Com medo de um governo popular, EUA conciliam com Bolsonaro, diz José Dirceu

José Dirceu em entrevista ao Tutaméia. Foto: Reprodução/YouTube

Publicado originalmente no Tutaméia:

Por Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

“Os americanos já estão mudando de postura em relação a Bolsonaro por causa dos riscos de um governo soberano, democrático e autônomo no Brasil. O tom do Departamento de Estado em relação a Bolsonaro já é de conciliação. Uma coisa é a política ambiental, com a União Europeia e com os americanos. Outra coisa é o tratamento que eles estão dando para o Bolsonaro. Pode observar que ou há o silêncio ou há uma política de mediação. Porque eles não querem uma alternativa realmente, que sejamos nós, porque eles conhecem. No fundo, o projeto de desenvolvimento nacional brasileiro autônomo e soberano, de integração sul-americana, de presença do Brasil no mundo e de uma forte reestruturação do capitalismo brasileiro, de reformas sociais profundas no Brasil, que nós defendemos, é incompatível com os interesses dos Estados Unidos.”

É a avaliação de José Dirceu, ministro da Casa Civil no governo Lula, em entrevista ao TUTAMÉIA em que ele analisa a crise sanitária, a crise econômica e o papel das Forças Armadas, além de apontar tarefas imediatas para o enfrentamento da crise e saídas para o Brasil.

Ainda sobre o ativismo dos EUA, o ex-líder estudantil e militante da resistência contra a ditadura militar no país afirma: “Os Estados Unidos são um império e uma plutocracia. Toda a dinâmica norte-americana é o interesse dos Estados Unidos no mundo. Aliás, o Biden está deixando isso claríssimo. Uma coisa é eles tolerarem um governo como o do Bolsonaro. Outra coisa é eles contribuírem para esse governo sofrer um processo de impeachment. Ao contrário do que fizeram conosco, quando eles foram um destacamento avançado nessa articulação, como foram abertamente em 1964, como é agora na Bolívia”.

Falando sobre o desastre que atinge o país, Dirceu conclama os partidos e movimentos sociais para uma grande corrente em defesa da vida:

“Quero fazer um apelo, um chamamento a todos e todas para a solidariedade social: a luta pela vacina e pelo auxílio emergencial até o fim da vacinação, por um programa de emprego para os jovens, para as favelas, para as populações mais necessitadas do Brasil. Nossa primeira tarefa agora é essa, a solidariedade social. Todos os centros acadêmicos, sindicatos, os militantes de partidos, todos os militantes voluntários, os militantes sociais, vamos sustentar nesse momento o nosso povo. Levar afeto, carinho. E também levar alimentos, porque a fome está batendo à porta de milhões de famílias brasileiras. E vamos lutar. Lutar pelo FORA BOLSONARO!, lutar para que o Brasil tenha um governo à altura do Brasil. Um governo democrático, um governo que atenda aos anseios e às expectativas de nosso povo.”

Tragédia humanitária

O país infelizmente foi conduzido para essa tragédia. Essa é a primeira característica, infelizmente do momento histórico que nós vivemos. Uma tragédia humanitária que poderia ter sido evitada –o Brasil é um país que tem uma tradição consolidada com vacinação geral da população e é uma potência científica e tecnológica. E temos o SUS, uma grande conquista, uma das que querem destruir ao falar em enterrar a era Vargas, a era Lula. Está na Constituição de 1988 como uma grande conquista histórica das classes populares, das classes trabalhadoras.

A situação do Brasil é trágica. Temos um presidente obscurantista, fundamentalista religioso, cada dia mais envolvido –agora tem esse Bolsolão—em Nacional, a Câmara dos Deputados, todos têm processos, investigações, denúncias. É rachadinha, é laranjal, é o assassinato de Marielle e do Anderson, é o Queiroz, é o Ronnie Lessa –vocês se lembram dos fuzis do Ronnie Lessa? Cento e dezessete fuzis! Tomados sem um tiro, aquilo foi uma operação de inteligência, uma investigação.

O que nós assistimos no Jacarezinho é a expressão do que o Bolsonaro pretende. O país está sempre na borda, na fronteira de uma provocação, de uma tentativa de golpe do Bolsonaro, que fica mobilizando suas milícias, seus ativistas, liberando armamento no país –ilegalmente, espero que o Supremo coíba e que o Congresso derrube esses decretos dele. E ao mesmo tempo, procurando cooptar as Forças Armadas, o Exército, basicamente, de baixo para cima, para sua aventura autoritária e golpista, protofascista.

