Como Muhammad Ali, que citou em coletiva, Haddad tem de sair das cordas para o contra ataque. Por Kiko Nogueira

Ali bate Foreman em 1974 no Zaire

Fernando Haddad deu uma coletiva de imprensa com governadores do Nordeste que o apoiarão no segundo turno.

Falou longamente da segurança pública na região.

Uma jornalista da Folha lhe dirigiu uma pergunta sobre os rumos da campanha e Haddad respondeu citando o maior boxeador de todos os tempos.

“Não se antecipa estratégia. Imagine se você fosse entrevistar o Muhammad Ali no quinto assalto. Ele não ia te falar o que ia fazer no sexto”, afirmou. “Nós vamos manter a linha propositiva”. 

A repórter lembrou de sua proposta de um “pacto ético” com Bolsonaro, que o chamou de “canalha”.

“Nós temos origem e tradição diferentes”, devolveu o petista. “Não vou mudar por causa dele”. 

Haddad pode aprender algumas coisas com o gênio de Muhammad Ali.

Uma delas é a hora certa de sair das cordas e partir para o ataque.

Bolsonaro tem um exército de cafajestes movimentando uma indústria de fake news poderosa.

Um mestre de capoeira foi morto em Salvador por um bolsonarista. A irmã de Marielle Franco foi xingada com a filha.  Suásticas estão sendo pintadas em muros.

Não é com lições de superioridade moral que isso vai parar.

Em 1974, Ali encarou o então campeão mundial George Foreman no Zaire, atual República Democrática do Congo.

Ele tinha 32 anos, sete a menos que o oponente, então no auge, imbatível. 

Ali havia perdido quatro anos da carreira ao se recusar a servir no Vietnã. Voltaria só em 1970 por decisão da Suprema Corte. Era considerado um azarão.

Passou sete rounds se defendendo, numa tática que batizou de “rope-a-dope”. 

Tomou uma saraivada de marretadas. Norman Mailer achava que ele ia morrer.  

Havia uma sabedoria naquele ato de guardar energia (como pregavam Churchill e Mae West, nunca corra quando puder andar, nunca ande quando puder ficar de pé e nunca fique de pé quando puder sentar).

No oitavo assalto, virou o jogo: um, dois, três, quatro, cinco diretos em Foreman, o último no queixo. O sexto ele interrompeu no meio do caminho ao ver o gigante desabar como um bêbado diante dele.

Mailer escreveu que foi um triunfo do cérebro sobre os músculos. 

A paciência, sozinha, não é virtude. Pode ser confundida com inação. A diferença está no momento de reagir com energia e apetite.

Haddad precisa partir para cima. De seu jeito, claro. Mas não pode achar que está no café da Faculdade de Filosofia da USP. 

“Eu sou um lutador. Eu acredito no olho-no-olho. Eu não dou a outra face”, disse Ali.

“Eu não tenho respeito por um homem que não bate de volta. Se você matar meu cachorro, é melhor esconder o seu gato”.

O Brasil que preza a democracia não pede para Haddad mudar.

Em tempos de fascismo batendo à porta, ele pode simplesmente sair das cordas e ir além do que já é. 

A hora é agora.

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