Com o impeachment, Hélio Bicudo abriu espaço para um filho da ditadura que ele combateu nos anos 70. Por Kiko Nogueira

Hélio Bicudo

A História é uma dama caprichosa.

Hélio Bicudo morreu na terça, dia 31, aos 96 anos.

Professor de Direito da USP, um dos primeiros membros notórios do PT (saiu em 2005), teve um papel fundamental em momentos-chaves do Brasil, para o bem e para o mal.

Promotor em São Paulo nos anos 70, encarou o Esquadrão da Morte, levando à condenação alguns de seus integrantes em pleno regime militar.

O delegado Sérgio Paranhos Fleury, um torturador psicótico, chegou a ser preso, mas foi logo posto em liberdade por um casuísmo da legislação. 

Foi também um dos autores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff. Enfronhou-se no golpe com entusiasmo juvenil.

Janaína Paschoal, co-autora da peça e sua amiga de infância de ocasião, o acompanhou em diversas entrevistas, açulando seus baixos instintos.

Lula virou seu arqui inimigo, símbolo da corrupção universal.

Bicudo nunca perdoou o antigo companheiro por não ter sido nomeado para uma representação em Genebra em 2004. Seu filho, José Eduardo, falou em depoimento ao DCM sobre o ressentimento do pai.

“O que mais me impressionou foi o enriquecimento ilícito do Lula. Ninguém fala nisso, mas eu conheci o Lula numa casa de 40 metros quadrados. Hoje, o Lula é uma das grandes fortunas do país. Ele e os seus filhos”, disse num Roda Viva, sem apresentar uma única prova.

“O Lula se corrompeu e corrompe a sociedade brasileira como ela é hoje através da sua atuação como presidente da República”, repetia.

“Eu acho que a saída da Dilma não vai gerar trauma algum. As pessoas vão respirar fundo, dizendo: ‘Puxa, saiu”.

Bem, deu no que deu.

Bicudo acaba seus dias como ídolo da escumalha de extrema direita que saiu do esgoto a partir de 2013, espumando ódio, burrice e indignação seletiva.

O homem que enfrentou a máquina da repressão abriu espaço, com uma farsa jurídica, para uma cria da ditadura ganhar chances de virar presidente da República.

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