Como descobri o envolvimento de Suzane von Richthofen no assassinato de seus pais. Por Joaquim de Carvalho

Suzane

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No dia 31 de outubro de 2002, por volta de uma da tarde, os editores e produtores da TV Globo em São Paulo faziam a reunião de pauta numa sala fechada, mas com divisórias de vidro, que permitiam ver o que acontecia lá dentro.

A alguns metros, o balcão de tom escuro onde o chefe de reportagem e seus assistentes trabalhavam como se estivessem numa sala de controle de tráfego aéreo, sentados lado a lado, todos com os olhos no monitor e os ouvidos no rádio e no celular, para se comunicar com as equipes que estavam na rua. Eu era repórter.

— Boa tarde, Anderson. O que temos para hoje? – perguntei ao assistente da chefia de reportagem.

A pauta do dia era um misterioso crime no bairro do Brooklin, o assassinato de um casal de classe média alta. O marido era diretor da estatal paulista Dersa, Manfred von Richthofen, que tinha o mesmo sobrenome do Barão Vermelho, herói alemão na Primeira Guerra Mundial, de quem se dizia sobrinho-neto. A mulher era uma médica psiquiatra.

A chefe de redação saiu da sala e me chamou:

— A filha é suspeita, mas não podemos dizer nada ainda, para não pré-julgar.

Fui para a delegacia e depois para a rua Zacarias de Gois, endereço do crime, e fiz uma reportagem para contar o que era possível: nada além do que dizia a polícia.

Suzane, ao chegar à casa no início da madrugada com o irmão mais novo, viu a porta aberta e não quis entrar. Chamou a polícia e ficou no portão até a viatura chegar.

Como o caso envolvia um alto funcionário do governo, o delegado titular da região, Enjolras Rello de Araújo, foi pessoalmente ao local, e encontrou Manfred e Marísia mortos na cama, com o crânio rachado por golpes de barra de ferro.

Suzane avisou que a biblioteca da casa também estava revirada, e notificou a roubo das joias da mãe e de 8 mil dólares e de 5 mil reais, dinheiro do pai guardado numa pasta.

Nos dias que se seguiram, a cobertura do crime do Brooklin andava no ritmo da assessoria da Secretaria de Segurança Pública, que chamava a imprensa quando havia algum depoimento interessante.

Fui para outras pautas, cumprindo a rotina da televisão: entradas ao vivo para falar de trânsito, voos no Globocop, reportagem sobre finados, a cobertura de um evento na prefeitura ou de uma votação na Câmara Municipal.

Mas, exclusivamente por iniciativa minha, não saí do caso Suzane. Nos horários de folga, investigava por conta própria, utilizando meu carro.

Refiz o caminho dos principais personagens: Suzane, o irmão e o namorado dela. Descobri um cibercafé para onde iam quase toda as noites, e descobri nas fichas dos frequentadores um personagem até então desconhecido da polícia: o irmão de Daniel, Cristian, de 26 anos, que não tinha ocupação fixa, mas se apresentava como policial e deixava à mostra um grande chaveiro do GOE, a elite da polícia civil em São Paulo. Tinha muitas tatuagens e gostava de jogos violentos.

Eu saía de madrugada para conversar com os vigias da rua e soube que Suzane, quando os pais eram vivos e voltava para casa no carro do namorado, ficava na esquina e descia a pé. Era um indicativo de que Daniel não era bem recebido na residência dos Richthofen, ao contrário do que dizia o pai de Daniel, Astrogildo Cravinhos.

— Eles adoravam o meu filho, e eu e o Manfred éramos amigos de sunga – dizia o senhor Cravinhos, a propósito de seu relacionamento com o pai de Suzane. Já estive varias vezes na piscina da casa dele.

O senhor Cravinhos, já falecido, era um homem baixo de rosto com traços delicados, que lhe davam a expressão de inocência. Ele atendia à imprensa e se esforçava para impedir o acesso ao filho e à jovem que ele dizia ser sua futura nora.

Após os depoimentos, dizia que gostaria de dizer tudo o que sabia, “mas o delegado pediu para não darmos entrevistas, e posso garantir que  a polícia já descartou a suspeita sobre qualquer um deles.”

Funcionário público aposentado, Astrogildo tinha uma casa modesta numa vila perto do aeroporto de Congonhas. Contava aos balconistas da padaria e aos funcionários do posto de gasolina que era juiz de direito aposentado. A realidade é que trabalhou em cartório, conhecia as leis e, em uma das muitas conversas que tivemos, deixou escapar:

— Não é meu filho e Suzane que têm que provar que são inocentes. A polícia é que tem de provar que eles são culpados.

Suzane e Daniel já arrumavam a casa para assumir o lugar dos Richthofen assassinados, enquanto a polícia patinava por um problema estrutural: falta coordenação. Em casos de repercussão, os policiais se empenham, mas cada um segue linha própria, e às vezes até obtêm um pedaço do quebra-cabeça, mas falta alguém para juntar as peças.

Também há concorrência e desconfiança entre eles. É um mecanismo de vaidade que funciona mais ou menos assim: “Se eu disser o que tenho, ele vai esclarecer o caso e ficar com a glória. Então, vou correr sozinho”. Diferente do que acontece nas redações?

Treze anos antes, um crime parecido ficou sem solução, o da Rua Cuba, porque a polícia e o Ministério Público não conseguiram provar a culpa do filho, o principal suspeito do assassinato dos pais.

Enquanto isso, eu conversava com os parentes de Suzane e do namorado, e com outras pessoas ligadas de alguma forma ao caso.

