Com redução na renda, metade dos paulistanos fez bicos em 2020

Publicado na Rede Brasil Atual

Comércio ambulante também foi alternativa do paulistano para complementar a renda. Agência IBGE

Por Tiago Pereira

Cerca de quatro em cada dez paulistanos (43%) notaram queda nos seus rendimentos durante o ano de 2020, segundo pesquisa da Rede Nossa São Paulo. Em 2019, esse índice era de 31%, o que revela os impactos econômicos da pandemia. Essa redução atingiu principalmente a população com 55 anos ou mais. Mas também complicou a vida de mulheres, jovens e negros, revelando impactos desiguais. Diante desse empobrecimento, quase metade (48%) dos moradores da capital declarou ter feito alguma atividade complementar – os chamados “bicos” – no ano passado.

Os dados da nova edição da pesquisa “Viver em São Paulo: Trabalho e Renda“, divulgados nesta quarta-feira (24), apontam que bicos em serviços gerais, como reformas e consertos domésticos, foi o frequente, adotado por 10% desse contingente – ante 4% das mulheres. Entre os homens, esse tipo de ocupação chegou a 16%.

Em segundo lugar, 7% dos entrevistados recorreram à venda de alimentos produzidos em casa, como bolos, pães, doces e marmitas. Essa foi a atividade citada por 10% das mulheres que procuraram complementar a renda. Já os homens que cozinharam para fora no ano passado somaram 4%.

Na sequência aparecem as funções de vendedor ambulante (5%), artesanato (4%), serviços de beleza (4%). Bicos na área de segurança foram citados por 3% dos entrevistados. Nos aplicativos, as entregas somaram 2% das atividades complementares. E o transporte de passageiros, apenas 1%. Outros 19% mencionaram ainda outras atividades.

De acordo com o coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo, Jorge Abrahão, os números da pesquisa revelam uma deterioração das condições econômicas da cidade. “No fundo, as pessoas estão muito apertadas do ponto de vista financeiro. O que faz que elas caminhem para a busca de alternativas, que são os bicos. Mesmo as pessoas que trabalham buscam suprir essa redução de renda”, afirmou.

Por região

A percepção de queda na renda foi maior entre os moradores das regiões leste e sul. Na primeira, esse número subiu de 28% para 46%. Na segunda, houve salto de 28% para 43% na percepção de empobrecimento. Por outro lado, os moradores do centro foram aqueles que mais relataram estabilidade na renda, com 56%. Na cidade como um todo, 41% relataram estabilidade. E apenas 10% disseram que sua renda aumentou. No sentido contrário, a região oeste registrou o maior número de pessoas (58%) que disseram que não precisaram recorrer aos bicos.

Peso no bolso

Também subiu de 43% para 50% o percentual de paulistanos que apontaram a alimentação como o item de maior impacto no orçamento doméstico. Para aqueles com formação até o ensino fundamental, este índice chega a 60%. Na sequência, foram citados moradia (24%), saúde (12%), educação (4%), transporte (3%), lazer (3%) e vestuário (1%).

Emprego

Além disso, 15% dos paulistanos declararam que estavam desempregados. Mas, novamente, a falta de trabalho atinge desigualmente as pessoas, de acordo com a renda, idade, nível de escolaridade, cor e região. Entre os jovens de 16 a 27 anos, 27% procuram uma ocupação. Nas classes D e E, este índice atinge 24% da população. Entre os pretos e pardos, os desempregados somam 20%. A região sul concentra o maior número de desempregados, com 22%.

Cerca de quatro em cada dez estão desempregados há cerca de 1 ano. Na hora de procurar emprego, o registro em carteira é citado como o fator mais importante, seguido pela remuneração. Os benefícios, como vale refeição, plano de saúde, auxílio creche, entre outros aparecem em terceiro.

Empreendedorismo

A pesquisa também revelou que dois em cada cinco paulistanos gostariam de ser empreendedores se tivessem a opção daqui a dois anos. Nas classes D e E, esse número chega a 50%. Por outro lado, um em cada quatro prefere ser autônomo. Outros 19% optariam por um emprego com carteira assinada.

A falta de recursos é o obstáculo mais citado por aqueles que gostariam de ter um negócio próprio. Já a burocracia é uma dificuldade mencionada por três em cada 10. Outros 24% apontam que o cenário econômico atual não é favorável.

Contudo, na opinião do sociólogo Clemente Ganz Lúcio, ex-diretor técnico do Dieese, a vontade de empreender deve ser vista com ressalvas. Na verdade, trata-se de uma busca por alternativa às péssimas condições do mercado de trabalho. Ele também destacou que a desigualdade social deve ser tratada com urgência, pois se confirma como um “impeditivo estrutural” para o desenvolvimento do país. Além disso, faltam políticas voltadas para o crescimento econômico.

“Quando o país tem uma dinâmica econômica que favoreça o desenvolvimento produtivo, as ocupações assalariadas são as que mais crescem. E rapidamente reduzem o trabalho autônomo e o trabalho por conta própria, muitas vezes caracterizados como empreendedorismo. Por outro lado, o empreendedorismo é uma resposta às péssimas condições de trabalho, da desproteção, da jornada excessiva e ausência de vínculos laborais estáveis. Além dos péssimos salários pagos pelos empregos sem carteira assinada”, afirmou.

A pesquisa foi realizada entre os dias 5 de dezembro de 2020 e 4 de janeiro de 2021. Foram ouvidas 800 pessoas acima de 16 anos de todas as regiões da cidade. A margem de erro de é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos.

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