Como se defender da estupidez dos humanos na pós-humanidade. Por Lenio Streck

O néscio repassa notícia falsa de WhatsApp e ainda acha que descobriu a pólvora. (Foto: Reprodução)

Originalmente publicado por O SUL

Por Lenio Streck

Já escrevi sobre as cinco leis fundamentais da estupidez. Agora escrevo um breviário sobre como identificar esse tipo de gente, os estúpidos. Aqui também tratados como néscios.

O primeiro passo é saber identificar um néscio (estúpido). Só se pode falar sobre o que se conhece. No princípio era o verbo. As coisas estavam lá, mas ainda não tinham nome (João, I, I). Por isso, saia pelo mundo e os identifique, disse o mestre (se não disse, poderia ter dito). Se não é verdade, é bem provável, como dizem os italianos.

O primeiro sinal de que você está diante de um néscio é quando o seu interlocutor diz “tenho berço” ou “tenho berço europeu”. Falou que “tem berço”, pode cravar: néscio total.

Outro sinal: sujeito quem diz “na teoria, a prática é outra”. Pode empacotar – aqui valerá a lei do Barão do Itararé: de onde menos se espera, dali mesmo é que não sai nada. Similar a este sinal: “— último livro que li foi antes do concurso”. Pronto. Embrulha e leva. Na prática, a teoria é a mesma: néscio em teoria e prática.

Também um negacionista é necessariamente um néscio. Nem todo néscio é negacionista. Mas todo negacionista é um néscio.

Se tiver dúvida, faça o teste do jogo de xadrez com pombo. Deixe que ele faça duas ou três jogadas. Se ele esculhambar as pedras e sair de peito inflado dizendo que venceu, tenha certeza: é um néscio com méritos estúpidos.

Sinal interessante que identifica um estúpido: o sujeito quer cancelar todo mundo do passado, todas as grandes mentes. Quer cancelar David Hume, até Voltaire, daqui a pouco Aristóteles, a Bíblia, a civilização inteira. Cancelam tudo. Menos o anacronismo.

Mais outro sinal: o cara quem diz que “o Brasil vai mal porque não foi colonizado por holandeses ou ingleses”. Empacota. E mande pelo Fedex.

Uma evidência que não falha: o néscio repassa notícia falsa de WhatsApp e ainda acha que descobriu a pólvora. Por exemplo, sobre o Coronavírus…

Bom, presentes algum desses sinais acima, fuja. Corra e nem olhe para trás. Se olhar, pode virar néscio, como na destruição de Sodoma e Gomorra. A mulher de Ló fez isso.

Por isso, sobretudo, não esqueça: fuja.

Vacina contra néscios: livros. Leve um livro no bolso. Eles odeiam. Dão a volta na quadra.

Conselho que está na bula da vacunanéscio: (i) sobretudo, leia bons livros; (ii) selecione seus amigos nas redes sociais; (iii) fuja de grupos de neocavernas (whatsapp) nos quais, depois que você postou um texto, alguém coloca uma foto de cachorro – isto é um sinal de que você está sobrando no grupo; (iv) entenda sempre que um grupo de whatsapp já, em si, é um problema; (v) de todo modo, o lado bom é que grupos de neocavernas podem ser um excelente exercício empírico acerca de sua capacidade de conviver com néscios; (vi) de todo modo, leia livros – claro, fugindo dos livros de autoajuda e quejandos; (vii) – por fim, se você por acaso tiver livros do Paulo Coelho, não os queime – isso é sinal de que você pode ser um néscio.

Observação final: nem tudo que parece, é; mas se é, parece, dizia a sábia mãe do grande Professor e querido Amigo Vicente Barreto. Então, nem todo sujeito que parece ser um néscio necessariamente é um néscio; porém, se é néscio, necessariamente parece um. Dizem que o postulado não falha.

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