Comandantes dos EUA defendem guerra “sangrenta” contra o Irã por razões “bíblicas”

Atualizado em 3 de março de 2026 às 20:32
Destruição no Irã após ataques - REUTERS/Ronen Zvulun
Destruição no Irã após ataques – REUTERS/Ronen Zvulun

Em menos de uma semana, a ofensiva conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã provocou mortes em larga escala. Mais de 180 pessoas firma mortas no bombardeio a uma escola primária. Hospitais e outros alvos civis também foram atingidos.

Paralelamente, militares norte-americanos afirmam que mensagens de cunho religioso vêm sendo transmitidas dentro das tropas para justificar o conflito.

Durante uma reunião realizada na segunda-feira, enquanto o presidente Donald Trump autorizava bombardeios intensos sobre Teerã, um comandante de unidade de combate teria dito a graduados que o comandante-em-chefe foi “ungido por Jesus” para iniciar um processo que levaria ao Armagedom e marcaria o retorno de Cristo à Terra.

A denúncia foi enviada por um desses militares à Military Religious Freedom Foundation (Fundação para a Liberdade Religiosa nas Forças Armadas), que afirma ter recebido ao menos 110 relatos semelhantes desde o início dos ataques.

O Departamento de Defesa dos EUA mantém normas contra proselitismo religioso dentro das Forças Armadas, em respeito à Primeira Emenda da Constituição. Ainda assim, sob o comando do secretário de Defesa Pete Hegseth, cristão evangélico que já declarou que o Ocidente deveria travar uma “cruzada” contra o islã, referências ao nacionalismo cristão teriam se tornado frequentes.

O fundador da entidade, Mikey Weinstein, veterano da Força Aérea que trabalhou na Casa Branca durante o governo de Ronald Reagan, afirmou ao jornalista independente Jonathan Larsen que a organização recebeu um grande volume de queixas. Segundo ele, todas apresentam um ponto em comum: entusiasmo de comandantes ao interpretar a guerra como sinal da aproximação do fim dos tempos descrito no Livro do Apocalipse.

Weinstein relatou que alguns superiores destacaram o caráter violento do confronto, argumentando que o derramamento de sangue seria necessário para cumprir a escatologia cristã fundamentalista.

De acordo com Larsen, as reclamações partiram de mais de 40 unidades distribuídas por pelo menos 30 instalações militares, envolvendo comandantes de todos os ramos das Forças Armadas.

Um militar graduado que preferiu não se identificar disse que seu comandante orientou que fosse informado às tropas que a guerra fazia parte do “plano divino de Deus”, citando trechos do Apocalipse sobre o Armagedom e o retorno iminente de Jesus Cristo. Ele afirmou que o oficial demonstrava satisfação ao fazer tais declarações, o que causou desconforto entre os presentes.

O militar afirmou ser cristão, mas encaminhou a denúncia em nome de 15 subordinados, entre eles ao menos um muçulmano e um judeu. Segundo ele, as falas prejudicam o moral da tropa, comprometem a coesão da unidade e violam o juramento de defesa da Constituição.

O nacionalismo cristão há décadas aparece na cultura militar dos EUA e já foi mencionado por presidentes como George W. Bush, que descreveu a Guerra ao Terror como uma “cruzada”.

Hegseth também promove cultos de oração cristã no Pentagon durante o expediente e critica o que chama de “humanismo secular” e “esquerda sem Deus”. Ele recebeu no prédio o pastor fundamentalista Doug Wilson, que defende que os Estados Unidos se tornem uma teocracia cristã e se opõe ao direito de voto das mulheres.