Era um trabalho paralelo ao da TV Globo, que fazia o de sempre: mandavam repórteres para o Departamento de Homicídios, na Rua Brigadeiro Tobias, onde ficavam horas na calçada, sem passar da recepção.

Os interrogatórios aconteciam no quarto andar do prédio e, como notícia não desce escada sozinha, os jornalistas dependiam dos vazamentos seletivos da polícia. Alguma semelhança com o Lava Jato?

Numa dessas ocasiões, a polícia vazou a história de uma ex-empregada suspeita. A Globo deu a notícia, ao mesmo tempo em que, escaldada pelo caso da Escola Base, em que foi protagonista, proibia qualquer referência à suspeita sobre Suzane:

— Não podemos condenar a menina. Temos que evitar o massacre moral.

É um cuidado elogiável, porém a mesma regra não era obedecida em relação à antiga empregada, uma pessoa humilde, certamente incapaz de mover processos judiciais.

Siga o dinheiro! É a regra número 1 da investigação jornalística. Tinham desaparecido 8 mil dólares e 5 mil reais da casa dos Richthofen, na noite do crime. Esse dinheiro seria gasto, e a primeira pista nesse sentido apareceu na porta da casa dos Cravinhos: uma moto importada de 1.110 cilindradas.

Os irmãos Cristian e Daniel Cravinhos

No dia 7 de novembro, nove depois do crime, vi a moto e bati palmas para falar com o senhor Cravinhos.

— Bonita a moto – comentei.

— É de um amigo do meu filho – disse ele. Está aqui porque ele me pediu para pintar a carenagem, como eu faço no aeromodelismo.

Anotei a placa e fui até o 27º DP, onde trabalhava o delegado Enjolras, e sugeri que ele verificasse o histórico da motocicleta.

O delegado contou que sua equipe já tinha investigado a moto, mas descartado a pista, depois que dois policiais haviam estado na revendedora, e souberam que a moto tinha sido comprada por um certo Jorge Ricardo March, na companhia de outro jovem. Os policiais mostraram um jornal com a foto de Daniel e ouviram: “Este aí não estava junto”.

— Mas pode ser o irmão do Daniel – disse.

— Que irmão? – perguntou o delegado.

— O Cristian, que sempre joga com eles no cibercafé.

— Não sabia que ele tinha um irmão.

— Tem, e é um tipo estranho.

O delegado colocou sua equipe para trabalhar, e eu fui para casa.

No início da noite, o delegado me telefonou e disse para eu ir à delegacia.

Na entrada, vi o carro do Departamento de Homicídios estacionado. Ao subir a escada para ir à sala do delegado, dei de cara com o delegado da Homicídios. Era um tipo arredio a repórteres fora do seu círculo de confiança, mas me cumprimentou, sorrindo. Na porta da sala no fim do corredor, vi o pai de Daniel e Cristian sentado e fumando – na época, era permitido. O delegado Enjolras saiu de uma sala e me levou para outra. Fechou e disse, comemorando:

— Você rachou o caso – uma gíria policial que significa esclarecer o crime. Era ele mesmo que estava na loja para comprar a moto, junto com aquele outro cara, que é um laranja. Já está confessando e disse que não agiu sozinho. Suzane e Daniel estavam com ele.

Com o Jornal Nacional no ar, telefonei para a redação em São Paulo e ditei um texto, que minutos depois William Bonner leu, ao vivo. O delegado comentou:

— Puxa, esse negócio funciona mesmo.

Em minutos, as redações começaram a telefonar para a chefia de reportagem da TV Globo em São Paulo, e os repórteres começaram a chegar à delegacia. O primeiro foi Agostinho Teixeira, da rádio Bandeirantes, que me cumprimentou pelo furo.

Cinegrafista e iluminador da Globo foram para lá, mas não chegaram a tempo de registrar a saída de Cristian para o Departamento de Homicídios. A emissora não ficou sem as imagens. Com uma câmera amadora na mão, meu filho de 17 anos, que me acompanhava, fez o registro, com a minha ajuda. Duas horas depois, as imagens estavam no Jornal da Globo.

Para ter dimensão do grau de desinformação dos jornais, que eram alimentados pela polícia, no mesmo dia a imprensa dava a notícia da empregada suspeita e da existência de uma espingarda calibre 12 na casa dos Richthofen. História sem começo, meio e fim.

Mais tarde, a cobertura da imprensa foi analisada pelo ombudsman da Folha, no dia 10 de novembro:

— A morte do casal Richthofen, em sua casa no Brooklin, expressou que, apesar de experiências anteriores discutidas fartamente em redações e escolas de jornalismo, a imprensa continua com dificuldade para lidar com a cobertura de crimes complexos e inusitados – escreveu.

Com o furo de reportagem, esperava apresentar a reportagem no Jornal Nacional. Mas a cúpula da emissora, com William Bonner na posição de editor-chefe, decidiu premiar César Tralli, até então distante da cobertura. Protestei através de uma carta para os diretores, e disse a Luiz Cláudio Latgé, diretor de jornalismo em São Paulo:

— Na escola de jornalismo em que fui formado, há uma regra sagrada, que não pode ser quebrada: jornalismo tem autor e tirar do repórter a notícia exclusiva que ele apura, sem lhe dar crédito, é um pecado muito grave.

Minha atitude foi interpretada como ato de rebeldia – intolerável numa empresa em que, para crescer, um repórter precisa apenas dizer o que os editores escrevem e os produtores apuram. Tinha contrato em vigor e, por isso, não fui demitido. Acabei deslocado para o Bom Dia São Paulo, um jornal que começava de madrugada. Dois meses depois, na véspera do Natal, Latgé me chamou e disse que a Globo não renovaria meu contrato, com término previsto para 31 de dezembro.