Como a Suécia trata de homens violentados sexualmente. Por Claudia Wallin, de Estocolmo

No ano passado, foram registrados 370 casos de homens violentados na Suécoa
No ano passado, foram registrados 370 casos de homens violentados na Suécoa

Por Claudia Wallin, de Estocolmo

Enquanto sob os lençóis do Congresso brasileiro o pio Eduardo Cunha esforça-se para satisfazer a bancada evangélica, com seu projeto de lei que dificulta o atendimento a mulheres vítimas de estupro, os suecos acabam de abrir as portas de um Centro de Tratamento de Vítimas de Violência Sexual para homens e meninos.

Trata-se da primeira unidade médica para vítimas masculinas de estupro da Suécia, e provavelmente do mundo.

“Todas as vítimas de violência sexual, independentemente de sexo, devem ter a segurança de que podem se dirigir ao sistema de saúde pública e obter bom atendimento médico e apoio psicológico adequado”, disse na TV sueca a vereadora Anna Starbrink, do Folkpartiet (Partido Liberal sueco).

A abertura da clínica para homens havia sido uma das promessas de campanha das últimas eleições, realizadas em setembro do ano passado.

O Centro de Tratamento de Vítimas de Violência Sexual para homens já está em funcionamento nas instalações do hospital Södersjukhuset, situado no centro de Estocolmo e que abriga a maior unidade de emergência da região nórdica.

“Você tem uma pessoa na sua frente, que foi molestada e exposta a um trauma. Existe um estigma de que um homem não pode ser estuprado. Como assim? Como isso pode ser possível? Mas sabemos que isso acontece de fato”, diz Anna Tiihonen Möller, chefe do atendimento médico na clínica.

A clínica já atendia, anualmente, a cerca de 600 mulheres vítimas de crimes sexuais. O Södersjukhuset também ampliou as operações do Centro de Tratamento de Vítimas de Violência Sexual para atender a transgêneros, que de outro modo talvez não procurassem por ajuda médica após uma agressão sexual.

O centro está aberto 24 horas por dia, e o tratamento é inteiramente gratuito. Inicialmente, as vítimas são atendidas por duas enfermeiras, e em seguida por um médico. No dia seguinte, mantêm uma primeira sessão com um terapeuta especialista em trauma – muitas outras sessões irão se seguir, normalmente durante vários meses.

O hospital também oferece um tratamento psiquiátrico mais intensivo, para lidar com casos de transtorno de estresse pós-traumático.

“O maior problema das vítimas de estupro não é um problema médico, e sim psicológico”, diz Lotti Helström, a diretora do centro. “Elas se sentem feridas. Sentem-se sujas.

“A maioria das vítimas sente culpa, e vergonha. E precisamos dizer a elas que esse sentimento é normal, mas é paradoxal. E que a culpa não é delas”, acrescenta a médica.

O debate sobre a questão do estupro na Suécia chegou às manchetes internacionais em 2010, quando o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, foi acusado de crimes sexuais no país.

Assange, que sempre negou as acusações, está asilado na Embaixada do Equador em Londres desde 2012, por temer ser extraditado da Suécia para os Estados Unidos e ser julgado ali pela divulgação de documentos secretos americanos.

A lei sueca sobre crimes sexuais foi atualizada em 2005, quando determinadas ações que eram anteriormente definidas como abuso sexual passaram a ser classificadas como estupro. Em 2013, novas alterações foram introduzidas na lei a fim de ampliar o conceito do termo “estupro”, que passou a incluir os casos em que as vítimas têm uma reação passiva no momento em que sofrem uma agressão sexual.

A alta incidência de casos de estupro na Suécia – a maior da Europa – também é explicada em parte pelo sistema de registro de ocorrências adotado no país, que contabiliza cada episódio de agressão sexual como um caso individual.

Se, por exemplo, uma pessoa denunciar que foi agredida sexualmente pelo parceiro em cinco ocasiões num determinado período, as autoridades suecas irão registrar cinco crimes em potencial. É uma prática que difere do sistema adotado em outros países, onde a mesma queixa resultaria no registro de apenas um caso de estupro.

Pelas estatísticas do Conselho Nacional da Suécia para Prevenção de Crimes, em 2014 foram registrados no país 20,300 casos de violência sexual contra mulheres, entre os quais 6,700 foram classificados como estupro. No mesmo ano, foram reportados cerca de 370 casos de abuso sexual contra homens ou meninos – embora especialistas avaliem que este número é provavelmente maior.

“Homens e transgêneros ainda hesitam em buscar ajuda médica após uma agressão sexual, e os que buscam quase sempre acham que são os únicos do mundo a fazerem isso. Mas não são. E é importante que a sociedade reconheça este tipo de problema”, diz a diretora do novo Centro de Tratamento de Vítimas de Violência Sexual para homens e transgêneros.

Pergunto a ela quais são suas impressões sobre o projeto de lei recém-aprovado no Brasil pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que dificulta o acesso de mulheres vítimas de estupro ao aborto legal e a medicamentos como a pílula do dia seguinte.

“É uma decisão terrível”, diz Lotti Helström. “Ser vítima de um estupro é uma experiência terrivelmente traumática na vida de um ser humano. Submeter uma mulher a uma gravidez indesejada, resultante de um ato de violência sexual, significa submetê-la a um trauma para a vida inteira. E qualquer mulher deve ter o direito de decidir sobre o próprio corpo.”