Como funciona a articulação para desestabilizar governos progressistas na América Latina

Atualizado em 6 de maio de 2026 às 8:12
Donald Trump e Javier Milei. Foto: reprodução

De um lado da linha, o ex-presidente hondurenho condenado por narcotráfico, Juan Orlando Hernández. Do outro, o atual presidente de Honduras, Nasry Asfura, e a vice-presidente Maria Antonieta Mejía.

O conteúdo de áudios vazados aponta para uma articulação internacional com participação do presidente argentino Javier Milei em uma ofensiva político-midiática contra governos progressistas na América Latina, incluindo os de Gustavo Petro e Claudia Sheinbaum.

Segundo a cientista política boliviana Valeria Duarte, os áudios revelam a execução de uma estratégia alinhada à doutrina de segurança dos Estados Unidos, com interferência política, econômica e militar na região — envolvendo também Israel.

O escândalo, apelidado de “Honduras-gate”, ganhou projeção após a divulgação feita pelo veículo Diário Red América Latina. Nos registros, líderes discutem a criação de uma “célula de informação” destinada a “atacar e extirpar o câncer da esquerda” em governos latino-americanos. As conversas citam diretamente nomes como Donald Trump e Benjamin Netanyahu.

Nos áudios que o jornal Página 12 revelou, Hernández propõe a criação de uma unidade digital com apoio dos Estados Unidos para disseminar desinformação e preparar a opinião pública para possíveis intervenções externas na Colômbia e no México.

A relação entre Hernández e Trump já era conhecida. O ex-presidente norte-americano teria concedido indulto ao hondurenho, condenado por narcotráfico. Em contrapartida, Hernández sugere garantir uma base estratégica na América Latina para ampliar a influência geopolítica alinhada ao movimento MAGA.

De acordo com Duarte, o plano inclui financiamento estruturado: cerca de 150 mil dólares oriundos do Ministério de Obras Públicas de Honduras e outros 350 mil dólares prometidos pelo governo argentino de Milei. O montante total ultrapassa meio milhão de dólares, direcionado a ações de desestabilização política.

O contexto eleitoral agrava a gravidade das revelações. A Colômbia se aproxima de eleições presidenciais, enquanto o México entra em um ciclo eleitoral decisivo, com escolha de governadores, parlamentares e assembleístas.

Paralelamente, Trump intensificou ataques ao governo colombiano, acusando Petro de ligação com o narcotráfico. Também ordenou operações militares no Caribe sob esse pretexto e, recentemente, utilizou o combate ao crime organizado como justificativa para pressionar por ações contra o México.

Para Duarte, os áudios não tratam de hipóteses, mas de bastidores de práticas já observadas na região, como interferências políticas, redes de corrupção, concessões estratégicas e expansão de zonas econômicas sob influência externa.

Apesar da gravidade, até o momento a divulgação dos áudios não gerou consequências legais ou penais nos países envolvidos, nem em instâncias internacionais.

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