Como o inventor do jornalismo moderno avaliaria a imprensa brasileira? Por Paulo Nogueira

Pulitzer, retratado pelo grande pintor John Singer Sargent em 1909, dois anos antes de sua morte
Pulitzer, retratado pelo grande pintor John Singer Sargent em 1909, dois anos antes de sua morte

“Acima do conhecimento, acima das notícias, acima da inteligência, o coração e a alma de um jornal residem em seu senso moral, sua coragem, sua integridade, sua humanidade, sua simpatia pelos oprimidos, sua independência, sua devoção ao bem estar público, sua disposição em servir à sociedade.”

A frase acima tem mais de cem anos, e é de autoria de um dos maiores jornalistas da história, Joseph Pulitzer.

Reencontrei-a ao reler A Vida e a Morte dos Barões da Imprensa, de Piers Brendon.

E refleti sobre ela.

Me ocorreu o seguinte: como Pulitzer, uma colossal referência em jornalismo ético, avaliaria a imprensa brasileira, de acordo com os valores estampados na sentença inicial deste artigo?

Numa escala de zero a dez, ele daria à mídia nacional provavelmente uma nota próxima de zero.

Defender os desvalidos, os oprimidos? Ora, esqueça. Num caso antológico, o Globo, pouco antes do Golpe, definiu o 13.o estabelecido por João Goulart como uma “calamidade”.

O mesmo Globo, agora, se bateu pela terceirização e, consequentemente, pela subtração de direitos trabalhistas.

Mesmo antes de se tornar o panfleto canalha que é, a Veja defendeu por determinação de Roberto Civita estridentemente, durante anos, a redução desses mesmos direitos. Eles eram o amaldiçoado “Custo Brasil”.

A Folha leva à prática a supressão desses direitos. Boa parte de seus jornalistas mais caros são PJ, uma forma de sonegar.

É algo que a Globo também faz.

As empresas contam, para essa transgressão, com a tradicional impunidade dada a elas por um Estado Babá. (Babá delas, naturalmente.)

E a humanidade de que falava Pulitzer? Pausa para gargalhar. As corporações jornalísticas exalam ódio, sobretudo contra quem, de alguma forma, defende os desvalidos.

Bem, podemos dispensar uma análise sobre a “devoção ao bem estar público”, já que o único bem estar que interessa aos donos da imprensa brasileira é o deles próprios e o de seus amigos e aliados.

Quando você viu ao menos uma campanha em jornais e revistas contra a desigualdade social?

Nunca. E jamais verá, não com as pessoas que estão no comando das empresas de jornalismo.

Tudo considerado, não há um único item em que a imprensa brasileira vá bem no conjunto de qualidades jornalísticas tão bem armado por Pulitzer.

Em compensação, ela se encaixa à perfeição em outra sentença de Pulitzer.

Ei-la.

“Uma imprensa cínica, mercenária, demagógica vai formar, com o tempo, leitores tão baixos quanto ela própria.”

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