
No estado do Amazonas, assim como em Brasília e no Rio de Janeiro, o banco Master realizou operações financeiras com dinheiro público que agora são alvo de investigações dos órgãos de fiscalização e controle. Foram R$ 50 milhões da Amazonprev (unidade gestora do Regime Próprio de Previdência Social do Estado do Amazonas) aplicados em fundos do banco de Daniel Vorcaro, no dia 6 de junho de 2024.
O Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM) e a Polícia Federal entendem que a operação foi fraudulenta, que a escolha do banco para o investimento tenha sido, nas palavras dos procuradores, “viciada”, definida não segundo o melhor interesse da Amazonprev, mas sim para favorecer um banco e um banqueiro que, à época da transferência dos R$ 50 milhões, já mostravam não ser a melhor escolha para se investir recursos públicos.
Por isso, no documento que ordena investigações sobre o caso no Tribunal de Contas do Amazonas (TCE-AM), de fevereiro deste ano, procuradores do MPC-AM chamam a atenção para a “gravidade de se investir recursos em instituição que, à época da realização do investimento (06.06.2024), já poderia enfrentar dificuldades sistêmicas de liquidez e cuja própria liquidação extrajudicial veio a ser decretada em tempo relativamente próximo às operações realizadas.”
Os procuradores continuam:
“O cenário de liquidação do Banco Master e a limitação da cobertura garantidora evidenciam, de forma contundente, que a ausência de demonstração técnica robusta acerca da escolha daquela instituição como destinatária de vultosos recursos previdenciários não pode ser tratada como simples circunstância formal, mas como potencial causa de prejuízo concreto para o regime próprio de previdência social administrado pela Amazonprev.”
Veja, abaixo, reprodução do trecho referido acima, da representação do MPC-AM:

Presidente da Amazonprev é irmão do presidente do PL-AM e foi à sede do banco Master avalizar o negócio
A operação agora investigada pelo MPC-AM sob suspeita de fraudulência só se manteve de pé graças a uma conexão direta com o Partido Liberal (PL) no Amazonas, o mesmo do ex-presidente Jair Bolsonaro e do senador e pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro.
Do dia 1º de janeiro de 2019 ao dia 4 de abril de 2026, o estado do Amazonas foi governado pelo jornalista Wilson Lima (União), que renunciou ao cargo para concorrer a uma cadeira no Senado nas eleições deste ano. Bolsonarista assumido, ele já era governador quando Manaus e o Amazonas sofreram colapsos na saúde pública durante a pandemia de Covid-19.
Durante seu mandato, houve um aumento de 53,8% nas mortes violentas no estado, enquanto o índice nacional decresceu em 6% no mesmo período. Seu governo também foi marcado pelo crescimento da taxa de pobreza e queimadas no estado. O Amazonas ficou em segundo lugar entre os estados mais pobres do país (56,7%), em primeiro lugar em desmatamento no primeiro semestre de 2022 e em terceiro em queimadas no mesmo ano.
No dia 6 de junho de 2024, a Amazonprev aplicou R$ 50 milhões de seus mais de 60 mil servidores associados em letras financeiras do banco Master.
O tipo de investimento escolhido imediatamente acendeu o alerta na Secretaria-Geral de Controle Externo (Secex) do TCE-AM. É que esses ativos (letras financeiras) não contam com a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Logo, conforme apontou a Secex, a operação expôs o fundo público previdenciário ao risco de não recuperar o valor investido.
De fato, com o fechamento do Banco Master ocorrido posteriormente, os servidores do Amazonas foram parar na fila de credores da instituição, que não é pequena.
Retomando, quem decidiu pela compra dos papéis sem lastro do Master foi a então presidente da Amazonprev, Maria Neblina Marães, uma das doadoras da campanha de Wilson Lima, que por sinal foi quem a contratou em cargo de confiança, como chefe do fundo previdenciário estadual, em março de 2022.
Menos de um mês após a aplicação no Banco Master, Marães deixou a presidência da AmazonPrev. Em seu lugar, assumiu Ary Renato Vasconcelos de Souza, nomeado também por Wilson Lima, no dia 3 de julho de 2024. Antes dessa nomeação, Souza já era gerente de Administração e Finanças da Amazonprev.
Souza é profissional formado em ciências contábeis, e bem sucedido. Foi contratado como contador chefe das campanhas de… Wilson Lima!, em 2018 e 2022. Na imagem abaixo, um pagamento de R$ 15 mil por seus serviços durante a campanha de reeleição do ex-governador.

