Com Lula livre, apoiadores do ex-presidente levantam a cabeça e voltam a vestir o vermelho. Por Joaquim de Carvalho

Lula nos braços do povo, em 9 de novembro de 2019
Lula nos braços do povo, em 7 de abril de 2018

Compare as duas fotos que abrem esta reportagem. Uma, a de cima, é do dia 7 de abril do ano passado, tirada por Francisco Proner Ramos. A outra, no alto, é de Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial de Lula, tirada no último sábado, no mesmo local. São muito parecidas, mas há uma diferença que é bastante significativa. É a cor da foto.

Não que um dos fotógrafos tenha errado na luz. Muito pelo contrário. É que, na foto de sábado passado, predomina o vermelho.

Uma demonstração de que, um ano e sete meses depois da prisão do ex-presidente, os apoiadores de Lula reassumiram o vermelho ou, em outras palavras, voltaram a vestir a camisa que representa o campo progressista ou a esquerda brasileira, principalmente o PT.

Na foto de Francisco Proner Ramos, as pessoas estão vestidas de branco, azul, preto, o laranja do uniforme dos petroleiros e até vermelho — mas esta não é a cor que predomina.

Em abril do ano passado, parecia haver uma certa perplexidade, uma paralisia, um acanhamento em relação à defesa das bandeiras do PT, uma timidez que vinha acometendo a esquerda desde as primeiras denúncias do mensalão, em 2005, mas, sobretudo, a partir do julgamento pelo STF, em 2012.

No sábado passado, parece que os apoiadores de Lula tiraram a camiseta vermelha da gaveta e foram para as ruas. Sem se importarem como os outros reagiriam.

Um exemplo: Nas imediações do sindicato, ao cruzar a avenida Rotary, manifestantes ouviam logo cedo um ou outro motorista gritar Bolsonaro e proferir outro tipo de ofensa.

Não houve briga, mas logo um grupo de manifestantes com camiseta vermelha, boneco do Lula, bandeira, se posicionou na esquina, para gritar para os motoristas que passavam: “Lula livre”.

Não se ouviu mais nenhum tipo de xingamento.

Este é o dado novo, certamente resultado do aprendizado adquirido com a prisão de Lula: não se pode permanecer mais na defensiva. Muito menos de cabeça baixa.

Ficou claro que o sistema de justiça que se moveu para encarcerar o ex-presidente não tinha compromisso com combate à corrupção, mas com uma operação política para impedir que Lula disputasse as eleições.

Não havia razão para se esconder, agora muito menos.

A performance dos militantes na avenida Rotary era uma prévia do que Lula diria em seu discurso, algumas horas depois. É preciso partir para a ofensiva. “Não ser apenas resistência”, disse.

“Não tem outro jeito”, afirmou Lula. “Lembro que quando levantava às 5h pra ir na porta de fábrica nos anos 1980, muitas vezes pegava o microfone e o povo não parava. Aí eu ficava nervoso”, comentou. E quando o discurso de Lula era mais incisivo, na porta de fábrica os metalúrgicos começavam a parar e a prestar atenção.

A situação é a mesma, mas agora não apenas na porta das fábricas.

Com o seu exemplo do tempo de sindicalista, Lula deu o recado a quem não suporta mais os retrocessos e a entrega das riquezas do país. Reclamar dentro de casa ou apenas na rede social não adiantará muito.

“Não tem ninguém que conserte esse país se vocês não quiserem consertar. Não adianta ficar com medo! Não adianta ficar preocupado com as ameaças que eles fazem na televisão – com miliciano, AI-5. Este país é de 210 milhões de habitantes! E a gente não pode permitir que os milicianos acabem com esse país que nós construímos!”, disse Lula.

Parece incrível que suas palavras ecoem as de um presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, em 1933, quando tomou posse durante uma das maiores crises dos Estados Unidos — talvez a maior. O presidente americano, dirigindo-se a seus concidadãos, afirmou:

“Deixem-me garantir-lhes minha firme crença de que a única coisa de que devemos ter medo é do próprio medo — terror sem nome, sem razão, injustificado, que paralisa todos os esforços necessários para transformar recuo em avanço”.

No Brasil, 85 anos depois, Bolsonaro e os bolsonaristas representam o recuo do país, e para enfrentá-los a velha camisa vermelha — a cor do amor — já saiu da gaveta. 

Seus usuários, de cabeça erguida, podem dizer bem alto a essa nuvem de gafanhoto que avança sobre o Brasil: “Não temos medo de vocês. E estejam certos de que não vão ganhar no grito”.

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PS: Antes que alguém com déficit cognitivo critique, o vermelho é a cor que define um segmento da política, como nos EUA representa os republicanos, conservadores. No Brasil, os progressistas vestem o vermelho para defender o verde e o amarelo da bandeira do Brasil, sem bater continência para a bandeira dos EUA ou chorar quando ouvem o hino deles.

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