Como os filósofos enxergavam o suicídio

Com Sêneca no Louvre: ele achava o suicídio uma saída boa para situações insuportáveis

João de Deus, companheiro nosso do Diário, me coloca uma questão sobre o suicídio.

Eu citara uma frase de Schoppenhauer segundo a qual a pior coisa que pode acontecer a alguém é nascer.

Existe aí uma lógica: a vida é sofrimento. Você sofre perdas, se decepciona. Adoece.

Acredito que haja apenas uma vida, e dou graças a Deus mesmo não acreditando nele. Duas vidas seriam uma coisa insuportável. Detestaria enterrar meu pai de novo, por exemplo. De resto, abomino a idéia de ter outros pais, irmãos e filhos que não os que tenho e tive. (Mulheres, sim. Algumas eu acharia bom trocar numa outra vida.)

A convicção de que vou virar pó, paradoxalmente, me tranquiliza. Tudo que espero é ter saúde para os pequenos prazeres da vida.  Epicuro dizia, acertadamente, que a principal fonte de felicidade é a saúde.“Enquanto jogarmos tênis há esperança”, digo sempre para meu irmão e adversário Zé. Um dia feliz, para mim, pode se restringir a uma sessão de tênis, seguida de conversa e cerveja com os amigos. À noite, um bom livro.

Mas e se as coisas derem errado? Uma doença degerativa, por exemplo?

Não sei. Certas coisas a gente só sabe enfrentando situações extremas.

Mas.

Me conforta saber que existe a saída do suicídio.

Não que eu tenha planos. Estamos discutindo hipoteticamente.

O suicídio nem sempre foi estigmatizado. Grandes filósofos do passado o consideravam uma saída perfeitamente aceitável para circunstâncias insuportáveis. Sêneca dizia que era uma vantagem dos homens sobre os demais animais: a possibilidade de, metaforicamente, ir embora da vida.

Muitos filósofos se suicidaram. Zenão, o fundador do estoicismo, foi um deles. “Me chamaste? Aqui me tens”, disse ele enigmaticamente antes de se enforcar. Lucrécia, poeta e filósofo, também se matou.

A Igreja Católica, em mais um de seus erros históricos, deu ao suicídio a condição de um pecado.

Quero jogar tênis por muitos anos. Não tenho plano nenhum de, sexualmente, me aposentar. Sou feliz tanto quanto é possível ser.

Mas.

Mas como é bom, para mim, saber que hei de virar pó e me integrar assim, para sempre, à imensidão cósmica.

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