Como o futebol salvou os presos na África do Sul

No apartheid, um campeonato de futebol foi o que restou aos presidiários de Robben Island

Futebol em Robben Island

ROBBEN ISLAND é uma ilha na África do Sul que representa o que existe de melhor e o que existe de pior na humanidade.

Situada a cerca de 11 quilômetros de Table Bay, na Cidade do Cabo, é pequena e grande. Pequena nas dimensões: tem três quilômetros de extensão e dois de largura. E grande na importância. Robben Island abrigou, desde o século XVII, uma prisão que acabou por se tornar um dos símbolos do apartheid, o regime que separava brancos e negros na África do Sul. Nelson Mandela passou 18 anos em Robben Island.

Da miséria e opressão acabou brotando, ali, uma história fascinante de superação de adversidade e de manutenção de esperança em circunstâncias extremas. Uma bola de futebol está por trás dessa história.

Nos anos 60, os prisioneiros lutaram pelo direito de jogar futebol. As autoridades finalmente aquiesceram, depois de negar o pedido ao longo de três anos. Os detentos formaram a Liga Makana. Ela tinha as mesmas regras da FIFA, que eles conheciam de um dos raros livros da biblioteca de Robben Island. Nos tempos áureos, em meados dos anos 60, o campeonato chegou a ser disputado por nove equipes. A liga durou sete anos.

Mandela não podia jogar. Durante um tempo, assistiu da janela de sua cela, do alto de uma caixa ou de uma cadeira. Depois, nem isso lhe foi permitido. O atual presidente da África do Sul, Jacob Zuma, apitava partidas. Existe apenas uma foto da Liga Makana, mas é impossível identificar os jogadores. Seus rostos foram cobertos de preto no tratamento da foto.

Mandela numa visita à prisão, em 1994

Tal como o Holocausto, o apartheid é uma daquelas coisas que desafiam a compreensão e fazem perguntar: como pôde acontecer? O cérebro por trás do apartheid foi  H. F. Verwoerd. Ele foi Ministro dos Assuntos Internos entre 1951 e 1958. Neste ano se tornou primeiro ministro, cargo que ocupou até 1966, quando foi assassinado a facadas por um esquizofrênico no Parlamento que achava que ele não era suficientemente racista. “Temo que a palavra “apartheid” esteja sendo mal interpretada”, disse certa vez Verwoerd. “Seria melhor usar a expressão “política de boa vizinhança”, aceitando que existem diferenças entre as pessoas.” O problema é que na visão de Verwoerd, a quem os cabelos brancos e a voz pausada davam um ar ironicamente paternal, um vizinho podia tudo e o outro não podia nada.

Relatos recentes de jogadores de Robben Island coincidem em destacar o papel que a Liga Makana desempenhou para os presos. A liga virou objeto de um livro, More Than A Game (Mais Que Um Jogo).  Mais recentemente, foi feito um filme com base no livro, com o mesmo nome. Robben Island, declarada Patrimônio Mundial pela Unesco em 1999, é hoje uma das principais atrações turísticas da África do Sul. “Este lugar representa um triunfo do espírito humano “, diz outro ex-prisioneiro, Tokyo Sexwale. Ele ficou 13 anos em Robben Island. Hoje é ministro do governo de Zuma e membro do Comitê de Fair Play da FIFA. “Nós juntávamos panos para fazer bolas de futebol”, lembra Sexwale. “O futebol foi o instrumento de resistência que nos uniu.”

O futebol vai além da bola. Pode representar movimento e luz para vidas paralisadas e escurecidas. Para jovens sem rumo,  é com frequência uma alternativa a drogas e crimes. Centros esportivos têm sido usados intensamente nas grandes cidades exatatamente com este propósito. Robben Island,  encostada na Cidade do Cabo, viu o pior e o melhor do ser humano.

Mas o melhor triunfou.

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