Como grupos bolsonaristas planejaram ataques a padres no Ceará

Fiel distribui adesivo pregando a paz na paróquia. Foto: Dayanne Borges

Publicado originalmente em Escrivaninha:

Por Dayanne Borges e Ricardo Moura

“Brasil acima de tudo. Deus acima de todos. Missa Paróquia Paz hj. Botamos os comunistas pra correr”. A mensagem de voz que circula no whatsapp dá conta de uma bem-sucedida ação promovida na Igreja Matriz da Paróquia da Paz, nesse último domingo, dia 18, por bolsonaristas. Um militar reformado expõe ao interlocutor suas impressões sobre a presença ostensiva e organizada de opositores na celebração a fim de impedir que pautas que não fossem de interesse do grupo fossem abordadas na missa. O conteúdo do áudio é o que segue:

“Domingo passado não foi a confusão que o MST, os de vermelho, invadiram a igreja e leram o manifesto da Covid, do genocídio no meio da missa? Um padre filha da puta que é um padre comunista safado… Aí o pessoal se revoltou, os militares combinaram tudo de ir pra missa. Estava cheio de general, coronel, foram tudo de verde e amarelo. Não apareceu um dos vermelhos. Os padres pediram arrego, perdão… “Aqui é pra rezar”… Já afastaram o padre lá. Da outra vez estava cheio de militar. Foi uma beleza a missa com a nossa presença lá. Era os militares tudinho, meu irmão. Tinha carro de polícia lá fora, tinha tudo que o Camilo tinha mandado desde o domingo passado para proteger o MST. Não apareceu um. Dizendo que iam pro confronto e tal. Cheio de militar lá tudo de verde e amarelo, Brasil. O padre não falou em Covid, não falou em nada, só fez dizer que era a casa Deus, que perdoasse, que o lugar era de missa. Foi bom, tem que marcar a posição, não pode deixar esses filha da puta ocuparem os espaços nãos. Até dentro de igreja lendo manifesto comunista da CNBB, bando de filha da puta. Foi bom, um abraço”.

A sensação de vitória ocorre após dois domingos de elevada tensão na paróquia. As críticas feitas à atuação do Governo Federal causaram revolta em parte dos fiéis que passaram a hostilizar os sacerdotes tanto nas missas quanto nas redes sociais. O ato do último domingo, dia 18, vinha sendo gestado pelo Whatsapp, como informou o Blog Escrivaninha. Nem o padre Lino Allegri e nem o pároco da Paróquia, padre Oliveira Braga Rodrigues, alvos dos ataques, participaram da celebração dominical. Não há informações sobre quando Allegri retornará à missa da Matriz. Na tarde de ontem, o religioso celebrou na Capela Nossa Senhora das Graças, na comunidade Trilha do Senhor.

As agressões fizeram com que o padre Lino Allegri solicitasse o ingresso no Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos, conforme revelou, também com exclusividade, o Blog Escrivaninha. A notícia repercutiu local e nacionalmente, ganhando espaço nas páginas do O Globo (embora o sacerdote tenha sido tratado na matéria como pároco, o que não é correto) e do UOL, fazendo com que o governador do Estado tivesse de se pronunciar sobre o caso no domingo à tarde.

Camilo Santana demonstrou solidariedade ao presbítero e classificou como “inaceitável” a “atitude desses que se dizem cristãos ‘invadirem’ uma igreja para insultar e intimidar um líder religioso”. O Governador revelou ter pedido a abertura de um inquérito para investigar os ataques. “Informo que desde a semana passada determinei ao nosso secretário da Segurança para não só enviar policiais para garantir a integridade do Padre Lino como instaurar inquérito para apurar qualquer tipo de ameaça contra ele. Não iremos aceitar que atitudes como essa, de ódio e intolerância, fiquem impunes”, argumenta.

Se o Governo do Estado se manifestou publicamente, o mesmo não se pode dizer sobre o arcebispo de Fortaleza, dom José Aparecido Tosi. Procurado pela reportagem desde a quinta-feira passada, dia 15, o Setor de Comunicação da Arquidiocese não se pronunciou sobre os ataques, muito menos se o padre Lino Allegri voltará a celebrar missas na Igreja Matriz da Paróquia da Paz. O silêncio causou incômodo nas redes sociais.

Missa foi marcada por clima de apreensão

O policiamento esteve mais uma vez presente no entorno da Igreja Matriz. A celebração, dessa vez, ocorreu sem transtornos, embora fosse possível perceber um grande número de pessoas de verde e amarelo. Não houve menções diretas à conjuntura política e sanitária do país como das outras vezes. Os celebrantes da missa foram o padre Francisco Sales de Sousa, vigário da paróquia, e o diácono Aurimar de Moura. Eles foram recebidos com uma salva de palmas enquanto se preparavam para iniciar a missa. Mas antes disso, na entrada, já era possível perceber um apelo à paz por parte dos paroquianos. Fiéis distribuíram adesivos com a frase “somos da paz”. Enquanto muitos aderiram à iniciativa, outros recusaram colocar o acessório.

A segunda Leitura contemplou a Carta de São Paulo aos Efésios, que pregava a unidade em vez da divisão, haja vista que, a partir do judeu e do pagão, Jesus criou um só homem além de destruir a inimizade entre a humanidade. O texto sagrado não deixa de ecoar a divisão interna existente na paróquia, mas dessa vez sem a possibilidade de um Salvador que possa unir os dois lados.

O momento da homilia foi aguardado com tensão, uma vez que as hostilidades se deram a partir do pronunciamento do padre. No entanto, o padre Sales utilizou a oportunidade do discurso para reiterar o que tinha sido lido na liturgia da missa. Abordou o sentimento de exaustão que domina a todos e tentou se mostrar descontraído, mas o clima pesado que imperava sobre os paroquianos não se dissipou. Na hora da prece das intenções, uma delas se deu pela saúde do presidente Jair Bolsonaro.  Pouco depois, um homem apanhou o microfone e pediu pelo fim da ditadura em Cuba. Foi aplaudido.