Com homenagem à cúpula militar, empresários endossam atentados à democracia. Por Jeferson Miola

Por Jeferson Miola

Na 5ª feira, 30/7, em evento inacessível à imprensa, a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro [FIRJAN] e o Sindicato Nacional das Indústrias de Defesa homenagearam as Forças Armadas “em reconhecimento ao seu papel a serviço da paz” [sic].

Esta homenagem tem por objetivo atender a uma antiga demanda dos empresários do Rio de Janeiro. O intuito deste encontro pode ser resumido em duas palavras: reconhecimento e gratidão”, declamou o presidente da FIRJAN Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira no ato de bajulação do general-ministro Braga Netto e dos comandantes das três Forças.

A homenagem aconteceu poucos dias depois destes militares conspiradores terem intimidado senadores da CPI e petulantemente ameaçado cancelar a eleição de 2022, como se fossem tutores do poder civil e da democracia.

Dois dias antes da homenagem, o dirigente máximo do SENAI e do SESI, Rafael Lucchesi, se queixou que o “Corte de 30% ‘desmontaria’ o Sistema S” [aqui]. Era uma reação à ameaça do secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, de “passar a faca no Sistema S” para o Tesouro Nacional abocanhar R$ 6 bilhões.

A asfixia financeira do chamado Sistema S, que é financiado com dinheiro público do INSS, pode comprometer a existência deste poderoso aparelho ideológico e sindical do empresariado, capilarizado em todo o país.

Em aparente apelo diante do risco de extinção do Sistema S, Eugenio Gouvêa chamou “atenção também para uma característica comum entre o Sistema FIRJAN e as Forças Armadas: o caráter de instituições permanentes” [sic].

Oficialmente, a FIRJAN diz que o evento estava previsto para antes da pandemia, mas o fato concreto é que ele ocorreu justo no momento em que o aparelhão sindical do patronato foi ameaçado de perdas bilionárias pelo governo militar.

A estas alturas, com o morticínio de quase 600 mil pessoas, o desmanche miliciano do país, a corrupção despudorada, os atentados permanentes à democracia e a atuação partidária das Forças Armadas, é irrelevante distinguir se os empresários se dobraram à chantagem oficial ou se decidiram espontaneamente homenagear a cúpula militar.

O significado da homenagem, em qualquer caso, é o mesmo, e pode ser interpretado como endosso da fração carioca desta lumpemburguesia à espiral fascista-militar e à continuidade da barbárie.

Em que pese alguns “efeitos humanos colaterais” da devastação causada pelo governo militar, setores significativos das oligarquias dominantes continuam apoiando a continuidade deste descalabro e se opõem ao impeachment.

O motivo é compreensível: as classes dominantes não têm um projeto de país soberano e independente; são beneficiárias diretas da repartição do butim desta devastadora guerra de saqueio e pilhagem em curso no Brasil e conduzida pelo governo militar.

O “parentesco histórico” mais próximo do processo fascista-militar brasileiro é o regime hitlerista instalado na Alemanha a partir dos anos 1930.

Chama atenção, inclusive, a relativa semelhança de alguns episódios, como, por exemplo, a homenagem dos empresários da FIRJAN ao comando militar do governo do “Fuhrer brasileiro”, e a reunião secreta de Hitler com os donos da Bayer, BASF, Siemens, Krupp, Farben, Opel, Telefunken etc em 20 de fevereiro de 1933 para confirmar apoio político e financeiro do empresariado alemão ao nazismo.

Esta reunião secreta, decisiva para consolidar a autoridade e o poder do Hitler, está magnificamente descrita em “A ordem do dia”, livro do escritor francês e diretor de cinema Éric Vuillard.

A semelhança do comportamento das classes capitalistas nacionais na adesão ao nazismo e ao fascismo, como a história demonstra, é mais que mera coincidência.

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