Como a Lava Jato, agindo como partido político, abriu caminho para Bolsonaro. Por Joaquim de Carvalho

Procuradores da Lava Jato

Um dos pontos mais importantes do novo capítulo da Vaza Jato é a mensagem de Deltan Dallagnol enviada a mais de 100 procuradores e ao então procurador geral da república, Rodrigo Janot, em maio de 2017, em que o coordenador da Lava Jato admite o caráter politico da operação.

“Lembremos que o mais importante agora são as reformas que poderão romper com um sistema político apodrecido e as revelações desse acordo poderão contribuir muito nessa direção, se soubermos canalizar a indignação para o ponto certo, que é a podridão do sistema e a necessidade de mudanças”, escreveu.

Dallagnol estava tentando ajudar Rodrigo Janot a sair das cordas, posição em que havia sido colocado com a suspeita de que seu braço-direito, o procurador Marcelo Miller, havia atuado dos dois lados do balcão no caso do acordo de delação premiada de Joesley Batista.

Era a primeira vez, desde o início da operação Lava Jato, que o trabalho do Ministério Público Federal estava sendo colocado em cheque, em grande parte devido à reação de Michel Temer, um dos atingidos pela delação de Joesley.

Na gravação, Temer aparece dizendo a frase “tem que manter isso, viu?”, no contexto em que o empresário conta como mantinha Eduardo Cunha em silêncio, com acerto dos atrasados, uma referência, segundo ele, ao pagamento de propina.

Dallagnol tentava levar ao procurador a especialidade da Lava Jato: manipular a opinião pública. Ele usar a expressão “canalizar a indignação ao ponto certo”. Indignação de quem? Do público, claro.

Ele usa três vezes a expressão “guerra da comunicação”, termo mais apropriado para disputas políticas, não para servidores públicos que têm a missão de fiscalizar a aplicação da lei, nada além disso. Dallagnol orienta os procuradores a seguirem uma estratégia conjunta:

Era preciso dar entrevistas e usar a rede social para defender o acordo feito pelo Ministério Público Federal com a JBS de Joesley Batista e considerar que o MP não tinha “corruptos de estimação”.

Segundo ele, também era preciso defender Marcelo Miler da acusação de que atuou dos dois lados do balcão.

“Miller não atuou nos acordos feitos”, escreveu, sem conhecer detalhes do que estava sendo denunciado.

Por fim, ele queria usar o episódio para interferir no ambiente político.

Antes desse e-mail a mais de 100 procuradores, logo depois que a delação de Joesley Batista foi divulgada, ele falou sobre as denúncias em um grupo mais restrito, o Filhos do Januário.

“To em êxtase aqui. Precisamos pensar em como canalizar isso pras 10 medidas”, escreveu Dallagnol em 17 de maio.

Seu quase sócio, o procurador Roberson Pozzobon, o Robito, também parecia extasiado.

“Bem que poderia vir uma gravação do Gilmau junto né?!”, escreveu, numa referência ao ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal.

O procurador Orlando Martello, também filho do Januário, propôs: “Defendo uma delação com Temer ou Cunha para pegar Gilmar”.

Como se sabe, Sergio Moro reprovava a ideia de tentar um acordo de delação com Eduardo Cunha.

Como cidadãos, procuradores têm direito de expressar opinião. Mas eles não estavam fazendo isso. Estavam conspirando contra poderes da república.

O resultado desse jogo político foi a ascensão de Bolsonaro e do bolsonarismo, que se encaixaram no discurso dos procuradores.

Com Fabrício Queiroz, Flávio Bolsonaro e o laranjal do PSL, não se pode dizer que a nova classe política seja melhor do que a precedente.

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