Como a Veja transformou um jantar beneficente numa manifestação black bloc

É melhor entendê-los para combatê-los
É melhor entendê-los para combatê-los

O site da revista Veja, nesta quinta-feira (13), publicou uma matéria em que acusa o partido PSOL no Rio de Janeiro de estar entre os que financiam os Black Blocs, que são aqueles mascarados que se vestem de preto e saem nas manifestações destruindo lojas, bancos, pontos de ônibus, além de enfrentarem a polícia.

A acusação se torna ainda mais pesada neste momento, em que os dois rapazes, presos pela morte do cinegrafista Santiago Andrade da TV Bandeirantes, são acusados de fazerem parte do grupo Black Bloc.

A matéria do site, intitulada “Vereadores e delegado aparecem em lista de doadores dos Black Blocs”, logo de cara já faz a insinuação de que foram feitas doações a esse grupo específico.

A matéria se baseia numa planilha, divulgada pela ativista Elisa Quadros, conhecida por Sininho, em que aparece a lista de doadores para um evento chamado “Mais Amor, Menos Capital”, ocorrido em 23 de dezembro. Os jornalistas que fizeram a matéria admitem que nenhum vandalismo ocorreu nesse evento, mas ao mesmo tempo não fazem questão de dar muitos detalhes do que se trata.

Apenas no final da matéria, é mostrada uma informação sobre o que teria sido esse evento:

A assessoria do vereador Renato Cinco […] confirmou a doação feita, mas negou que os 300 reais tenham sido destinados a black blocs. “O objetivo era oferecer um jantar natalino a moradores de rua na Cinelândia, Centro do Rio de Janeiro. Tanto que a lista inclui água, gelo, pão, rabanada e toalha papel”, afirma o comunicado. “O vereador e seu partido repudiam ações violentas”, acrescenta.

Reparem que, da forma como isso foi divulgado, os leitores ainda ficarão com dúvidas sobre o evento ter sido realmente um jantar. Mostram a declaração da assessoria do vereador apenas como uma versão. Nem ao menos foi mencionado na matéria se a informação era realmente verdadeira, como faria qualquer jornalista minimamente responsável.

Qualquer curioso primeiramente procuraria saber que evento foi esse. Buscaria informações na internet e procuraria fotos do acontecimento. Fiz essa busca e encontrei o link do evento, que vocês podem acessar abaixo:

https://www.facebook.com/events/1383209528597400

Como é possível notar olhando a página mencionada, o que aconteceu foi apenas um evento cultural na Cinelândia, que nem teve tanta gente. Nem ao menos foi um protesto.

Nessa noite um grupo de tambores se apresentou e houve um ato ecumênico em memória de uma ativista falecida. Fora isso, houve uma roda de samba, uma exposição de fotografias, debates e um jantar.

Com uma busca de menos de meia hora foi possível descobrir várias fotos sobre o evento e até alguns vídeos que mostram que não houve uma manifestação dos Black Blocs. Eles sequer aparecem nas fotos ou vídeos do evento. Muito provavelmente os jornalistas da Veja fizeram essa mesma pesquisa, mas por alguma razão não tiveram qualquer interesse de informar os seus leitores sobre isso.

A Veja apresentou uma planilha de doações no valor de 1700 reais, que apresenta a compra de itens como água, gelo, bebida, rabanada, além de gastos com táxi, som, panfletos, dentre outros. Sendo tudo isso comprado para um evento cultural próximo do Natal, onde foi feito um jantar para moradores de rua, além da arrecadação de doações para os desabrigados das enchentes.

Com base nisso, a Veja acusa não apenas o delegado, o juiz e esses vereadores, mas também o partido PSOL de financiar os Black Blocs.

Até o PSTU, que sempre está nessas manifestações, está sendo alvo das mesmas acusações.

Como se todas as manifestações fossem organizadas e lideradas unicamente pelos Black Blocs, a Veja faz a insinuação de que aqueles que doaram dinheiro para esse evento ou para alguma manifestação, doaram dinheiro para os Black Blocs. Doaram dinheiro para causar destruição ou, pior ainda, doaram para causar mortes como a do cinegrafista Santiago Andrade. É aí onde eles querem chegar.

Em colaboração com o advogado dos dois rapazes, acusados de assassinar o cinegrafista, a Globo nesta semana fez uma ofensiva absurda contra o deputado estadual do Rio de Janeiro Marcelo Freixo. Da mesma forma que a Veja, lançou insinuações absurdas de que o deputado, também do PSOL, estaria por trás dos manifestantes violentos. A denúncia de tão ridícula que era virou “meme” nas redes sociais.

Esse ataque contra o deputado é causado principalmente pelo fato de ele ser o político com maior influência sobre os manifestantes no Rio de Janeiro.

Para você ter uma noção do quanto ele é popular, fizeram uma página no facebook chamada “Eu tenho uma ligação com Marcelo Freixo”, que já alcançou mais de 50 mil curtidas em poucos dias.

Esse tipo de ataque contra aqueles que apoiam as manifestações é até esperado da Veja, que é de direita. Mas até sites de esquerda como o Brasil247 aproveitaram a onda de ataques e usaram a mesma denúncia da Veja para também atacar Freixo.

Sob o título “Patrocínio do PSOL aos Black Blocs afunda Freixo”, o Brasil247 afunda sua credibilidade, copiando a Veja. A matéria publicada no site também serviu para alguns simpatizantes e militantes do PT poderem acusar o deputado sem que precisem recorrer a uma matéria da Veja.

Está bem claro que parte da grande imprensa vai atacar as manifestações com toda força neste ano. Até mesmo quem as apoiar será colocado nas capas das revistas, terá seu rosto exibido como um criminoso nos jornais da TV e terá que gastar muitas horas, de muitos dos seus dias, para se defender de denúncias sem pé nem cabeça.

Se os manifestantes pretendem fazer pressão contra os governos neste ano, precisarão se organizar muito bem e reunir tantos manifestantes quanto no ano passado, ou até mais, se quiserem ter alguma chance contra o chumbo grosso que virá. Algumas pequenas manifestações já incomodaram muita gente. Dezenas delas incomodarão muito mais.