Como a imprensa contribuiu para que a pandemia se agravasse no Brasil. Por Paulo Henrique Arantes

Osmar Terra, Mandetta e Humberto Costa: esse debate jamais poderia ter ocorrido, já que a ciência não dialoga com a anticiência

Você já leu inúmeras vezes sobre a tal “imunidade de rebanho”. Frequentador da imprensa brasileira, cliente do jornalismo profissional, certamente conheceu opiniões favoráveis e contrárias à ideia. Não sabe o leitor, contudo, que no caso da “imunidade de rebanho” os jornalistas não deveriam conferir tratamento “equilibrado” para seus defensores e seus detratores, pelo simples fato de que a verdadeira ciência nunca recomendou que se abdicasse de controles sociais até que um vírus atingisse todo seu potencial de contaminação – no caso do coronavírus, todo seu potencial letal.

Ao longo da pandemia, cometeram-se essa e outras incorreções informativas em nome da famigerada “isenção” jornalística. Enfim, quem defendeu a “imunidade de rebanho” deveria mesmo é ser tratado pela imprensa como charlatão.

“O que há sobre a ‘imunidade de rebanho’ é uma disputa retórica e manifestos de cientistas que não são epidemiologistas. Nenhum epidemiologista nunca propôs que se deixe grande parcela de uma população se contaminar”, afirma Naomar de Almeida Filho, professor titular de epidemiologia do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia.

Almeida Filho nota na imprensa brasileira o esforço para “produzir o máximo de esclarecimento à opinião pública”, mas, nessa ânsia, acaba-se pondo no mesmo balaio ciência, pseudociência e fakes.

“Ao tentar escolher um expert como fonte, não raro se opta por alguém que é um influenciador nas redes sociais. A mídia formal dá um espaço muito grande a muita gente que carrega certo tipo de militância”, adverte.

Há amplos estudos demonstrando a incorreção da mídia na abordagem dos temas científicos relacionados com a pandemia de covid-19, um deles publicado por especialistas brasileiros na prestigiosa revista Frontiers in Communication (para ler, clique aqui).

A partir de abril de 2020, a imprensa brasileira começou a destacar os efeitos das medidas de distanciamento sobre a economia. Também nesse caso, as narrativas foram construídas mediante o princípio de “ouvir os dois lados” – um, favorável à “imunidade de rebanho”; outro, ao distanciamento social. Trata-se de uma falsa equivalência, já que a oposição à “imunidade de rebanho” é cientificamente embasada, enquanto sua defesa baseou-se em projeções de economistas neoliberais.

O deputado de ideias medievais Osmar Terra, que é médico mas não epidemiologista, ganhou amplo espaço da mídia com suas considerações que foram da insignificância do vírus à exaltação da cloroquina. Reportagens em grandes portais de notícias continham links de vídeo para pronunciamentos desse bolsonarista recheados de informações falsas.

Neste momento em que a vacina contra Covid-19 parece próxima, a imprensa precisa transmitir ao público a real visão da ciência sobre os potenciais imunizantes. E essa visão é de dúvida e certo grau de ceticismo.

“A opinião pública busca certezas, e a ciência tem dúvidas”, sentencia Naomar de Almeida Filho.

O epidemiologista explica que acreditar na vacina, sozinha, como solução para a pandemia é uma simplificação. “A vacina se agrega a tecnologias de controle. Não há solução simples”, diz.

O êxito de uma vacina não depende apenas de sua eficácia, esclarece Almeida Filho, mas também de sua efetividade. Sim, são coisas diferentes. “A vacina da Pfizer, cuja eficácia recém-anunciada é de 90%, talvez não encontre por aqui logística que garanta sua efetividade. Não temos, por exemplo e por enquanto, como armazenar o produto nos postos a 70 graus negativos”, pondera.

Estratégias de controle e sua rígida aplicação é que fizeram o coronavírus praticamente desaparecer na China, que teve menos mortes que o Estado de São Paulo. Procedimentos semelhantes foram adotados em Austrália, Noruega e Nova Zelândia, para ficar em três exemplos. As chaves do êxito são testagem maciça e bloqueio total de focos epidêmicos. Se aliadas a uma vacina eficaz e de aplicação efetiva, chega-se ao melhor dos mundos.

O DCM perguntou ao professor Naomar de Almeida Filho se teremos mesmo uma segunda onda de Covid-19 no Brasil. Eis a resposta:

“A incompetência dos nossos governantes, particularmente a falta de coordenação nacional, faz com que a pandemia se realimente. A primeira onda ainda não foi contida, a redução de casos e mortes não se deu em função de estratégias de controle, mas sim por esgotamento de suscetíveis, ou seja, aqueles que foram contaminados no primeiro momento”.

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