Comando Vermelho: relatório da PF enviado a Moraes expõe os elos da facção com o exterior

Atualizado em 11 de março de 2026 às 19:47
Pichação do Comando Vermelho. Foto: reprodução

Um relatório de inteligência da Polícia Federal enviado ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), detalha como o Comando Vermelho (CV) se transformou em uma organização criminosa internacional com atuação em diversos países e presença consolidada em grande parte do território brasileiro. O documento integra a investigação sobre a infiltração do crime organizado na política do Rio de Janeiro.

Segundo a PF, integrantes da facção atuam atualmente no Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia, países utilizados tanto como refúgio para foragidos da Justiça brasileira quanto como bases estratégicas para negociações ligadas ao tráfico de drogas e armas. Nessas regiões, o grupo negocia rotas e preços do comércio ilegal e estabelece conexões logísticas para o transporte de entorpecentes e armamentos até o Brasil.

Na Colômbia, a polícia destaca a relação entre o Comando Vermelho e dissidentes das antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), especialmente na região amazônica. Essas conexões foram observadas desde a prisão de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, em 2001, quando ficou evidenciada a cooperação entre o CV e a guerrilha colombiana no tráfico de drogas e armamentos.

“A atuação conjunta visa facilitar o transporte de drogas para o território nacional, abastecendo o mercado interno e viabilizando a exportação para outros países”, afirma o relatório da Polícia Federal.

A investigação também aponta o papel da região amazônica, especialmente a tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia, como um dos principais corredores logísticos do narcotráfico. A chamada “Rota do Solimões”, que utiliza o Rio Amazonas para transportar drogas produzidas em países vizinhos até Manaus, é considerada estratégica para a facção.

Além do tráfico de drogas, o relatório indica que o Comando Vermelho participa de crimes ambientais, como exploração ilegal de ouro, grilagem de terras, contrabando de madeira e lavagem de dinheiro por meio de investimentos em atividades aparentemente legais, incluindo o agronegócio.

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), sério
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) – Reprodução

A PF também identificou um esquema estruturado de tráfico internacional de armas. De acordo com o documento, brasileiros que vivem nos Estados Unidos compram peças e munições alegando uso em clubes de tiro ou manutenção de equipamentos e desviam os componentes. Posteriormente, as armas são montadas principalmente no Paraguai e enviadas ao Brasil sem numeração ou registro.

Grande parte dos fuzis apreendidos no país apresenta indícios de montagem com peças que reproduzem modelos da fabricante estadunidense Colt. Os dados mostram aumento expressivo nas apreensões: crescimento de 28,6% em 2022, 32,9% em 2023 e 12,8% em 2024. Até 2025, já foram apreendidos 1.396 fuzis no Brasil, sendo cerca de 37% no Rio de Janeiro.

O relatório também aponta que o Comando Vermelho mantém presença direta ou alianças com facções regionais em diversos estados brasileiros, ampliando sua rede de atuação e consolidando rotas do tráfico.

“A atuação em outros estados brasileiros e em países vizinhos reforça a necessidade de cooperação entre instituições, compartilhamento de dados e ações coordenadas. O Comando Vermelho, ao estabelecer conexões fora do país, diversifica suas fontes de renda, fortalece suas rotas e amplia seu acesso a armamentos e insumos ilícitos”, diz o texto.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.