Como funciona o lobby de mulheres de oficiais que interfere até em listas de promoções

O escudo da Ordem das Altaneiras

O Exército não se “desmoralizou” após se recusar a punir Pazuello por participar de ato político com Bolsonaro.

O Exército está desmoralizado desde 1964.

Em 2010, Leandro Fortes, apresentador do Café da Manhã do DCMTV, publicou na revista Época uma matéria sobre mulheres de oficiais que chegavam a interferir em promoções atrás de um lobby eficiente.

Era a “Ordem das Altaneiras”.

Escreveu o Leandro:

Um oficial do Exército precisa de pelo menos 30 anos de serviço para chegar a general. É um funil por onde só passam 18 dos quase 400 oficiais formados anualmente. A proporção é a mesma na Marinha e na Aeronáutica. Ao lado deles, uma tropa de igual tamanho e incontestável poder de fogo luta por promoções, sonha com o generalato e interfere nos assuntos internos dos quartéis. Na Aeronáutica, o contingente adota nome pomposo – Ordem das Altaneiras. Na Marinha e no Exército, atende pelo título de “esposas de oficiais”. Enfrentá-las pode levar um militar a vestir o pijama mais cedo (no jargão militar, ir para a reserva).

Foi o que aprendeu o general Newton Bonumá. Promovido em março de 1994, Bonumá era considerado um dos oficiais mais brilhantes do Exército. Entre 1984 e 1986, lecionou português, História e geografia na Academia Militar de West Point, a mais prestigiada dos Estados Unidos. De dezembro de 1994 a dezembro de 1995, chefiou a equipe de observadores internacionais das Nações Unidas na zona conflagrada de Sarajevo, na Bósnia. Lá se apaixonou pela filha de um general bósnio. Erro fatal.

Por ter rompido um casamento de quase 30 anos, o oficial entrou na linha de tiro das mulheres de outros generais do Exército brasileiro. Elas se organizaram num eficiente lobby e impediram a promoção de Bonumá. De nada valeu a folha corrida do militar: figurava entre os primeiros colocados nos cursos de formação, teve comandos de relevância e ostentava ficha disciplinar impecável. Fora assessor pessoal do então ministro do Exército, Zenildo de Lucena. Em julho de 1998, contudo, foi transferido para a reserva pelo Estado-Maior do Exército. Hoje vive no Rio de Janeiro com a nova mulher. Trabalha numa editora de publicações militares. “Imaginaram que, com a separação conjugal, eu deixara de ter uma conduta inatacável”, diz Bonumá.

O brigadeiro Archimedes Faria, de 58 anos, estava a meio caminho do topo quando foi interceptado pelo esquadrão das Altaneiras – grupo de cerca de 500 mulheres de oficiais da FAB, criado há oito anos. Meses antes da reunião do Alto Comando da Aeronáutica, também em 1998, Faria rendeu-se e pediu transferência para a reserva. O sonho de chegar a tenente-brigadeiro, ápice da carreira, acabara um ano antes, quando se separou da mulher, com quem vivera por 30 anos, para se casar com outra.

Faria se adiantou ao ser informado de que, solidárias à ex-mulher, as Altaneiras pressionavam os sete oficiais do Alto Comando para evitar a promoção. “Depois disso, amigos de mais de 30 anos passaram a me isolar. Muitos foram proibidos pelas esposas de freqüentar minha casa”, afirma. O brigadeiro foi secretário-executivo da extinta Secretaria de Assuntos Estratégicos e é diretor de Programas do Ministério da Ciência e Tecnologia.

O poder feminino na caserna tem origem na organização das famílias dos oficiais, forçadas a conviver nos guetos das vilas militares. Na Ordem das Altaneiras, a presidente é, obrigatoriamente, mulher de brigadeiro. “Um oficial-general tem de ter uma família bem estruturada, valores arraigados”, defende Sônia Sirotheau, atual titular do cargo.

Evita, porém, confirmar a interferência nas promoções. “Há um sentimento natural de solidariedade entre as mulheres quando uma separação acontece”, diz o major-brigadeiro Edilberto Sirotheau, marido de Sônia há 35 anos e comandante do 6o Comando Aéreo, em Brasília. “Em função relevante, é preciso verificar se o oficial e a família podem representar bem a Força.”

“Essas mulheres (as Altaneiras) são dependentes dos maridos e passam o tempo todo pensando em promoções e cargos”, diz a advogada Iara Gandra, casada há 40 anos com o brigadeiro Mauro Gandra, ex-ministro da Aeronáutica. “Conheço o caso de um chefe de Gabinete de um ministro da Marinha que foi para a reserva por pressão de mulheres de almirantes.” Os ministros não comentam o assunto. Alegam que a lista de promoções compete ao Estado-Maior de cada Força. Nos Estados-Maiores informa-se que as escolhas não exigem justificativas. No Planalto, observa-se que o presidente Fernando Henrique apenas endossa a relação enviada pelos militares. O silêncio confirma o poder do generalato sem estrelas.

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