Como a América Latina e o Caribe estão lidando com o coronavírus

Publicado no Brasil de Fato

Soldados colombianos usam máscaras durante patrulha às ruas de Bogotá durante isolamento contra coronavírus. – (Juan Barreto / AFP)

O número confirmado de casos da covid-19 ao redor do mundo já passou de 350 mil com mais de 15 mil mortos até esta quarta-feira (25). A Europa, o epicentro da pandemia, tem visto um aumento exponencial de casos, com governos correndo para conter o avanço da doença e compensar suas lentas reações.

Nos Estados Unidos, o número de casos confirmados do novo coronavírus passou de 60 mil nesta quarta-feira (25), e 827 pessoas morreram, segundo a Universidade Johns Hopkins, que reúne números sobre o avanço da doença no mundo.

O país têm o terceiro maior número de casos confirmados, atrás da China e da Itália, sendo a última o país mais afetado pela epidemia, com 5.476 mortes.

No momento, a América Latina e o Caribe se encontram nos estágios iniciais do surto, porém, quase todos os países da região tem casos confirmados, com a exceção de Belize. O Brasil é o país que apresenta maior número de casos na região. São 2.433 casos confirmados e 57 mortes.

Baseado em projeções, o vírus deve impactar a região com força. No Brasil, a estimativa feita por analistas em um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) obtido pelo The Intercept Brasil é de que o número de mortes pode chegar a 5.571 até o dia 6 de abril.

Políticas neoliberais e cortes na Saúde

Muitos países têm sofrido cortes nos setores públicos, especificamente na Saúde e Educação, prejudicadas por programas neoliberais de líderes de extrema direita, e despreparados para lidar com o fluxo de pacientes, ou de administrar os testes e coordenação necessárias durante a crise de saúde.

Confira a análise de como o vírus está se espalhando na América Latina e quais medidas os governos estão tomando.

América do Sul

As reações na América do Sul variam desde negação até quarentena ou paralisação completa.

O pronunciamento do presidente brasileiro de extrema direita, Jair Bolsonaro (sem partido) em rede pública de rádio e televisão na noite de terça-feira (24), por exemplo, foi na contramão do que está sendo recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo próprio Ministério da Saúde brasileiro.

O presidente brasileiro criticou as medidas de isolamento social determinadas por governadores de diversos e estados e disse que a imprensa causou pânico e histeria na sociedade brasileira ao tratar do coronavírus.

Nesta quarta-feira (25) na porta do Palácio da Alvorada, Bolsonaro manteve o discurso feito no pronunciamento anterior e afirmou que a orientação em relação ao enfrentamento da pandemia será “vertical daqui pra frente” em referência ao diálogo entre o Planalto e Ministério da Saúde.

Já o presidente argentino Alberto Fernández disse nesta quarta-feira (25) que a quarentena será prorrogada no país caso necessário e afirmou que, entre a economia e a saúde, escolhe “privilegiar a saúde”.

“Para os idiotas, digo que a Argentina dos ‘espertos’ acabou”, disse ao se referir às pessoas que tentam burlar o isolamento social imposto para conter a doença.

Venezuela

A Venezuela tomou medidas drásticas para prevenir a disseminação rápida da doença bem cedo. No dia 15 de março, voos da Colômbia e Europa já estavam completamente suspensos e fronteiras marítimas e terrestres fechadas.

Escolas fecharam, e aulas foram suspensas, trabalhadores não essenciais foram mandados para casa. A diretiva de quarentena social estrita foi anunciada para as regiões mais afetadas incluindo a capital venezuelana Caracas e o estado de Apure, Cojedes, La Guaira, Miranda, Táchira e Zulia.

As organizações e estruturas sociais dentro de comunidades foram ativadas para assegurar a distribuição de comida, medicamentos e outras necessidades essenciais, enquanto recursos estão sendo repassados para o setor de saúde para garantir que o teste e tratamento de todos que precisam é possível.

O governo de Nicolás Maduro anunciou no último domingo (22) medidas para proteger os trabalhadores durante o período de isolamento. O Estado assumirá o pagamento dos salários dos trabalhadores de pequenas e médias empresas do setor privado pelos próximos seis meses.

A rápida resposta do governo foi necessária, especialmente porque as brutais sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos enfraqueceram a capacidade do sistema de saúde e infraestrutura venezuelana em lidarem com uma crise dessa magnitude.

