Como a Acadêmicos de Niterói derrotou a censura da Globo. Por Sara Vivacqua

Atualizado em 16 de fevereiro de 2026 às 15:08
Carro alegórico em homenagem a Lula. Foto: Alex Ferro/Riotur

A estética popular, periférica e até mesmo brega — mas não como licença poética, e sim como quem realmente somos — reclamou seu espaço como identidade nacional num lugar inapropriado: a Sapucaí. Uma linguagem estética tão destoante do padrão do carnaval comercial que a própria classe média de esquerda teve dificuldade em se aproximar dela sem preconceitos.

A Acadêmicos de Niterói não aceitou o invólucro que a periferia tradicionalmente tem que vestir para impressionar as câmeras sociais e jurados, e estética popular sem sofisticação mediática desfilou à revelia de nossos alertas e dos critérios de pontuação, de forma tão espontânea e assertiva. Ali, na matriz do bolsonarismo e das milícias, irredutível a qualquer avaliação e disposta a ruptura, a ala dos sindicalistas, das estrelas vermelhas, frontal e assumida, gritava desabrida “sem anistia”, “olê, olê, olá, Lula”, enquanto a plateia respondia. Um diálogo que a transmissão não esperava, não queria e não conseguiu esconder completamente.

A censura

Disfarçada de cobertura jornalística, a Globo exercitava censura deliberada, como em outros tempos. A narração dos comentaristas evitava cuidadosa e artificiosamente construir qualquer história coerente — seja a trajetória de vida do presidente Lula, seja o simbolismo e interpretação das alegorias. Fragmentou-se e reduziu-se tudo a imagens sem sentido, como se o desfile fosse apenas flashes de imagens sem símbolo, sem política, sem Brasil, e assim percebido por muitos como até mesmo ridículo.

A Globo, que sempre precisa celebrar suas estrelas, de forma ostensiva e óbvia escondeu cada uma delas no chamado “protocolo de transmissão do desfile (da subversão)”. Dira Paes como Dona Lindu, Juliana Baroni como Marisa Letícia, Paulo Vieira como Lula na avenida, Bia Lula, todos sem nome e sem destaque. Diversos artistas nascidos e celebrados na casa que chegaram mais cedo para prestigiar a homenagem a Lula — Paolla Oliveira, Taís Araújo, Erika Januza, Rodrigo Santoro, Cris Vianna, Camila Pitanga, Cláudia Abreu e Samuel de Assis — nenhum foi entrevistado nas preliminares.

O mulungu que virou “apenas uma árvore”

A Globo foi incapaz de tocar até mesmo em temas quase universais da saga de miséria e migração brasileira. “Do alto do mulungu surge a esperança” trazia uma alegoria da seca nordestina, com esculturas mesclando fauna nordestina e elementos da pobreza — carcarás, árvore florida, o menino Lula segurando uma estrela azul. A árvore mulungu, refugio da infância e do sonho, um dos poucos lugares que permitia a infância, onde Lula brincava com seus irmãos, estava no centro de tudo. Na narração? “A árvore mulungu”. Apenas isso.

A comissão de frente, “O amor venceu o medo”, era uma encenação literal do golpe de Estado e da restauração democrática — Temer roubando a faixa presidencial, Lula a reconquistando por vontade popular, e uma nação sendo vindicada pela prisão de Bolsonaro. Não era sequer necessário interpretar, apenas descrever o óbvio.

Na alegoria “Vale uma nação, vale um grande enredo”, as pautas trabalhistas pendentes no congresso nacional e barradas pela classe oligárquica brasileira: fim da escala 6×1, defesa da taxação de super-ricos, a escultura gigante do presidente abrindo alas ao trabalhador. Sobre “Teu legado é espelho das minhas lições”, a Globo falou de forma clichê das representações da desigualdade social do carro alegórico, mas censurou os nomes dos programas: Bolsa Família, Luz para Todos, Minha Casa Minha Vida, ProUni, ações de combate à fome, e tudo que restabeleceu a dignidade de uma nação e dos que desfilavam.

A “Ascensão Operária”, com seus elementos metálicos monocromáticos, até mesmo visualmente agressivos, expressando o chão frio de fábrica, reduzido ao comentário sobre seu material de fabricação. Lurian Lula da Silva, filha do presidente e destaque do carro, parece ter sido ignorada pelas câmaras em 360 graus da Globo.

Então desfilou na Sapucaí algo que nunca tínhamos visto: um carnaval verdadeiramente popular, não domesticado, não folclorizado, não transformado em produto, não aspirante a pontuação, mas algo muito maior; uma homenagem popular sentida que não pede licença, que se impõe, e a censura rompida pela visível emoção do público e dos que desfilavam com o “L” nas câmeras. Um confronto entre duas experiências antagônicas de Brasil — e como a expressão popular, mesmo sabotada, conseguiu se fazer presente.

A Sapucaí não pertence mais a quem a transmite e assiste, mas a quem vive a experiência mais visceral de Brasil. É sobre quem tem o direito de se reconhecer como nação na avenida mais vigiada do país.

Sara Vivacqua
Sara Vivacqua é advogada graduada pela Ruprecht-Karls-Universität Heidelberg e mestranda em jornalismo investigativo pela Birkbeck, University of London. Foi procuradora do governo britânico e exonerada em maio de 2025 após "constranger o governo" por defender direitos humanos, a liberdade de Julian Assange e a soberania da Palestina. O governo Britânico reconheceu oficialmente que não houve qualquer impacto negativo em seu desempenho profissional nem uso indevido de informações do cargo.