Comerciantes que votaram no PT são ameaçados por bolsonaristas

Atualizado em 28 de outubro de 2026 às 14:26
Mensagens contra empresas em grupo de comerciantes de direita em Curitiba
Mensagens trocadas em grupo de comerciantes de extrema-direita contra empresas associadas ao apoio a Lula em Curitiba. Foto: Reprodução

Empresários de diferentes estados relataram ameaças, mensagens hostis e temor de prejuízos depois que listas bolsonaristas passaram a indicar boicotes a estabelecimentos associados ao apoio à reeleição do presidente Lula (PT). As mensagens circularam após a vitória de Lula no segundo turno de domingo (25), que teve o senador Flávio Bolsonaro (PL) como candidato derrotado.

As listas alcançaram São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Rio de Janeiro e cidades do interior paulista e mineiro. Parte dos comerciantes afirma que entrou nas relações sem ter declarado voto ou apoio público a qualquer candidato, enquanto outros receberam manifestações de solidariedade e novos contatos de clientes.

A livraria Martins Fontes, em São Paulo, apareceu em uma das listas. O proprietário Alexandre Martins Fontes, de 65 anos, afirmou que manterá o posicionamento público em eleições: “Eu respeito totalmente a decisão dos nossos clientes de votarem em quem eles quiserem, como eu gostaria que eles respeitassem a nossa decisão de publicamente dizer quem é o nosso candidato”.

A empresa declarou voto em Lula em 2022 e novamente neste ano. Fontes disse que a escolha se relaciona à defesa dos livros, da educação, da leitura e da cultura, mas ressaltou que a livraria vende obras de diferentes correntes ideológicas, inclusive de autores de direita e apoiadores de Jair e Flávio Bolsonaro.

Lista divulgada em grupos de moradores de Petrópolis (RJ). Foto: Reprodução

Pequenos negócios relatam cancelamentos e ameaças

Em Ourinhos (SP), a empresária do ramo de beleza Paula Ramos soube por uma cliente que seu estabelecimento integrava uma lista de boicote. Ela afirmou que evita expor suas preferências políticas para respeitar clientes de posições distintas. “As pessoas estão deduzindo que sou de esquerda, que votei no PT, simplesmente por eu não ter me manifestado”, disse.

Francisco Meghelli, dono do grupo Meghelli em Serrana (SP), relatou que pessoas disseram que deixariam de comprar imóveis com a empresa da família após a divulgação de uma lista.

Ele ainda não identificou perdas financeiras concretas, mas afirmou que familiares de uma pessoa que compartilhou o conteúdo o procuraram para pedir a retirada de um vídeo sobre o caso, em uma abordagem que classificou como ameaçadora. Meghelli pretende registrar boletim de ocorrência e buscar indenização.

Um estabelecimento vegano de Curitiba, que pediu para não ser identificado, também recebeu alertas sobre mensagens que circulavam em grupos locais. Capturas de tela mostram hostilidade contra consumidores de esquerda; um participante escreveu que elevaria em 30% os preços para clientes petistas e que eles não seriam bem-vindos. Os responsáveis disseram que podem recorrer à Justiça se houver ataque direcionado ao negócio.

Uma proprietária de farmácia no interior de Mato Grosso afirmou que pessoas atingidas pelas publicações guardam capturas de tela, vídeos e números de telefone para apresentar denúncia ao Ministério Público por mensagens que consideram homofóbicas e xenofóbicas. Em julho de 2025, o Tribunal de Justiça de São Paulo condenou dois homens por perseguição após divulgarem, em Cafelândia, uma lista de comerciantes considerados apoiadores da esquerda; eles receberam penas em regime aberto e tiveram de indenizar sete pessoas que formalizaram reclamações.

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