Autonomia do Banco Central

Nós vivemos uma situação que parece inacreditável. A União Europeia está falando em dez trilhões para reativar a economia nos próximos anos. Nós aqui estamos falando em teto de gastos, em regra de ouro! Engessamos a Constituição. Ao aprovar a PEC emergencial, já com o teto de gastos e, depois, a autonomia do Banco Central, nós constitucionalizamos uma aberração, que é tirar do parlamento e do presidente da República a soberania sobre a política econômica. Se você entregou para o presidente do Banco Central e para sua diretoria, que é uma porta giratória do sistema bancário-financeiro, a política cambial –que era do Conselho Monetário–, a de crédito também foi entregue. Você entregou, portanto, a política econômica do país.

Querem desmontar o Estado nacional, bancos públicos e estatais, e impor no Brasil aquilo que está superado no mundo, desmontar os direitos sociais que nós conquistamos –que é o objetivo claro e explícito do Paulo Guedes.

Agora querem abrir nosso mercado de serviços e compras governamentais. O Biden acabou de fechar! A Inglaterra, a Alemanha, a França estão fechando! E o governo quer abrir! Esse Guedes! Como é que pode? Como é que pode a classe média e a lite brasileira acreditar nisso? O que nós vamos ser? Colônia dos Estados Unidos? Vamos ser uma grande fazenda?

Potencial jogado fora

A pobreza e a desigualdade são a principal causa do não crescimento do Brasil, da concentração de renda, riqueza e patrimônio e do déficit público e da dívida pública. Isso é causa. Os bancos expropriam grande parte da renda da classe trabalhadora, porque quem compra uma geladeira [a crédito] paga duas, quem compra um fogão e paga dois. Ou seja, deixa-se de produzir dois e se apropria da renda. Se a estrutura tributária se apropria também, o Brasil cai no subconsumo estrutural. Como os bancos públicos não incentivam mais o crescimento, com as estatais estão sendo privatizadas, nós vamos ficar à espera do capital financeiro internacional, vamos ficar à mercê deles. Quem não controla os capitais, não controla a política cambial e monetária. É o nosso caso.

O Brasil é a quinta do mundo em território, sexta do mundo em população, uma das dez maiores economias do mundo, com um histórico de cem anos de construção de uma indústria de base, de uma estrutura científica e tecnológica, de uma soberania alimentar, energética, que tem energia nuclear, que pode ter gás, que tem tudo para fazer uma revolução científica e tecnológica, uma revolução social. Imagine então o potencial que nós temos. E o que nós estamos assistindo? É uma tragédia histórica, é jogar fora o que nossos pais e nossos avós construíram durante cem anos neste país, com essa figura patética, não fosse trágica, cômica, que é esse presidente Bolsonaro.

CPI da Pandemia

A CPI é necessária, está atuando bem. Vai consolidar, organizar, reunir, as provas daquilo que é público e notório: que houve uma política deliberada, primeiro, de desacreditar a vacina; depois, de impedir a compra, sabotar. Com relação ao isolamento, idem: desacreditar o isolamento e o uso da máscara. E não se tomou nenhuma providência em relação á reconversão da indústria. Nós podíamos ter a vacina! Cuba tem a vacina! Por não o Brasil não tem laboratórios de nível 4, como é o caso de Cuba? Porque só se cortam recursos da saúde, da pesquisa. Aliás, o Bolsonaro fez isso no orçamento. Esse é o papel da CPI, além de dar consciência à população, formar uma opinião pública consolidada sobre isso.

Dormindo com o inimigo

O impeachment não sai porque a elite do país, empresarial, política, não quer. Se ela quisesse, sairia. Ela tem maioria no Congresso, nós não temos. Temos cento e trinta, cento e quarenta deputados, dezoito, vinte e dois senadores. Não é só o centrão. O PMDB, o DEM e o PSDB, são eles que decidem isso. É a Faria Lima!. No fundo, eles estão dormindo com o inimigo. Porque o Bolsonaro é o inimigo dos próprios interesses deles. Nós sabemos como acaba isso –a Itália fascista, a Alemanha nazista. Vamos lembrar que, quando acabou a Segunda Guerra Mundial, a Europa toda estava destruída. Isso é o resultado. O que Bolsonaro está fazendo é levar todo o rebanho a ser contaminado, morrem um milhão, um milhão e meio, dois milhões para se resolver o problema. É a destruição da economia do país. Nós estamos vivendo essa situação na economia por responsabilidade dele. Quanto mais fossem efetivos o isolamento, a vacinação, mais rápido a economia andaria.

