Como eu traí meu feminismo usando um vestido branco para casar

casamento

 

Publicado originalmente na Salon.

 

POR TRACY CLARK-FLORY

 

Uma das primeiras coisas que eu disse ao meu namorado depois que ficamos noivos foi: “Eu não vou usar uma vestido branco de merda.”

Dando um fast-forward para hoje, poucos dias antes do casamento, eu estou usando um vestido branco de merda. Isso não é tudo. Gastei centenas de dólares em maquiagem. Comprei vários pares de sapatos brilhantes de salto alto que me deixaram mancando depois de experimentá-los. Fiz uma dieta. Certa noite, eu disse para o meu noivo: “Talvez eu devesse usar cílios postiços para o casamento”. Sem perder o ritmo, ele respondeu: “Baby… lembra-se do feminismo?”

Eu mal conseguia pensar nisso.

O feminismo, no seu sentido mais superficial, me veio bem cedo. Quando menina, meu pai me elogiou por ter um bom arremesso no frisbee, não por ser bonita. Quando eu comecei a usar maquiagem, salto alto e perfume na escola, ele revirou os olhos e chamou aquilo de um desperdício de tempo. “Eu acho que o que torna uma mulher atraente é o seu cérebro”, ele falou. Minha mãe era a prova disso: mantinha o rosto lavado e se vestia com conforto, não na moda.

Até o final da faculdade, eu estava convencida de que a maquiagem, depilação das pernas e salto alto eram ferramentas do patriarcado.

Apesar de ler todos os livros que eu podia sobre a tirania da indústria do casamento, caí vítima dela. Todas as batalhas pessoais diárias que eu ganhei em meus 20 anos foram subitamente desfeitas. Eu me vi folheando as revistas femininas para encontrar truques de maquiagem e penteados. Os vendedores de balcões de cosméticos me mostraram sacos cheios de produtos que eu nunca vou realmente usar. Eu pensava: “Acho que 125 dólares nesse conjunto de maquiagem parece sensato” ou “Puxa, esse creme de 60 dólares embaixo dos olhos parece essencial.”

Essas pressões da indústria de beleza não são exclusivas de casamentos, é claro. Era como se minha doutrinação cultural estivesse dormente — e de repente fosse reativada após o planejamento do meu casamento.

Muitas feministas não vêem nenhuma contradição em tais coisas, e não tenho nenhum interesse em definir o que é feminismo para outras mulheres. Tudo o que posso falar é sobre o meu próprio feminismo — e você sabe o quê? Sinto-me decididamente não-feminista quando calço sapatos que impedem o meu movimento e deformam os pés ou quando eu raspo minhas pernas e sofro com os cortes resultantes e quando eu uso uma roupa que faz com que minha respiração fique difícil, tudo no interesse da manutenção dos padrões irrealistas de feminilidade. E também quando eu contemplo um vestido branco, tradicionalmente utilizado para representar a virgindade , no dia do meu casamento.

Então, por que eu estou fazendo estas coisas? Certamente não é para o meu futuro marido, que já deixou muito claro que prefere meu rosto sem centenas de dólares em maquiagem. Nem é porque eu já me convenci através de uma impressionante ginástica mental que esses atos são de alguma forma uma recuperação feminista. A verdade profunda, que eu odeio admitir, mesmo para mim, é que eu me importo profundamente com o que as pessoas pensam.

É covarde e superficial e sem criatividade, mas quero ser aquela visão da noiva corando. Um casamento, como tantos momentos na vida, é um desempenho social — e nesta hora eu ainda sou aquela adolescente folheando revistas femininas, procurando o segredo para ser aceitável.

Isso não quer dizer que eu tenha comprometido todos os meus valores feministas. Eu não vou mudar meu sobrenome. Meu pai não me escoltar na igreja. Eu não vou jogar um buquê para todas as mulheres solteiras. É só que eu percebi, enquanto planejava o casamento, que estou longe de ser tão rebelde e corajosa como gostaria – e nem um corretivo de 30 dólares pode encobrir isso.

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