
As duas maiores facções criminosas do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), podem se tornar o centro das discussões durante o aguardado encontro entre os presidentes Lula e Donald Trump.
O governo brasileiro está em alerta devido à proposta do governo dos Estados Unidos de classificar essas organizações como terroristas internacionais, uma medida que pode abrir precedentes para operações militares em território nacional.
A reunião, prevista inicialmente para março, teve sua data adiada devido ao desencontro de agendas e à escalada do conflito no Irã. Entretanto, o tema da classificação dessas facções criminosas já está ganhando relevância nas discussões diplomáticas entre os dois países.
Para os EUA, a medida faz parte de uma ofensiva mais ampla contra o tráfico internacional de drogas, algo que já foi aplicado no caso de cartéis venezuelanos no ano passado, pouco antes da operação militar dos EUA na Venezuela, que resultou na captura de Nicolás Maduro, ex-presidente acusado de envolvimento com o tráfico.
Desde o ano passado, o governo dos EUA tem estudado a possibilidade de designar o PCC e o CV como organizações terroristas. Segundo fontes próximas, a decisão pode ser tomada em breve, talvez dentro de duas semanas. Isso abriria uma nova linha de debate para a reunião entre Lula e Trump, que, de acordo com especialistas, pode ter o tema como uma das principais pautas.

Foto: Antonio Lacerda / EFE
No Brasil, a oposição a essa medida é forte. O governo de Lula argumenta que PCC e CV não se encaixam na definição de “terrorismo” presente nas leis brasileiras, que consideram o terrorismo como crimes com motivação religiosa, ideológica, política ou xenofóbica. Para analistas, as facções se enquadram mais como organizações criminosas que buscam lucro, e não como grupos com um viés revolucionário ou político.
Eduardo Galvão, especialista em risco político, acredita que o Brasil tentará tratar a questão dentro de uma abordagem cooperativa. “Há uma chance significativa de que o tema apareça na conversa. O combate ao crime organizado transnacional vem ganhando peso na agenda hemisférica dos Estados Unidos e já entrou nas discussões diplomáticas preliminares entre os dois países. A tendência é que o Brasil procure tratar o assunto dentro de uma lógica de cooperação, e não de enquadramento unilateral”, explica ele ao Metrópoles.
A classificação desses grupos como terroristas poderia ser vista como uma brecha para uma intervenção estrangeira, como aconteceu na Venezuela, onde as autoridades americanas utilizaram a rotulação de terrorismo para justificar ações dentro do território venezuelano.
Em um esforço para evitar essa classificação, o governo brasileiro tem se empenhado em articular com autoridades dos EUA. No último domingo (8), o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, conversou por telefone com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, para tentar persuadir Washington a abandonar a proposta.