Como reagir a um fiasco jornalístico

James Murdoch no Parlamento: talvez ele tenha que voltar lá para explicar melhor seu papel no caso do tablóide News of the World

De Londres

Reparo em duas atitudes completamente diferentes em relação a tropeços jornalísticos. Uma vem de Hong Kong, e é exemplar e honrada. A outra vem aqui mesmo da Inglaterra, e merece vaias de pé.

Em Hong Kong, o jornalista-chefe de uma emissora de tevê pediu demissão depois que foi ao ar a notícia – falsa – da morte de um ex-presidente chinês. O velho líder não compareceu a uma cerimônia importante do Partido Comunista, e isso deu origem a uma boataria na qual a tevê de Hong Kong embarcou. “Não fui capaz de impedir que o erro fosse ao ar”, afirmou o jornalista. Daí  ele ter assumido “plena responsabilidade”. Um outro executivo, segundo os relatos, também renunciou.

Aqui na mídia inglesa, os chefões da News International de Rupert Murdoch sistematicamente se evadem de responsabilidade pela invasão de caixas de mensagens de celulares de milhares de pessoas na busca de furos. Mesmo tendo deixado a empresa sob pressão da opinião pública, a jornalista Rebekah Brooks, diretora no momento mais agudo do tablóide que invadia os celulares, ainda hoje nega ter conhecimento do que se fazia em sua redação.

Ora. Quem acredita que um diretor de redação não saiba como são obtidos furos acredita em tudo, para usar a grande máxima de Wellington.

Hoje mesmo, James, filho de Murdoch que toca os negócios do grupo no Reino Unido e até a eclosão do escândalo era visto como sucessor do pai octogenário, domina o noticiário digital britânico. Um advogado que trabalhou para a News International disse que James sabia de muito mais coisas do que admite. Segundo o advogado, o herdeiro tinha visto e discutido um email em que eram claras as proporções épicas do crime que o tablóide cometia em seus procedimentos jornalísticos.

É previsível, agora, que James seja mais uma vez convocado para se apresentar ao Parlamento para esclarecer o conflito de versões sobre o papel que desempenhou no drama.

Diante de situações dessa natureza, Eça de Queiroz tinha uma frase clássica: ou se trata de “má fé cínica ou obtusidade córnea”.

Fico com a primeira opção.