceira democracia do mundo”, diz a repórter Naiara Galarraga Gortázar.

“Com sua estratégia de lançar dúvidas sobre a contagem de votos, pode estar preparando o terreno, imitando Donald Trump, para questionar o resultado se em outubro de 2022 Luiz Inácio Lula da Silva derrotá-lo, no caso de ambos confirmarem suas candidaturas”, analisa.

Para a publicação espanhola, a popularidade de Bolsonaro é “minguante”.

Para o El Pais, Bolsonaro pode estar preparando derrota

Outro importante jornal espanhol, o La Vanguardia considerou como “insurrecional” o discurso bolsonarista.

“O presidente de extrema direita Jair Bolsonaro aproveitou a festa nacional para manifestações de apoio a sua figura com um ar insurrecional”, afirma Robert Mur, correspondente na América do Sul.

“Milhares de partidários do líder populista viajaram de ônibus de distintas partes do país para se concentrar na Esplanada dos Ministérios de Brasília e lançar proclamações anticonstitucionais”, aponta.

Para o jornal de Barcelona, o Brasil “é um país polarizado, que Bolsonaro tenta dividir ainda mais”.

Jornal de Barcelona afirma inconstitucionalidade de reivindicações bolsonaristas

Na Itália, os atos de ontem suscitaram o medo de um golpe. “Brasil na rua por Bolsonaro, temor de um golpe”, diz um artigo do jornal La Repubblica.

“Ele é intolerante com as regras da democracia, ele não concebe o equilíbrio de poderes. Precisa governar com seus métodos e princípios. Ele sabe que está passando pelo momento mais difícil de sua presidência, com um apoio que despencou para menos de 30%. Ele vê a possibilidade de uma reeleição desaparecer em outubro de 2022. Portanto, aqui está o apelo para uma grande mobilização”, analisa o renomado jornalista Daniele Mastrogiacomo.

Na visão do especialista em política internacional, esse é o momento “mais difícil para Jair Bolsonaro”.
“A gestão caótica da Covid, o número de mortos que se aproxima dos 590 mil, as vacinas que chegam a conta-gotas, as doses distribuídas a passos de tartaruga”.

“Juntam-se a seca, racionamento da distribuição de eletricidade, com o Ministro da Energia assumindo a gravidade da situação e convidando a todos para reduzir o consumo, tomar banho apenas no fim de semana, usar água quente apenas pela manhã, desligar a luz quando há a natural”, adiciona.

“Temor de golpe”, diz jornal italiano La Repubblica

“A economia não decola, os industriais perplexos pela falta de um plano estratégico e os investidores que pedem uma luz aos banqueiros, que também estão no escuro, incapazes de fazer qualquer previsão”, completa.
Em Portugal, o jornal Diário de Notícias observou a decepção do governo com o que viu nas ruas.

“Depois de falar do camião, Bolsonaro sobrevoou Brasília de helicóptero e terá ficado desiludido com o que o viu. Mesmo reunindo milhares de pessoas, os protestos desiludiram o núcleo duro bolsonarista”, afirma o correspondente em São Paulo João Almeida Moreira, em referência à estimativa do Valor Econômico de um público de 5% do esperado.

“Bolsonaro nunca esteve tão fraco como agora e a radicalização parece ser a arma que lhe resta”, afirma o também correspondente no Brasil João Ruela Ribeiro, em artigo no jornal Público.

Para Cátia Bruno, articulista do português Observador, os atos de ontem podem levar Bolsonaro à destituição. “Com ataques diretos a um juiz do Supremo e ameaças de não reconhecer os resultados eleitorais, Bolsonaro abriu guerra às instituições — mas também pode ter aberto a porta do impeachment”.

Na França, o jornal Libération fala no retorno dos “fantasmas do golpe de 1964”, mas também do desastre militar no governo de Bolsonaro.

A reportagem da correspondente no Brasil Chantal Rayes demonstra dúvidas quanto às estratégias dos militares, mas aponta a certeza do desgaste de sua imagem no governo federal.

“Se a instituição militar permanece popular, a confiança que lhe depositam os brasileiros recuou em 12 pontos em dois anos e meio, pois a reputação de competência e integridade dos militares não se confirmou”, afirma.

“A militarização do Ministério da Saúde, em plena epidemia, terminou em desastre sanitário (quase 600 mil vítimas oficiais). E suspeitas de corrupção pairam sobre a aquisição de vacinas”, lista.

“Além disso, os privilégios concedidos às carreiras militares, poupados da reforma da previdência, são mal vistos. A demissão em bloco, no dia 30 de março, dos comandantes das três forças armadas, algo nunca visto, alimenta ainda especulações: tentaram encontrar para a instituição uma porta de saída do governo?”, questiona.

Reportagem do jornal Libération faz alusão ao “espectro do golpe de 1964”



O Le Monde indica a perspectiva de derrota eleitoral.

“Enquanto 51% dos brasileiros desaprovam sua gestão do país, Bolsonaro nunca foi tão impopular desde sua chegada ao poder, em janeiro de 2019. Ele está muito atrás do ex-presidente de esquerda Lula nas pesquisas de intenção de voto para outubro de 2022 – projeções indicam que ele deve ser derrotado já no primeiro turno”.


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