
A derrota dos republicanos nas eleições legislativas dos Estados Unidos de 2026 colocou Donald Trump diante de um cenário semelhante ao enfrentado por George W. Bush há 20 anos. Em 2006, Bush perdeu o controle do Congresso para os democratas, em meio ao desgaste provocado pela Guerra do Iraque. A principal diferença está na reação dos dois presidentes ao resultado.
Na época, Bush classificou a derrota como uma “surra” e reconheceu sua responsabilidade. “Estou obviamente decepcionado com o resultado da eleição e, como líder do Partido Republicano, compartilho uma grande parte da responsabilidade”, declarou. Os democratas conquistaram a Câmara e o Senado, encerrando 12 anos de domínio republicano na Câmara.
Trump adotou outra postura. Em entrevista à Fox News, afirmou que os republicanos teriam vencido de forma esmagadora caso seu nome estivesse nas cédulas. Também criticou aliados e acusou a emissora conservadora de falta de lealdade.
Para Karina Stange Calandrin, professora de Relações Internacionais do Ibmec-SP, a diferença reflete o avanço da polarização nos Estados Unidos. “Hoje em dia, muito impulsionado pelos governos de Donald Trump, tanto o governo iniciado em 2017 quanto o atual, ser republicano ou democrata se tornou uma característica de quem você é, da sua identidade moral e ideológica”, disse Calandrin ao Uol.
Bush, por sua vez, procurou lideranças democratas após a derrota e recebeu Nancy Pelosi e Steny Hoyer para um almoço. Trump também sinalizou disposição para negociar com a oposição, mas advertiu que poderá vetar propostas.
As guerras no Oriente Médio representam outro ponto em comum. Em 2006, a invasão do Iraque e as mortes de soldados estadunidenses contribuíram para a perda de apoio a Bush. Agora, Trump atribui parte da derrota à guerra contra o Irã e ao aumento dos combustíveis.
“Provavelmente as pessoas não estavam dispostas a aceitar a consequência de curto prazo do preço da gasolina”, afirmou Trump.
President Donald Trump said the US-Israel war on Iran likely contributed to Republican setbacks in the midterm elections, as higher gasoline prices affected voters. Despite the political fallout, he stayed defiant, telling reporters that regarding Iran he would ‘do it again’. https://t.co/sizSuZ012O
— Al Jazeera English (@AJEnglish) November 4, 2026
Segundo Calandrin, o conflito com o Irã enfrenta resistência desde o início e contradiz a promessa de Trump de reduzir os gastos com intervenções militares. “Então, já há uma contradição entre o discurso e a prática”, destaca.
A vitória democrata também abre espaço para investigações parlamentares, disputas orçamentárias e um eventual processo de impeachment. Trump classificou a possibilidade como uma iniciativa “sem motivo” e declarou: “Eu acho que destruiria o Partido Democrata se eles fizessem isso”.
Bush enfrentou situação semelhante em 2008, quando o deputado Dennis Kucinich apresentou 35 acusações contra ele. A proposta, porém, não avançou.
Apesar da perda de maioria, Trump poderá continuar utilizando vetos e ordens executivas dentro dos limites legais. A oposição, por sua vez, terá maior capacidade de fiscalizar o governo.
Dois anos após a derrota de Bush, Barack Obama venceu a eleição presidencial de 2008. Para Calandrin, repetir esse resultado em 2028 dependerá da capacidade dos democratas de construir uma liderança e apresentar propostas que ultrapassem a oposição a Trump.