Combater o nazismo é empreitada de alto risco. Por Moisés Mendes

Atualizado em 28 de março de 2023 às 22:06
Marcia Tiburi e Kim Kataguiri. Foto: Reprodução

Publicado originalmente no “Blog do Moisés Mendes”

No Brasil, pregam o nazismo em shows, escolas, nas ruas, porque é fácil e não dá nada. O difícil é provar que alguém é disseminador de ideias nazistas ou envolvido em algum fato ou uma fala que caracterizem uma ação nazista.

É complicado. Os nazistas estão impunes por aí. Mas é fácil condenar alguém que apontou um extremista de direita por defender a liberdade de organização e expressão de nazistas e assim permitir a apologia ao nazismo.

A filósofa Marcia Tiburi foi condenada, já na Justiça de segunda instância, por ter dito que Kim Kataguiri defendia a apologia ao nazismo.

Por que foi condenada? Porque é assim que funciona a Justiça. Dependendo do juiz, o nazista escapa, escapam seus seguidores e apologistas, escapam principalmente seus protetores com muitos dinheiro.

E quem se dispõe a enfrentar o nazismo acaba sendo o único condenado. Quem se dedica a identificar, denunciar e investigar pregadores do nazismo sabe que é uma batalha dura, só para os bravos.

O nazista tem mais suportes do que se imagina. E muitos desses suportes são dissimulados.

Minha solidariedade a Marcia Tiburi e aos que não desistem de enfrentar essa gente, com todos os riscos envolvidos.

Porque ser contra nazistas ucranianos é uma barbada, tendo nazistas aqui ao nosso lado, circulando pelas ruas e fazendo ameaças.

Não há valentia nenhuma em combater nazistas ucranianos, em nome da guerra de Putin. Há, na verdade, uma tentativa de fuga da realidade mais próxima.

Compartilho texto da coluna de Mônica Bergamo na Folha

Marcia Tiburi diz que Judiciário é fascista após juízes manterem decisão pró-Kim Kataguiri

Deputado processou filósofa após ser associado ao nazismo por fala no Flow Podcast

A filósofa Marcia Tiburi chama de “fascista” o Judiciário brasileiro ao comentar uma decisão a favor do deputado federal Kim Kataguiri (União Brasil-SP), proferida pela Segunda Turma Recursal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios na quarta-feira (22).

O colegiado decidiu que a filósofa deve pagar R$ 5.000 por danos morais que teriam sido causados quando Tiburi acusou o parlamentar de fazer apologia do nazismo. “O que a Câmara dos Deputados fará com o deputado Kim Kataguiri por fazer apologia do nazismo?”, publicou ela no Twitter, à época.

O episódio ocorreu em fevereiro do ano passado. Na ocasião, o integrante do MBL participava do Flow Podcast quando o então apresentador Monark defendeu o direito de existência de um partido nazista —ele acabou desligado do canal.

A deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), uma das convidadas da atração, rebateu e questionou se Kim achava errado a Alemanha ter criminalizado o nazismo. O deputado respondeu que sim.

Apesar da declaração, em primeira instância a juíza Oriana Piske concluiu que o deputado não se manifestou “favorável à abominável ideologia”, ao contrário do que teria sugerido Tiburi, e que a filósofa “incorreu em equívoca avaliação do seu conteúdo”.

Marcia Tirubi recorreu, mas a Segunda Turma Recursal da corte, ao julgar o caso nesta quarta-feira (22), manteve a decisão de primeira instância. Ainda é possível recorrer.

“O que caracteriza o dano moral, quando há crítica à pessoa que desempenha um cargo público, em especial, os políticos, é o abuso do direito de criticar. No caso, a parte ré [Tiburi] nominou o autor de nazista”, afirmou o juiz Arnaldo Corrêa Silva, relator do processo.

O magistrado ainda afirmou que, ao analisar a participação de Kim no Flow Podcast, verificou que não houve apologia do nazismo e que Kim mostrou-se “veementemente contra” o regime quando defendeu que cidadãos tenham acesso a “livros e registros históricos provenientes do nazismo” para se informar.

“É senso comum que no Brasil hoje vive-se a intolerância com o pensamento e palavras daqueles que possuem posicionamento divergente. Banalizou-se discursos de ódio, sendo comum denominar as pessoas de nazistas, fascistas, comunistas e etc”, declarou o juiz.

“Frisa-se que esses termos muitas vezes são proferidos sem que se saiba o real significado de cada um desses adjetivos”, seguiu o magistrado, cujo voto foi acompanhado por unanimidade. “É grave a conduta de imputar a pecha de nazista a alguém.”

Kim pedia à Justiça que a escritora fosse condenada a pagar uma indenização no valor de 40 salários mínimos por danos morais, o que não foi atendido.

Procurada pela coluna, Tiburi diz que o MBL usa a sua imagem para tentar se reposicionar politicamente e que a decisão judicial é injusta e fruto de uma suposta “mistificação” . “Ninguém que seja a favor da democracia pode defender partidos nazistas ou fascistas”, afirma a filósofa.

“Ele defendeu um partido nazista, e o que eu apontei foi esse problema. Pode alguém defender o nazismo sem ser nazista? O nazismo é uma ideologia extremista de direita, ou seja, politicamente limítrofe, o que quer dizer que não suporta a democracia. Ou seja, onde há extremismo, não há democracia. Ninguém que esteja numa democracia pode defender extremismos”, segue.

Tiburi ainda cita conflitos que teve com o MBL em 2018, como quando um grupo de pessoas usou máscaras com o rosto de Kim durante um evento do qual participou, para afirmar que o grupo usa “a misoginia como tática de guerra”.

“Eles transformaram a minha vida num inferno”, afirma a filósofa. “Eu ter que pagar em dinheiro para quem me persegue há tanto tempo, é algo que explica o sistema da injustiça. E o fato de que grande parte do Judiciário é fascista e machista e certamente está adorando ajudar na perseguição”, completa.

No ano passado, após a repercussão negativa de sua participação no Flow Podcast, Kim Kataguiri pediu desculpas. “Eu errei. Eu disse algo que ofende a comunidade judaica. Que faz com que ela se sinta ameaçada”, disse em uma live.

Por causa do episódio, Kim também processou o ex-deputado Jean Wyllys e outras 16 pessoas por imputação de apologia ao nazismo. O ex-parlamentar chegou a ser condenado a pagar uma indenização de R$ 5.000.

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