Quem não tem vontade política de tirar Bolsonaro são as elites. Há na verdade uma tolerância, uma convivência, um conluio com Bolsonaro porque ele foi um seguro contra as esquerdas e continua sendo, de certa maneira. Como eles não têm alternativa ao Bolsonaro, porque eles destruíram a vida político-partidária do país, desmoralizaram os políticos, agora eles estão com um dilema. A elite brasileira, a face dela é essa. Estamos vendo a irresponsabilidade histórica que ela está cometendo.

Forças Armadas

O Brasil precisa de Forças Armadas, muito superiores às que nós temos, porque tem seiscentos, setecentos barcos pescando ilegalmente no nosso Atlântico Sul. Temos todo o Atlântico para defender, o pré-sal, toda a infraestrutura do país, a foz do Amazonas, precisamos desenvolver a energia nuclear, precisamos desenvolver o veículo de lançamento para ter uma defesa de mísseis no país. Mais isso significa um país soberano e autônomo. Não. Eles querem submeter nossas Forças Armadas ao Comando Sul norte-americano e à Otan. Nós vamos ficar sob o guarda-chuva dos Estados Unidos! O Brasil! Os Estados Unidos vão defender o Brasil? Vão nada!

Não há nada contra os militares nem de eles terem um status constitucional, um status previdenciário em condições salariais, profissionais diferenciadas. Porque eles estão para ir para a guerra. É evidente que ninguém está contra as Forças Armadas. Pelo contrário. Eu gostaria que tivéssemos Forças Armadas altamente desenvolvidos tecnologicamente, um Exército profissional, agora um Exército que não pode falar em política. Pode discutir, debater os assuntos nacionais, pode opinar nos fóruns que o Estado tem, que o governo tem, mas não pode participar de política, não pode dizer absolutamente nada sobre as decisões do parlamento, do Judiciário, do presidente da República. Não pode. Nem eles nem as Polícias Militares. Por que se não, não é democracia, é governo militar. Então eles que assumam as consequências disso. Assumiram de 1964 até 1985, e as consequência o país conhece: grande parte do atraso político institucional brasileiro, do atraso das lideranças políticas foram os 21 anos de ditadura.

Lula

Lula está no caminho completamente correto. Para governar o Brasil, nós temos de dialogar com todas as forças políticas. A situação em que o país está exige isso. Aliás, nós sempre dialogamos.

Ao mesmo tempo em que ele tem dito que vai fazer reformas, que tem um compromisso de superar o bolsonarismo, ele também sinaliza que quer o diálogo, que busca compor uma aliança mais ampla que a esquerda. Qual será a amplitude dessa aliança depende muito também das outras forças políticas, que também não estão definidas ainda.

Lula tem um papel importante no país. Acredito que ele pode conduzir o Brasil para se reconciliar consigo mesmo, para pacificar o país, sem que isso signifique abandonar as reformas que nós queremos fazer e a radicalização da democracia que nós queremos.

Acredito que Lula fará uma política a mais ampla possível para superar o bolsonarismo. Fará o impossível para ela ser consequente com o compromisso que ele tem de fazer profundas reforças sociais no Brasil.

Nós não vivemos um período revolucionário. O mundo não é um mundo em revolução; é um mundo em transformação, em mudança, que está também enfrentando uma grande encruzilhada. É um momento em que precisamos ter consciência de nossos limites, não para que nós não ousemos ultrapassá-los, mas para que tenhamos consciência e da real situação em que vamos assumir o governo.

Democracia e Soberania

Primeira tarefa democrática: afastar Bolsonaro e reimplantar a democracia no Brasil. Temos de ser o mais amplo possível contra Bolsonaro, o mais consequente possível em termos de formar um governo.

Segunda tarefa: Soberania, retomar a autonomia da política econômica e da política externa, do nosso lugar no mundo.

Terceiro: fazer uma revolução social no país.

Se vamos conseguir ou não, é outra questão. Essas têm de ser as lutas de nossas forças.

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