Além disso, o governo venezuelano pediu ajuda em termos de suprimentos e mão de obra para Cuba e China, que ajudaram. Eles também pediram um empréstimo pro Fundo Monetário Internacional (FMI). O FMI havia anunciado que daria pacotes de assistência especiais a países para combater o coronavírus, mas recusou essa ajuda à Venezuela. Atualmente, o número de casos no país é 91.

Argentina

Com 387 casos e oito mortes registrados até o momento, a Argentina tomou um rumo parecido, efetivando medidas restritivas bem cedo. Na quinta-feira (19), o presidente Alberto Fernández anunciou uma série de medidas econômicas, sociais e trabalhistas para enfrentar o vírus e aliviar os impacto econômico nos mais vulneráveis.

Desde o dia 20 de março, todos na Argentina devem permanecer em isolamento social obrigatório pelo menos até a próxima terça-feira (31), quando será reavaliada a situação. O Estado está utilizando a Polícia Federal e militar para aplicar a quarentena.

Nesta quarta-feira (25), o presidente argentino Alberto Fernández, afirmou que a quarentena será prorrogada se necessário. “Se tivermos que estender essas medidas, o faremos, porque entre a economia e a saúde, escolho privilegiar a saúde”, afirmou.

O presidente argentino classificou como mau exemplo para o resto da sociedade, tentativas de burlar o isolamento social. “Para os idiotas, digo que a Argentina dos ‘espertos’ [referência irônica àqueles que desrespeitam o isolamento] acabou”, disse.

O presidente argentino também anunciou nesta quarta-feira (25) que enviou ao Congresso um projeto para congelar o valor dos aluguéis por 180 dias e proibir os despejos durante esse período.

Fernández alocou fundos substanciais para garantir o apoio do Estado a negócios e trabalhadores cuja atividade foi interrompida por causa da quarentena, e designou mais recursos para o seguro-desemprego. Ele também requisitou uma linha de crédito para assegurar a produção e disponibilidade de produtos básicos, e manter o mínimo de atividade econômica.

Antes de Fernández tomar posse em dezembro, a Argentina passava por uma das piores crises econômicas de sua história, consequência das políticas neoliberais do presidente anterior, Mauricio Macri.

Depois de tomar posse, ele imediatamente começou a trabalhar para desfazer o dano causado por Macri, focando em socorrer mais de 40% da população que havia sido jogada na pobreza. O sistema público de saúde também foi severamente afetado sob Macri, que será um desafio para a Argentina enquanto batalha a pandemia. O país registra 387 casos e seis mortes pela doença.

Brasil

O Brasil está do outro lado do espectro, com mais de 2.433 casos e 57 mortes no país. Apesar do rápido crescimento no número de infecções, o governo tem sido extremamente lento em sua reação e implementação de medidas de contenção.

Na contramão do que recomenda a Organização Mundial de Saúde (OMS), e o próprio Ministério da Saúde brasileiro, o presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro tem constantemente diminuído o problema, o chamando de “propaganda da mídia” e ‘fantasia”.

O discurso se intensificou durante um pronunciamento feito em rede nacional de rádio e TV na noite desta quarta-feira (24), em que o presidente rechaçou o isolamento para evitar a disseminação do vírus, culpou imprensa por “histeria” e disse que a covid-19 é “gripezinha” em “pessoas sãs”.

Bolsonaro criticou as medidas de isolamento social determinadas por governadores de diversos estados e disse que a imprensa causou pânico e histeria na sociedade brasileira ao tratar do coronavírus.

Nas palavras dele, autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada e retornar à normalidade. Ele ainda questionou os motivos para o fechamento de escolas, já que o grupo de risco está acima dos 60 anos e voltou a dizer que o Brasil precisa garantir empregos durante a crise.

Nesta quarta-feira (25) ele reforçou esse discurso diante de jornalistas em frente ao Palácio do Planalto.

“Alguns poucos governadores, não são todos, em especial Rio e São Paulo, estão fazendo uma demagogia barata em cima disso. Para esconder outros problemas, se colocam junto à mídia como salvadores da pátria, como o messias que vai salvar seus estados e o Brasil do caos”, afirmou.

