Como o PCC tentou se infiltrar no governo de SP para lavar dinheiro

Atualizado em 6 de maio de 2026 às 9:41
Polícia Civil prendendo o ex-vereador Thiago Rocha. Foto: Divulgação

Uma investigação da Polícia Civil de São Paulo identificou um plano do PCC, em curso desde pelo menos 2021, para lavar dinheiro do tráfico por meio de uma instituição financeira própria, o 4TBank. Com informações do UOL.

Segundo os investigadores, o grupo buscava ampliar os lucros e se aproximar do poder público ao oferecer serviços bancários a prefeituras e acessar fluxos de recursos municipais.

A apuração resultou na Operação Contaminatio, deflagrada em 27 de abril, que prendeu seis pessoas e bloqueou R$ 513,6 milhões. Entre os detidos está o ex-vereador de Santo André Thiago Rocha. O caso deriva da Operação Decurio, de 2024, que já havia identificado o uso de uma fintech em esquemas ligados à facção.

A polícia aponta Rocha e o empresário João Gabriel Yamawaki, dono do 4TBank, como articuladores políticos do plano. Mensagens encontradas em 2024 no celular da mulher de Anderson Manzini, apontado como liderança da facção, incluíam um “relatório de atividades” com detalhes da expansão do grupo.

Os registros indicam tentativas de aproximação com o governo paulista entre 2021 e 2022, incluindo interlocução para autorizar o pouso de um helicóptero no Palácio dos Bandeirantes, em março de 2022. Em uma das mensagens, investigados celebram: “Bem-vindo ao governo de São Paulo”.

Documentos também mencionam buscas por agendas com integrantes da gestão estadual. Nomes de ex-secretários como Patrícia Ellen e Pedro Oliveira aparecem nos registros.

A polícia apura se houve cooptação ou se os investigados apenas “vendiam” influência. João Doria afirmou que “nunca houve reunião nem tentativa de agendamento” e disse desconhecer os envolvidos.

Pedro Oliveira confirmou encontros com Thiago Rocha, mas afirmou que ocorreram em “conversas informais focadas nas dificuldades econômicas de Santo André durante a pandemia” e que “desconhecer a fintech”. Segundo ele, o tema do banco não foi tratado nas reuniões.

Troca de mensagens obtidas pela polícia sobre o pouso autorizado em heliponto do Palácio dos Bandeirantes. Foto: Reprodução

De acordo com a Polícia Civil, o esquema previa inserir o 4TBank na gestão de serviços financeiros de prefeituras, como emissão de boletos e relacionamento bancário com moradores. A estratégia permitiria misturar recursos ilícitos com verbas públicas e ampliar o alcance financeiro do grupo.

A investigação aponta que houve movimentações em cidades como Santo André, Santos, Ribeirão Preto e Campinas, com reuniões, apresentações do banco e tentativas de articulação política. Em um dos registros, consta o envio de minuta para administrar a emissão de boletos municipais.

Também há menção a sondagens de alianças políticas e aproximação com lideranças regionais. Segundo os investigadores, o fluxo final do dinheiro envolvia a passagem por empresas de fachada antes de saques em espécie.

O empresário Adair de Freitas Meira, preso em 30 de abril, é apontado como responsável por operações de lavagem em diferentes estados. A defesa afirmou que recebeu “com surpresa as acusações” e negou ligação com o crime organizado.

O delegado Fabrício Intelizano afirmou que a atual fase da apuração busca identificar se contratos chegaram a ser firmados e se houve uso de recursos públicos.

“A investigação quer constatar agora se alguma prefeitura pagou os boletos emitidos pelo banco do 4TBank. O que temos até então é o plano do Thiago e do João em colocar o banco nas prefeituras, e os contatos do Thiago com pessoas ligadas a essas prefeituras. Vamos analisar o que foi apreendido e consultar as prefeituras envolvidas requisitando informações”, disse ele.

Em 05 de maio o DCM recebeu a seguinte nota de Patricia Ellen, por meio de sua assessoria:

“Nos três anos em que ocupou cargo na gestão estadual, a ex-secretária Patrícia Ellen jamais se reuniu com as referidas pessoas”.

Guilherme Arandas
Guilherme Arandas, 28 anos, atua como redator no DCM desde 2023. É bacharel em Jornalismo e está cursando pós-graduação em Jornalismo Contemporâneo e Digital. Grande entusiasta de cultura pop, tem uma gata chamada Lilly e frequentemente está estressado pelo Corinthians.