Como empresários se mobilizam contra o fim da jornada 6 por 1 com apoio de Folha, Estadão e Globo

Atualizado em 22 de fevereiro de 2026 às 15:32
Trabalhadores fazem manifestação no Rio pelo fim da jornada de trabalho 6×1. Foto: Divulgação

Associações empresariais, lideranças do setor produtivo e frentes parlamentares definiram uma estratégia conjunta para tentar frear o avanço da proposta que põe fim à jornada de trabalho 6×1, modelo em que o empregado trabalha seis dias e descansa um.

O plano, que conta com apoio incondicional dos principais jornais do país, envolve três frentes principais: adiar a votação para depois das eleições, produzir estudos técnicos e campanhas públicas contra a mudança e apresentar propostas alternativas, como desoneração da folha de salários ou pagamento por hora trabalhada.

O debate ganhou novo impulso após o governo Lula anunciar o envio de um projeto de lei sobre o tema ao Congresso. Além disso, o presidente da Câmara, Hugo Motta, decidiu encampar a PEC apresentada pela deputada Erika Hilton, que prevê a obrigatoriedade de ao menos dois dias de descanso por semana.

Nos bastidores, empresários avaliam que a proposta tem forte apelo popular e, por isso, seria difícil barrá-la ou alterar substancialmente seu conteúdo no primeiro semestre. A leitura é de que, em ano eleitoral, poucos parlamentares estarão dispostos a se posicionar contra uma medida vista como favorável aos trabalhadores, a exemplo do que ocorreu com o projeto que ampliou a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000.

A principal aposta do setor produtivo é empurrar a votação para depois das eleições de outubro. O presidente da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), Vander Costa, defende um debate mais longo. “A ideia não é atrasar. É discutir no tempo certo, sem afogadilho. O que a gente não defende é votação rápida com finalidade eleitoreira”, afirma.

Em nota, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) também pediu cautela na tramitação. A entidade defendeu “separar o debate técnico do calendário eleitoral”. Segundo a CNI, “O que a instituição pede, com a serenidade e responsabilidade de quem pensa no longo prazo, é que o debate seja elevado, orientado por evidências e compromisso com resultados duradouros”.

A escolha por uma Proposta de Emenda à Constituição pode favorecer a estratégia de alongar a discussão. Diferentemente de um projeto de lei, a PEC exige quórum qualificado e tramitação mais extensa. A primeira etapa ocorre na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), onde já estão previstos pedidos de audiências públicas para ampliar o debate sobre a admissibilidade da matéria.

Reunião na CCJ. Foto: Divulgação

Após a CCJ, o texto seguirá para uma comissão especial, responsável por discutir o mérito e propor alterações. O deputado Joaquim Passarinho (PL-PA), presidente da Frente Parlamentar do Empreendedorismo, considera improvável que o tema não avance no primeiro semestre, mas defende ajustes.

“A jornada 4×3 [da PEC de Erika Hilton] é uma bomba, quebra até o governo. A 5×2 já começa a melhorar”, afirma. Ele sugere discutir redução gradual da carga horária semanal, sem fixar obrigatoriamente dois dias de descanso. “Mas é melhor falar em redução de jornada do que em redução de dias. A gente está querendo propor uma redução para 40 horas, diminuindo uma hora por ano a partir de 2027”, diz.

Outras alternativas também estão em análise. Passarinho menciona a PEC do deputado Mauricio Marcon (PL-RS), que permite jornada flexível com pagamento por hora trabalhada, inspirada no modelo dos Estados Unidos. Outra possibilidade seria aprovar uma desoneração ampla da folha de salários para compensar o custo adicional com novas contratações.

O deputado Luiz Gastão (PSD-CE), ligado a entidades de comércio e serviços, afirma que o setor produtivo passou a se manifestar mais ativamente nas últimas semanas. “O setor produtivo estava calado, mas começou a falar agora. Até então, só os trabalhadores estavam falando dessa pauta”, diz. Ele propôs reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas, sem limitar o número de dias trabalhados.

Já o deputado Léo Prates (PDT-BA) apresentou alternativa que eleva a jornada diária máxima de 8 para 10 horas, desde que limitada a cinco dias por semana. Para ele, o foco do movimento é claro. “A bandeira do movimento é acabar com a jornada 6×1, ter dois dias de descanso para o trabalhador. O resto é acessório.”

Entidades empresariais também preparam campanhas e estudos para sustentar que a mudança pode elevar custos, estimular informalidade e pressionar salários. Um manifesto com cerca de 90 entidades está em elaboração e deve ser apresentado às frentes parlamentares e ao presidente da Câmara em março.

O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci, avalia que o apoio popular pode mudar diante de possíveis impactos econômicos. “É muito difícil você propôr que alguém trabalhe menos e essa pessoa ser contra, mas não está claro para ninguém o impacto pesado e grave para o custo dos serviços”, afirma. No setor, a estimativa é de aumento de até 20% nos gastos com pessoal, com possível repasse de 7% nos preços ao consumidor.

Vander Costa acrescenta que o Congresso deve ponderar o momento econômico antes de decidir. Ele cita a escassez de mão de obra qualificada em diversos segmentos. “A gente tem caminhão e ônibus parado por falta de motorista. O que eu defendo hoje? Que seja feito tudo por negociação coletiva. O Brasil é muito grande para poder ter jornada única”, conclui.

Neste domingo, a Folha publicou reportagem afirmando que o brasileiro trabalha menos que a média mundial. O texto repercutiu nas redes sociais e foi interpretado por críticos como um posicionamento contrário à proposta de mudança na jornada 6 por 1.

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