Como “funcionário de Vorcaro” no BC usava sítio para ocultar propina, segundo investigação

Atualizado em 9 de abril de 2026 às 9:51
O ex-diretor de fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza. Foto: Beto Nociti/BCB

Uma investigação interna do Banco Central apontou indícios de que o ex-diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza simulou a venda de um sítio em Minas Gerais para uma empresa controlada pelo pastor Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, com o objetivo de ocultar o recebimento de propina do Banco Master ou de pessoas ligadas ao grupo.

O caso, revelado em documento sigiloso ao qual a Folha teve acesso, amplia a gravidade das apurações sobre a relação entre integrantes do banco e agentes com poder de influência sobre a supervisão do sistema financeiro.

Segundo a sindicância patrimonial conduzida pelo Banco Central entre janeiro e março deste ano, há evidências de enriquecimento ilícito do ex-servidor e ao menos R$ 2,6 milhões de aumento patrimonial incompatível com seus rendimentos. Em fevereiro, o salário bruto de Souza era de R$ 37.067,28, de acordo com dados do Portal da Transparência.

O relatório recomendou a abertura de processo disciplinar administrativo, agora sob análise da Controladoria-Geral da União, que poderá expulsá-lo do serviço público se ele for considerado culpado.

No centro da apuração está a venda do sítio Mirante, em Juruaia, no Sul de Minas, que pertencia a Paulo Sérgio e a seu irmão, Luís Roberto Neves de Souza. A propriedade foi comprada pela Pipe Participações, empresa cujo sócio-controlador e administrador é Fabiano Zettel.

Em depoimento prestado à sindicância, o ex-diretor afirmou que Daniel Vorcaro o procurou em 2019 para perguntar sobre o imóvel e comunicar o interesse de eventuais compradores. Depois disso, Zettel entrou em contato com o então diretor do BC e o negócio foi fechado em janeiro de 2020.

Prédio do Banco Master
Prédio do Banco Master – Reprodução/Agência Brasil

A investigação, porém, considera pouco provável que o ex-diretor desconhecesse quem era Zettel e sustenta que a atuação de Vorcaro no processo “leva a crer que houve ação diretamente orientada a cooptar o servidor”. O relatório também encontrou divergências relevantes nos valores da operação.

Em documentos de cartório, a cifra registrada é de R$ 3 milhões. Já em instrumentos contratuais apresentados, o total chega a R$ 5,2 milhões. Na oitiva, Souza mencionou uma proposta de R$ 4,8 milhões, com pagamento parcelado ao longo de cinco anos.

Depois da compra, a Pipe criou a Noah Empreendimentos e Participações, para a qual o sítio foi transferido em aumento de capital de R$ 3 milhões. Zettel nunca assumiu a posse direta da propriedade. O irmão de Paulo Sérgio tornou-se arrendatário do imóvel e, mais tarde, administrador da Noah.

A empresa ainda passou a atuar no ramo de construção de casas em Guaxupé, atividade de interesse dos irmãos. Para a comissão da sindicância, esse conjunto de operações reforça a suspeita de simulação para encobrir repasses ilícitos.

“Os indícios apontam, de forma segura, para a existência de simulação, é dizer, para a realização de operação simulada de compra e venda de imóvel com o desiderato de ocultar o pagamento de propina, buscando dar ares de legitimidade ao relacionamento dos irmãos com Fabiano Zettel”, diz a investigação.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.