Como o Pink Floyd assassinou gloriosamente o rock

Há um silêncio reverente no Royal Albert Hall, a magnífica casa de espetáculos de Londres. No palco, os integrantes da superprodução British Pink Floyd, ou simplesmente Brit Floyd, se preparam para mais uma canção. Luzes em dose formidável percorrem o Albert Hall lotado, imagens se sucedem freneticamente numa tela atrás dos músicos. A platéia está imobilizada numa expectativa muda.

Até que alguém grita: “Toca Raul!”

Ninguém exceto os brasileiros entendemos. O pedido não foi atendido e nem compreendido, e o espetáculo seguiu adiante.

O British Pink Floyd é uma inovação. Não é um grupo musical que toca Pink Floyd, simplesmente. O conceito vai adiante. As músicas são a base, mas não o todo. A iluminação, os efeitos – tudo isso conta, e muito. A idéia nasceu na Austrália e viajou para o Reino Unido. Você tem hoje o Australian Pink Floyd e o British Pink Floyd. O idealizador é o mesmo. Os músicos não são donos da banda. São empregados de uma empresa.

Tenho motivos para amar e para odiar o Pink Floyd.

Amar porque eles fizeram algumas das canções mais lindas do século passado. Quando eu fechava os olhos ao ouvir o Pink Floyd em minha adolecência, tinha a sensação de estar numa viagem cósmica. Essa sensação jamais me abandonou nestes anos todos.

Gosto particularmente de um verso de um dos clássicos, Wish You Were Here: “Somos duas almas perdidas num aquário”. Vejo a mim neste verso, uma alma perdida num aquário. E vejo você, e vejo todo mundo, para ser franco.

Odeio o Pink Floyd porque a complexidade elaborada de suas composições acabou por matar o rock. O espírito do rock é o oposto: músicas simples, três acordes, letras fáceis de decorar. Um garoto pega uma guitarra pela primeira vez e logo já está tocando os rocks.

Bandas como o Pink Floyd e o Yes destruíram isso – gloriosamente, é verdade. Tente tocar Mood For a Day, do Yes, por exemplo. O virtuosiamo exagerado acabou por afastar os jovens do rock. Foi nesse vácuo que surgiu todo o lixo pop de grupos como Abba e Bee Gees e de cantores como Michael Jackson e Madonna. Sou um órfão inconformado, definitivo da guitarra distorcida e dos cabelos no meio das costas.

O rock foi ressurgir – avariado, mais que renovado – quando retornou às origens com o movimento punk. Mais uma vez, letras fáceis, músicas de três acordes, melodias simples.

O Pink Floyd, que ouço em vários momentos comovido no Albert Hall, foi um dos coveiros do rock.

Mas que coveiro majestoso, sublime, grandioso.

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