
Por Márcio Chaer
Por anos, quando as votações no Congresso tinham mais relevância, ocorria algo esquisito. Os deputados saíam do local, onde aconteciam as votações, para assistir à sessão pela TV do comitê de imprensa — colado ao Plenário. Nas palavras do ensaísta e músico José Miguel Wisnik, essa cena projeta a ideia de que “o que sai na imprensa é mais real que o real”.
A análise de Wisnik fala da superindústria do imaginário, em que a ficção sequestra a percepção do real. Essa sensação que dá palco a guerras de versões, em que a realidade é moldada por interesses não revelados. Ele destaca como a imprensa ou o discurso público podem gerar “o incrível, o inacreditável”, em que uma narrativa falsa é aceita como verdadeira. Esse deslocamento criaria uma realidade simulada, que passa a ser consumida como uma verdade coletiva.
O truque é manjado, mas funciona sempre. Em especial num ecossistema de ignorância e desinformação. Quanto maior a vocação da plateia para linchamentos públicos, mais sucesso fazem as verdades fabricadas artificialmente por vigaristas que veem na avacalhação uma oportunidade para ganhar notoriedade, dinheiro ou eleições.
Manual do Trapaceiro
Em seu ocaso, a imprensa tradicional ainda consegue fazer estragos. Os cursos de jornalismo poderiam ensinar os alunos como fazer sucesso na profissão, com um manual básico da trapaça em seis passos:
1) Distorça os fatos. Trabalhe com meias-verdades. Conquiste a estima do leitor com uma aparente isenção;
2) Explore coincidências e ambiguidades. Confunda o leitor com falsas tecnicalidades;
3) Aposte na ignorância do leitor ou ouvinte. Acuse sem acusar. Insinue, sugestione, insufle. Apresente suposições como verdades absolutas — isso será útil na hora dos processos;
4) Explore as frustrações da plateia. Afirme que o alvo virou milionário saqueando o Erário;
5) Ignore o contraditório. Barganhe com quem quer notoriedade. “Compre” comentaristas famintos por fama;
6) Repita a falsa acusação incansavelmente. Faça parecer que cada repetição é uma acusação nova. “Tudo que é provável é verdadeiro”.
O pagamento para quem se dispuser a falar o que o jornalista quer publicar funciona como a “gratificação faroeste” gestada no Rio de Janeiro para o policial que “neutralizar” quem ele quiser classificar como criminoso.
Mas a bola da vez são os ministros do Supremo Tribunal Federal. O cerco não começou agora. A rigor, o que acontece agora é uma revanche. A primeira rodada do emparedamento dos ministros foi na montagem do esquema “lava jato”.
A investida causou um dano enorme ao país sem jamais ter chegado perto dos seus alegados objetivos. Não foi fácil, já que a plateia queria muito acreditar no enredo da excitante empulhação. Foi o apogeu do falso moralismo e do idealismo tarifado.

Volta dos que não foram
Adotou-se a mentira como elemento jurídico, julgamentos sem provas e condenações sem culpa demonstrada. Famílias inteiras foram levadas ao desespero. Empresários tiveram sua liberdade e negócios sequestrados. O resgate do sequestro foram multas altíssimas. Para o grande público, a extorsão foi descrita como confissão de culpa.
Vive-se agora a revanche. Duas, aliás. Primeiro, dos poderosos que viram transferido um naco do seu reinado para o STF: o Congresso, a Imprensa, o poder econômico e o, transitoriamente encolhido, Executivo. Há outros caídos, como os militares. Mas quem empreita a desforra agora são os jornalistas e seus patrões, que não perdoam o STF pelo desmonte do esquema “lava jato”.
E como isso se processa? Há aí outro jogo. Na frente de combate estão os jornalistas que desfrutam de fontes primárias — os protagonistas dos fatos. Ou seja: quem tem acesso a quem tem informação, de fato. Uns passos atrás, quem tem informação de segunda mão: alguém que diz ter falado com a fonte primária.
O terceiro personagem é aquele que interpreta do seu jeito o que foi publicado. Depois vêm os que trabalham com “informação” de quarta e de quinta mão. Nessas fileiras estão os que dizem que falaram com seis fontes em off. Ou quinhentas. Tanto faz. Nessa esfera é onde se trabalha mais com ficção e fantasia, explorando coincidências e imputações verossímeis.
Ilusões de ótica
Quem trabalha com fonte de quinta são os que acreditam em tudo o que ouvem — e não no que houve — sem contexto nem razão. São os que saem pelas redes falando bobagens com base apenas no que leram ou ouviram dizer. Nesse capítulo entram grandes especialistas em coisa alguma, como Conrado Hübner, Merval Pereira e uma criatura nova no cenário: os “influencers”.
Com um padrão: xingam, atiram pedras e saem correndo. Um debate sério a respeito, nem pensar. Quem é processado, como os picaretas da imprensa e os golpistas do 8 de janeiro, abandona a valentia, se esconde dos oficiais de Justiça e clama por uma “liberdade de expressão”, como se existisse salvo-conduto para cometer crimes em nome de sentimentos morais equivocados.
Nesse contexto, os jornais criaram paredões de fuzilamento de juízes — do STF, principalmente. As “análises” são feitas por bacharéis em ciência social, em filosofia, quitandeiros, médicos e outros curiosos.
Vigora a regra de só dar espaço a quem corroborar a verdade que se encaixe na versão produzida pelos usuários de informação inventada. O Brasil, que já teve toda uma população de técnicos de futebol, hoje tem 200 milhões de professores de ministros do STF.
A pergunta à espera de resposta: qual foi o voto, de que ministro, que favoreceu algum “parente”? Essa basta, mas pode ir além — qual foi o voto dado em desacordo com a lei, com a doutrina, jurisprudência e precedentes?