Como mostra o JN de hoje, Globo vai poupar Bolsonaro em nome da reforma da Previdência. Por Joaquim de Carvalho

William Bonner e Renata Vasconcelos no JN de 20/02/2019: a reforma é deles

Quem esperava pela continuidade dos ataques da Globo a Bolsonaro ficou frustrado ao ver o Jornal Nacional desta quarta-feira.

O noticiário da Globo dedicou a maior parte do tempo à cobertura da Reforma da Previdência, com um viés positivo.

E aí é que Bolsonaro e Globo dão as mãos: ambos estão comprometidos com a mudança radical nos sistemas de aposentadoria.

Por isso, quem viu a Globo ficou sem saber que a conta dessa reforma será paga pelos mais pobres.

O jornal até cita algumas dessas mudanças, mas sem explicá-las.

Algumas nem são mencionadas, como é o caso do fim da multa de 40% sobre o o saldo do FGTS quando o trabalhador já estiver aposentado.

Também existe a possibilidade de não recolher o FGTS para aposentados que continuarem trabalhando.

O que o recolhimento do FGTS e a multa sobre o saldo do FGTS têm a ver com o alegado déficit nas contas da Previdência?

Em princípio, nada.

Parece muito mais um contrabando para fazer uma alteração que depende de reforma da Constituição.

Entra tudo na conta da Previdência.

E vai gerar uma situação confusa.

Haverá, na mesma empresa, desempenhando as mesmas funções, trabalhador que recebe FGTS e outros que não.

Será um incentivo para que os aposentados continuem trabalhando, o que dificultará o ingressos dos mais jovens no mercado de trabalho.

Também sinaliza a mudança trabalhista que está sendo gestada, como já anunciou a equipe econômica de Paulo Guedes.

O governo quer criar a carteira verde e amarela, como alternativa à tradicional carteira azul. Quem aceitar a carteira nova abrirá mão de direitos para ter emprego — o FGTS seria um deles.

O que acontecerá?

Quem não aceitar a carteira verde e amarela não terá emprego. Será um opção compulsória, como ocorreu na ditadura militar em relação à estabilidade no emprego.

No final da década de 60, a estabilidade foi substituída pelo FGTS. Com a mesma estratégia, agora poderá ser sepultado o FGTS.

São interesses que unem Globo e Bolsonaro neste momento.

Nem tudo, portanto, é guerra nesta relação conflituosa.

De fato, não se gostam.

Mas vão se tolerar, e a Globo se manterá neste morde e assopra pelo menos até que os trabalhadores sejam tratados como, historicamente, ela sempre quis: sem direitos.

Em 1962, o jornal do grupo publicou em manchete: “Considerado desastroso para o país um 13o. mês de salário.

Não foi, mas a emissora, com o jornalismo contaminado pela posição dos donos da empresa, continua rejeitando benefícios legais a trabalhadores que vivem num país que tem a maior concentração de renda do mundo.

Depois da reforma, Bolsonaro corre riscos.

Mas só depois dela.

Em 1992, Fernando Collor caiu depois que seu ministro da Economia, Marcílio Marques Moreira, bateu o martelo da renegociação da dívida externa, com um acordo muito elogiado pela banca internacional.

Bolsonaro não será alvo de campanha para cair até que a tal Nova Previdência esteja vigorando e o trabalhador comece a pagar a conta.

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