Comissão do governo compara provas do BBB a torturas da ditadura e questiona Globo

Atualizado em 31 de janeiro de 2026 às 15:30
A prova do “Quarto Branco”, no BBB 26. Foto: Reprodução/TV Globo

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos enviou uma carta à TV Globo questionando uma das provas exibidas no Big Brother Brasil 26. O documento divulgado neste sábado (31), critica a dinâmica conhecida como “Quarto Branco”, exibida no reality show, e estabelece uma comparação com métodos de tortura praticados durante a ditadura militar brasileira. As informações são da coluna Painel, do O Globo.

O órgão, que integra a estrutura do Governo Federal do Brasil, afirma que a prova foi além dos limites do entretenimento ao submeter participantes a condições consideradas degradantes. Segundo a comissão, o confinamento prolongado e os estímulos restritivos impostos aos jogadores levantam preocupações sobre violação de direitos fundamentais.

Na carta, a comissão descreve o ambiente da prova, composto por um espaço inteiramente branco, acolchoado, sem estímulos externos e com restrição de movimentos. Os participantes permanecem sentados ou deitados no local, cercados apenas por garrafas de água e uma pequena mesa, com o objetivo de testar sua resistência psicológica.

Para o colegiado, a dinâmica ultrapassa o caráter lúdico do programa e se aproxima de práticas que causam sofrimento físico e mental. O texto afirma que a experiência apresentada no jogo flerta com formas de violência psicológica, o que motivou o envio do posicionamento formal à emissora.

Ato da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, que foi recriada em 2024. Foto: Clarice Castro/Ascom MDHC

A comissão sustenta que as semelhanças com procedimentos utilizados durante o regime autoritário são evidentes. O documento aponta que técnicas como o isolamento sensorial e a permanência forçada em posições desconfortáveis foram amplamente empregadas como instrumentos de repressão nas ditaduras latino-americanas.

Um dos exemplos citados é uma prova em que participantes são obrigados a permanecer em pé sobre um pedestal por longos períodos. De acordo com o órgão, essa prática foi historicamente utilizada como forma de tortura, o que reforça a gravidade da comparação feita no texto.

O documento é assinado pela presidente da comissão, Eugênia Gonzaga, e por outros quatro integrantes. Entre eles estão Diva Santana, representante de familiares de mortos e desaparecidos políticos, a deputada federal Natália Bonavides (PT-RN), além de Vera Paiva e Maria Cecília Adão, representantes da sociedade civil.

As signatárias afirmam ainda que o consentimento prévio dos participantes do reality show não afasta a responsabilidade da emissora. A carta cita o artigo 5º da Constituição Federal, que proíbe de forma absoluta a tortura e o tratamento degradante, e pede que a Globo reavalie práticas semelhantes em seus programas.

Lindiane Seno
Lindiane é advogada, redatora e produtora de lives no DCM TV.