O presidente brasileiro já havia violado recomendações da OMS. No dia 15 de março, apesar dessas recomendações que incluem o cancelamento de grandes aglomerações públicas, o próprio Bolsonaro apareceu em Brasília numa passeata a favor de sua administração.

Devido à falta de uma resposta nacional robusta, a responsabilidade de implementar as medidas necessárias, tem caído em grande parte em governos estatais e municipalidades.

Numa coletiva de imprensa dia 21 de março, João Dória, governador do estado de São Paulo, decretou uma quarentena estatal começando na terça-feira, 24 de março, até dia 7 de abril, com a possibilidade de ser renovada. Todo o comércio e serviços não essenciais estarão fechados.

O governo carioca de Wilson Witzel também tomou medidas extremas. Ele anunciou na terça-feira (19), que voos vindos de lugares com altos índices de infecções por coronavírus estavam suspensos. Restrições também foram impostas no transporte terrestre, com a suspensão de ônibus intermunicipais e interestatais. Uma quarentena foi declarada e o comércio não essencial foi suspenso.

Durante as últimas semanas, movimentos sociais e sindicatos denunciam as políticas neoliberais adotadas pelo governo Bolsonaro, que enfraquecem o sistema nacional de saúde. Desde o dia 17 de março, pessoas de todo Brasil vêm participando de panelaços dentro de casa, em protesto aos cortes na saúde, educação e a fraca resposta do governo Bolsonaro perante a crise.

Colômbia

O presidente colombiano Ivan Duque, finalmente adotou medidas estritas para conter o vírus no país, depois de ser ridicularizado por rezar para a padroeira da Colômbia, a Virgem de Chiquinquirá, para proteger a nação.

Na última quinta-feira, Duque anunciou que a partir do dia 23 de março, ninguém poderá entrar no país por 30 dias. Medidas que restringem o movimento interno, um toque de recolher, e o fechamento do comércio não essencial também foi anunciado. A Colômbia atualmente tem 470 casos e quatro mortes.

A população carcerária da Colômbia fez várias rebeliões nos últimos dias, protestando a superlotação e falta de saneamento que os torna especialmente vulneráveis. Organizações estão revindicando que, por conta da superlotação, todos os presos acusados de crimes não violentos sejam soltos.

A rebelião que ocorreu sábado a noite na prisão La Modelo, em Bogotá, foi violentamente reprimida por guardas e o Esquadrão Anti Distúrbios Móvel (ESMAD). Segundo ativistas de direitos humanos, ao menos 23 foram mortos e inúmeros feridos.

Equador

O pequeno país do Equador, já possui 1.173 casos confirmados da covid-19 e ao menos 28 mortes. Devido ao índice de infecção alarmante, o Equador se encontra num estado de emergência, com uma quarentena e toque de recolher há mais de uma semana. Restrições de viagens nacionais e internacionais também forma impostas.

América Central

A América Central se depara com uma situação complexa. Os países da região tem os maiores níveis de desigualdade econômica e sofrem as piores consequências do imperialismo norte-americano.

Durante a última década, eles se encontram em graves crises políticas e socioeconômicas, com desemprego alto, falta de oportunidade, falta de investimentos em saúde e educação pública, violência, entre outros, que se manifestam na migração em massa aos Estados Unidos vinda da região.

O Panamá com 4 milhões de habitantes (443 casos) tem o maior número de casos (405) seguido do México, com uma população de 129.2 milhões. A Costa Rica tem 201 casos confirmados, seguida por Honduras (36) e Guatemala (24). El Salvador tem nove registros da covid-19 enquanto a Nicarágua tem dois.

El Salvador

As medidas adotadas por El Salvador perante a pandemia são exemplares. Dia 11 de março, antes do país ter sequer um caso confirmado, o presidente Nayib Bukele anunciou que qualquer estrangeiro estava proibido de entrar no país, e dia 16 de março, todos voos internacionais foram suspensos. No dia 18 de março, com apenas um caso confirmado no país, ele decretou uma quarentena e o fechamento do comércio não essencial.

Para amenizar o impacto econômico nos setores informais e de serviços, ele tomou várias medidas de resgate, incluindo a suspensão do pagamento de contas para qualquer serviço público como água, eletricidade, telefone e internet, além da suspensão do pagamento de alugueis, empréstimos e hipotecas.

