Com treino militar, Venezuela prepara população para resistir a ataque dos EUA. Por Fania Rodrigues

Escola de formação realiza exercícios militares com dirigentes de movimentos populares / Reprodução: Brasil de Fato/ Fania Rodrigues

PUBLICADO NO BRASIL DE FATO

POR FANIA RODRIGUES

Mão no gatilho, fuzil em punho, passos firmes, olhar atento. Essas são as primeiras instruções que recebe Alida Calabres Veróis, de 54 anos, assistente social que se alistou num curso de treinamento militar para civis para ajudar a defender a Venezuela no caso de uma invasão norte-americana. O chavismo está se preparando para um possível cenário de guerra, dadas as reiteradas ameaças dos Estados Unidos. Nos últimos dez dias, cursos como este já treinaram 1.700 futuros combatentes.

Os cursos têm duração de um dia. Alida participou do treinamento no último sábado (25), na Escola Agroecológica de Formação Política e Militar, zona sul da Grande Caracas, no distrito de Caricuao, município Libertador. A atividade foi acompanhada pelo Brasil de Fato. Entre os 200 participantes deste dia, estavam líderes comunitários e dirigentes de 19 movimentos populares da Venezuela. Essa é a quarta turma que recebe treinamentos militares. Os outros grupos eram formados por pessoas de várias origens sociais.

Por enquanto, apenas essa escola realiza esse tipo de formação em Caracas, mas a ideia é abrir outras 22 até outubro deste ano, uma em cada distrito da capital. “Estamos falando de 100 mil pessoas treinadas este ano”, afirma a prefeita de Caracas, Erika Faria, que vem das fileiras de um movimento cívico-militar, a Frente Francisco de Miranda.

Os treinamentos incluem a manipulação de armas longas, mas também táticas de proteção, como camuflagem, defesa pessoal com luta corpo a corpo, estratégia militar, comunicação não-convencional, como mensagens codificadas e sinalizadores, e reconhecimento de situações de perigo e de materiais que podem ser usados pelos inimigos. Também são realizados exercícios de campo com barreiras naturais e artificiais.

Alida rasteja rápido, abaixo de uma barreira arame farpado, enquanto escuta rajadas de fuzil, que soam como se estivessem ao pé do ouvido. “Rápido, porque os gringos estão chegando”, grita o instrutor Marai Gabriel, que aperta o gatilho com o fuzil apontado para o alto. Os constantes disparos durante os exercícios fazem parte do treinamento, para familiarizar com o som, reconhecê-lo à longa distância e não entrar em pânico quando o disparo for próximo.

Um calor de quase 40 graus também castigava os novos combatentes. Uma cortina de poeira provocada pelo vai e vem dos exercícios dificulta a respiração, assim como o forte cheiro de pólvora. Mas nada parece deter Alida. Uma das coordenadoras do Movimento Somos Venezuela, ela, neste dia, deixou de lado suas tarefas cotidianas para aprender a manipular armas, identificar explosivos, usar camuflagem e agir em ambientes hostis.

“É preferível suar uma gota de água do que ter que derramar uma gota de sangue. Aqui nesse terreno, na cidade de Caracas, estamos nos preparando como povo organizado para defender a pátria em todos os cenários, em todo o território”, diz a dirigente, disposta a entrar na luta armada, se necessário. “Somos um povo com armas, e essas armas serão usadas para defender nosso território e a revolução”, afirma a assistente social.

Yzamary Matute, integrante da direção nacional da juventude do Partido Socialista Unidos da Venezuela (PSUV), explica como funciona e qual a finalidade desse tipo de treinamento. “O processo de formação se realiza em várias etapas. O primeiro deles é poder reconhecer o território onde estamos, quem vive aí, nossa lógica e poder estar precavido de qualquer situação irregular, como a presença de agentes paramilitares ou de agentes do império [estadunidense]. Também trabalhamos a questão da preservação da saúde, da integridade e a necessidade de ter conhecimento tático de resguardo de remédios e alimentos em cada zona”.

