
Em dezembro de 2025, estudantes do St. John’s College, localizado em Santa Fé, Novo México, embarcaram em um experimento audacioso: um jejum de seis dias sem celulares ou qualquer dispositivo conectado à internet.
Segundo informações do Estadão, o objetivo era simples, mas desafiador: desconectar-se das distrações digitais e explorar o impacto de viver sem a onipresença dos smartphones. Os cartazes que começaram a circular pelos dormitórios da faculdade traziam o título provocador: “O MUNDO SEM UM CELULAR”.
Com uma proposta clara de autodescoberta, os alunos foram incentivados a se juntar ao experimento, que prometia ser um “autoestudo” e um desafio coletivo. Para participar, os interessados deveriam se reunir no dormitório Murchison às 18h, em um momento marcado pelo compromisso de viver sem a constante presença dos dispositivos móveis.
O experimento foi inspirado por uma crescente insatisfação dos próprios estudantes com o uso excessivo de seus celulares. Mary Claire Fagan, estudante do terceiro ano e organizadora do desafio, explicou que a ideia surgiu após muitas conversas entre colegas sobre como os dispositivos digitais estavam afetando negativamente suas interações sociais.
“Nos debatemos sobre a possibilidade de abandonar os celulares, mas parecia um passo isolador. Então, decidimos tentar juntos”, relatou Fagan. Na noite do início do jejum, 20 estudantes se reuniram para deixar seus celulares para trás. Antes de se desconectar totalmente, cada um escreveu uma mensagem final para amigos e familiares.
Matteo Ponzi, um calouro de 19 anos, descreveu o ato de guardar seu smartphone como uma forma de “explorar o que acontece quando a tecnologia não domina o nosso dia a dia”. Ele colocou o dispositivo em uma mala e o escondeu no armário, ansioso para ver como a experiência se desenrolaria.
Um dos maiores desafios do jejum foi o despertar sem os alarmes dos celulares. Muitos alunos dependiam de seus smartphones para acordar a tempo das aulas.
Aqueles que não tinham despertadores tiveram que improvisar, criando um sistema de chamadas entre os colegas, onde A.B. Garrett, estudante do segundo ano, batia nas portas dos outros estudantes para garantir que ninguém perdesse a aula.
Além disso, os alunos descobriram como os celulares eram essenciais para a organização do dia a dia. Naomi Weiss, de 20 anos, estava acostumada a usar o Google Maps para se orientar pelo campus e, sem o celular, teve dificuldades para se localizar e para encontrar outras pessoas.

A situação chegou a um ponto em que os alunos começaram a usar um quadro no refeitório para trocar recados, um lembrete de como a comunicação imediata que os celulares proporcionam é vital para a interação social.
O impacto no foco e na produtividade também foi notado. Vários alunos disseram que, sem a constante distração dos smartphones, sentiram-se mais imersos no ambiente ao seu redor. Fagan, por exemplo, percebeu um aumento na sua capacidade de se concentrar nos estudos e nas interações face a face.
No entanto, nem todos os participantes estavam dispostos a abrir mão da tecnologia de forma definitiva. Samuel Gonzalez, um estudante do último ano, afirmou que, embora estivesse experimentando um aumento de foco, a realidade acadêmica exigia o uso do computador para a produção de trabalhos finais.
No final da semana, os alunos refletiram sobre os desafios e benefícios da experiência. Enquanto alguns se sentiram mais conectados com seus colegas e com o mundo ao seu redor, outros perceberam como a tecnologia ainda era uma ferramenta essencial para suas rotinas diárias.
Chaz Nomura, de 20 anos, confessou que, apesar de suas tentativas de se abster, recorreu ao celular em duas ocasiões: para mandar mensagens para sua mãe e para imprimir partituras para seu grupo de música.
O término do jejum deixou os participantes com um sentimento ambíguo. Fagan, ao olhar para o seu celular, se deparou com 307 mensagens não lidas. Ela não terminou a semana convencida de que poderia abrir mão do smartphone para sempre, mas planejava adotar uma abordagem mais equilibrada, mantendo o dispositivo fora do seu quarto.
Já outros, como Ponzi, estavam tão impactados pela experiência que optaram por comprar um celular flip, um modelo mais simples, longe das distrações da internet. O experimento no St. John’s College se destaca como uma tentativa de recalibrar a relação dos jovens com a tecnologia, especialmente em um momento em que a dependência digital parece cada vez mais presente.