Souza deixou a presidência da AmazonPrev em 5 de maio de 2025, mas seguiu trabalhando para o governo do Amazonas. Quem assumiu a chefia do fundo de pensão em seu lugar foi Francisco Evilázio Pereira Nascimento, também nomeado por Lima. Evilázio Nacimento é irmão do presidente do PL-AM, o ex-senador Alfredo Nascimento, um dos articuladores no estado da pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à presidência.

Foi com o irmão do presidente do PL-AM no comando que o cofre da Amazonprev se abriu para o Master. Isso porque, no dia 28 de maio de 2025 –ou seja, cerca de seis meses antes da liquidação do banco de Vorcaro– Ary Renato Vasconcelos de Souza, Francisco Evilázio Nascimento e outros servidores da AmazonPrev foram à sede do Master na avenida Faria Lima, em em São Paulo. A visita está registrada em um Relatório de Diligência divulgado pela própria Amazonprev, em seu site.

No relatório da visita, fica claro que os membros da AmazonPrev sabiam dos problemas enfrentados pelo Banco Master. Conforme consta nomdocumento, “o nível de risco de crédito elevado, devido à quantidade de emissões do banco Master com taxas de retorno acima da média praticada pelas grandes instituições, é preocupação de todo o mercado financeiro, dado o risco sistemático das operações”.
Este foi o relatório técnico, completamente descolado das decisões políticas que se tomaram logo depois. Mesmo alertado por seus técnicos, o irmão do presidente do PL-AM optou por avalizar o negócio de R$ 50 milhões, hoje transformados em prejuízo puro simples para o fundo previdenciário amazonense.
A farra com o dinheiro dos servidores do Amazonas, a depender de Evilázio, iria continuar. O rombo no fundo de pensão com papéis sem garantias do Master só não foi maior porque o Tribunal de Contas do Amazonas freou as negociatas, em dezembro do ano passado.
Foi quando o conselheiro do TCE-AM Ari Moutinho Junior suspendeu, “de imediato”, a realização de “novos investimentos da Amazonprev em Letras Financeiras e demais ativos de crédito privado sem garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) emitidos por instituições financeiras com classificação de risco inferior aos parâmetros mínimos previstos em sua Política de Investimentos e na Resolução CMN n. 4.963/2021, especialmente sem análise prévia de risco e sem deliberação dos conselhos internos.”
A decisão foi tomada em uma representação, com pedido de medida cautelar, formulada pela Secretaria Geral de Controle Externo (Secex) do TCE-AM, contra o diretor-presidente da Amazonprev, Francisco Evilázio Pereira Nascimento e os ex-diretores e Maria Neblina Marães e Ary Renato Vasconcelos de Souza, visando apurar as irregularidades na gestão de investimentos financeiros realizados pela Amazonprev junto ao banco Master.
Agora, aquele que entregou a chave do cofre do fundo público de pensão ao banco liquidado cujo ex-dono está preso é investigado pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, mas prefere agir como se nada tivesse a ver com a história. O irmão do presidente do PL-AM, por meio de nota, afirmou:
“Coloco-me à disposição para o que for preciso a fim de que não restem dúvidas do meu não envolvimento (com o negócio fraudulento com o Master), bem como do meu total interesse na apuração de toda e qualquer irregularidade.”
Então, tá.