A jovem fala ainda de como as diferentes mensagens enviadas pelo governo dos EUA e a oposição venezuelana contra o governo de Nicolás Maduro reforçam a ideia de que “todas as opções estavam sobre a mesa”, incluindo a militar. “Estamos nos preparando para um cenário de guerra”, diz a dirigente, que destaca a importância das lideranças locais. “Nas organizações políticas e movimentos estamos nos formando para poder defender o povo, para ter os conhecimentos táticos e estratégicos básicos, para que, em caso de um conflito, nossos dirigentes possam responder da maneira mais adequada.”

O treinamento ocorre em um ambiente na Venezuela que pode ser definido como o de uma “calma tensa”, como avalia o sociólogo argentino Marco Terrugi. “Na superfície, o ambiente é de calma, mas nos bastidores sabemos que [a oposição e EUA] estão preparando algo.”

Força da união cívico-militar

O treinamento militar está dividido em 15 etapas, que incluem, entre outros ensinamentos, táticas de dissuasão para diminuir a força do inimigo; defesa e proteção pessoal e da comunidade; e combate em cenário de guerra continuada e não convencional. A participação é voluntária e não remunerada. Ao longo do dia, o futuro combatente recebe um sanduíche e uma fruta.

“O convite para realizar o treinamento militar se estende a todas as pessoas que tenham amor à pátria, que defendam nossa soberania. Não importa a idade, a religião e a cor da pele. O importante é que esteja comprometido com a defesa da pátria”, destaca o primeiro-tenente José Rodríguez, 60 anos. Ele é comandante do batalhão Paróquia Vegas, região de Caricuao, e um dos instrutores.

Um bom exército pode evitar uma guerra, acredita o tenente. “Esses exercícios são importante para a preparação do povo, consciente e revolucionário, para a defesa da pátria, vendo as ameaças já conhecidas internacionalmente feitas pelo império norte-americano. Porque se você quer a paz, prepara-se para a guerra”. Porém, ele esclarece que essa preparação é dedica ao combate de um possível “exército invasor”, pois aqui não haverá “guerra entre venezuelanos”. A orientação em relação a ações violentas de opositores é neutralizar a violência, identificar e evitar a ação, nunca contra-atacar.

O camponês Pedro Roberto, 41 anos, dirigente do Movimento de Agricultores de Caracas, estava ansioso para o treino e chegou cedo no local. A pele curtida de sol e os braços de quem trabalha com a terra agora preparam-se para a guerra. “Nós aqui estamos em paz, fazendo treinamento físico, militar e de inteligência para garantir nossa liberdade. O exército da Venezuela apenas liberta, não invade, nunca invadimos nenhum país. Nesse momento estamos defendendo nossas riquezas. Isso é nosso, dos venezuelanos em primeiro lugar, e também dos povos da América Latina”, diz o agricultor.

Assim também pensa a atriz Carla Celeste Agular Marcano, 20 anos. No último sábado, ela trocou o palco pelo teatro da guerra. “As duas coisas, a guerra e a arte, não estão muito separadas, porque também nas artes e no teatro estamos em resistência”, afirma Carla, estudante e integrante do movimento feminista Faldas R. Para ela, a mulher venezuelana tem um papel fundamental na resistência política. “A mulher joga um papel muito importante nesse contexto revolucionário, a mulher também é combatente, é a que luta, que dá a cara por esse país e essa revolução. Essa é uma luta constante, sobretudo aqui em Caracas, devido às guerras que nos submeteram ultimamente. Aqui seguimos, seguimos na luta”, ressalta a jovem.

Segundo dados do governo, a Venezuela tem cerca de 3 milhões de combatentes leais a Maduro. Isso representa quase 10% da população do país, que hoje é de 31 milhões de habitantes.

Nessa conta entram as tropas oficiais, que somam 600 mil militares, a Brigada Nacional Bolivariana, com 1,4 milhão de pessoas formalmente alistadas, e os cidadãos comuns, não alistados em nenhum corpo de segurança, mas que estão armados e prontos para a reação, e que de acordo com o governo chegam a 1 milhão.

 

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