Bukele declarou: “Esse é um evento inédito, não é o momento pra se pensar em perder dinheiro; você deve pensar em sua família, não acredite que você é imune, ninguém é imune, nem mesmo bebês dentro de suas mães”.

Honduras

Honduras também mandou fechar suas fronteiras totalmente. Porém, movimentos sociais dentro do país alertam que o governo está se aproveitando da situação para militarizar a nação ainda mais, não tendo tomado medidas concretas para aliviar o sofrimento dos mais vulneráveis.

“Ao invés de tomar providências para combater a doença, o governo adotou medidas autoritárias. Estabeleceram um toque de recolher e um estado de emergência. O exército e a polícia patrulham as ruas e a população sequer pode comprar comida, as pessoas estão sendo presas. O decreto presidencial diz que qualquer um que violar a ordem e sair de casa pode passar entre dois a seis meses na cadeia”, explicou Camilo Bermúdez, do Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (COPINH).

Organizações também alertam que o governo pode utilizar a crise para desviar dinheiro (como já fizeram no passado). A principal razão por qual existe essa suspeita, é o fato de que dentro do decreto presidencial, não existe nenhum mecanismo de monitoramento de controle de gastos como normalmente deveria ter.

Se não bastasse isso, os fundos emergenciais serão administrados por uma secretaria militar especial, e não pela Secretaria da Saúde. Embora o presidente tenha anunciado que o fundo emergencial será usado para construir dezenas de novos hospitais (acrescentando aos meros 30 hospitais públicos no país inteiro), nenhum avanço foi feito e as autoridades do Colégio Médico de Honduras dizem que os suprimentos que o governo comprou, não correspondem a suas necessidades.

Existe muito medo na população sobre o que vai acontecer quando o vírus se espalhar no país. Ao menos 60% dos empregos em Honduras são informais, e o governo até agora não fez nenhum pronunciamento sobre como ajudará aqueles incapazes de manter sua renda.

O governo mexicano de Andrés Manuel López Obrador também vem sendo fortemente criticado por sua postura relaxada. Até agora, o governo não efetivou uma quarentena e restrições de viagem são mínimas. Algumas medidas mais restritas vêm sendo tomadas por governos municipais e estatais, porém o índice de infecção deve aumentar rapidamente no México se o governo federal não agir.

Ambos Panamá e Costa Rica estão impedindo a entrada de qualquer estrangeiro no país e fecharam todo comércio não essencial.

Caribe

Na região caribenha, as ilhas com o maior número de casos confirmados são a República Dominicana com 392, Guadalupe com 73, e Martinica com 57. Cuba, que também possui 57 casos registrados, parece ter conseguido diminuir os níveis de infecção.

Embora os dados pareçam ser menos alarmantes que outras regiões, é importante lembrar que a população dessas ilhas é bem pequena. Cuba tem a maior, com 11.2 milhões de pessoas, e com a exceção de Cuba, Haiti, Jamaica, República Dominicana, Porto Rico e Trindade e Tobago, todas as ilhas tem menos de um milhão de habitantes. Assim sendo, esses números e a atual curva de infecção são causas de preocupação.

Para aumentar o problema, muitas dessas pequenas ilhas não tem uma estrutura de saúde pública adequada para tratar pacientes. Os governos da Jamaica, Saint Kitts e Nevis, Saint Vicent e as Granadinas já pediram ajuda do governo cubano com médicos, infraestrutura, remédios e um plano de tratamento.

Muitos temem a disseminação do vírus no Haiti onde até agora foram confirmados dois casos. Porém, a falta de serviços públicos essenciais como água, a falta de saneamento básico, um sistema público de saúde destruído por ataques neoliberais, tanto como a incapacidade do governo liderado por Jovenel Moïse, levam muitos a acreditar que a doença irá se espalhar com rapidez.

As ilhas do Caribe estão adotando diferentes medidas para desacelerar o espalhamento do vírus. Enquanto o Haiti e Trindade e Tobago fecharam completamente suas fronteiras, a maioria das ilhas caribenhas impuseram restrições parciais de viagem. As restrições variam entre impedir a entrada de passageiros vindos de focos da covid-19 como a Europa e a Ásia, a pedir que aqueles vindos de fora se auto quarentenem por no mínimo duas semanas.

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