Como se forma um novo ministério na Suécia

O novo gabinete sueco
O novo gabinete sueco

Por Claudia Wallin, de Estocolmo. Radicada na Suécia, Claudia é autora do livro Um País sem Excelências nem Mordomias.

No Brasil como em qualquer rincão do mundo, a nomeação de um novo ministério segue o enredo das melhores tramas – vilanias, futricagens, rompimentos ruidosos, meras suposições. Mas as palpitações que acometem candidatos a ministro na Suécia atingem escalas do porte de uma arritmia supra-ventricular. Um ministro sueco em potencial sabe, em geral, que não basta ter um currículo limpo: é preciso ser o branco total que prometem os detergentes mais poderosos.

A via crucis de um ministro a caminho do poder á narrada em detalhe na biografia de um ex-ministro da Justiça sueco, o social-democrata Thomas Bodström.

Era outubro de 2000, e seu nome acabara de ser anunciado pelo então primeiro-ministro Göran Persson para integrar o novo ministério. Sabedor da sanha investigativa com que a mídia sueca esquadrinha o presente e o passado de qualquer novo ocupante do poder, Bodström decide antecipar o sofrimento: espontaneamente, ele confessa a jornalistas ter fumado haxixe na juventude e contratado diaristas no black.

Subitamente, seu celular toca. É o primeiro-ministro, que chama seu novo ministro literalmente das alturas – de dentro do pequeno jato oficial do governo sueco. A confissão de Bodström ainda estava na tinta fresca do noticiário.

”Algo mais?”, pergunta o primeiro-ministro, dispensando o óbvio complemento ”de podre” à frase.

O novo ministro caminha nervosamente na grama molhada pela chuva no jardim de casa, antes de expelir a resposta. Poucos dias antes, ele havia assegurado ao primeiro-ministro que não tinha esqueletos no armário.

”Não, com certeza não há mais nada”, responde ele, enfim, ao chefe.
Começava aí a arritmia do novo ministro.

”A verdade é que eu não tinha mais certeza absoluta”, conta Thomas Bodström em seu livro ”Inifrån – Makten, Myglet, Politiken”.

”Todas as noites, eu acordava no meio da madrugada e fitava a janela escura do quarto, enquanto revirava a memória. Será que nos meus tempos de estudante o meu salário como jogador de futebol não era alto demais, para que ao mesmo tempo eu recebesse o subsídio estatal para estudar na universidade? E aquela briga feia na juventude, seria um esqueleto?”, escreve o ex-ministro.

Bodström se torturava, até que certa noite um pensamento o fez levantar da cama: ”Pang, é isso – a minha aposentadoria do futebol”.

Tempos atrás, antes de se tornar advogado, o jovem Thomas tinha sido jogador de futebol profissional. Ao fim da carreira, e ao longo dos anos, ele recebeu pequenas somas pelo pagamento da aposentadoria como atleta. E agora, justamente agora, ele se lembrava de que talvez devesse ter pagado imposto sobre o benefício recebido.

O torturado ministro de pijamas correu então imediatamente para os arquivos ao lado da escrivaninha, em busca de recibos e declarações de renda.

”Sentei-me em seguida na mesa da cozinha. Às três da madrugada, eu, o novo ministro da Justiça da Suécia, tentava pôr os meus papéis em ordem”, lembra Thomas Bodström na sua biografia.

Agir rápido agora era essencial: o secretário do Ministério da Fazenda confirmara pela manhã que sim, Bodström deveria ter pago impostos sobre o valor da aposentadoria do futebol. E deveria por isso corrigir o erro imediatamente.

O novo ministro não tinha a soma necessária na conta bancária. A solução foi chamar o pai.
”Pappa (papai) Lennart rapidamente me emprestou as 70 mil coroas necessárias (cerca de 24,7 mil reais), e a quantia foi transferida de imediato ao Skatteverket (Autoridade Fiscal sueca)”, conta Thomas no livro.

Uma semana depois, o primeiro-ministro chamou-o num canto para perguntar se tudo havia sido resolvido corretamente.

”Desde aquele dia, ele (o premier) nunca mais tocou no assunto. Mas aquela pergunta – ’Algo mais?’ – ainda hoje me provoca calafrios”, admite o ex-ministro da Justiça.

Outro caso que entrou para os anais da história política sueca foi o chamado Nannygate – o Escândalo das Babás.

Conforme conto no livro ”Um País Sem Excelências e Mordomias”, em 2006 duas ministras caíram em queda livre do cargo e sumiram da cena política, dias depois do anúncio do novo gabinete de governo: a imprensa descobriu, entre outros deslizes imperdoáveis, que elas haviam empregado babás no black e negligenciado impostos.

Tudo parecia novo e promissor naquele ano – a começar pelo próprio primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt, que aos 41 anos de idade tornava-se o mais jovem líder do país em quase um século. Foi um radiante Reinfeldt que apresentou, após a vitória eleitoral, seu arrojado gabinete de ministros.

O ministro da Economia, Anders Borg, tinha 38 anos e usava brinco e rabo de cavalo. Na pasta da Integração e Igualdade, Nyamko Sabuni, nascida no Burundi, era a primeira ministra negra do país. Dois ministros eram homossexuais, entre eles o da Imigração, Tobias Billström, e o do Meio Ambiente, Andreas Carlgren, casado legalmente com seu parceiro.

A euforia da vitória era inebriante, mas a ressaca ia ser monumental. Parte do gabinete de governo era integrado por novatos, sem quilometragem suficiente para saber que, na política sueca, um currículo limpo é questão de sobrevivência. A imprensa sueca noticiara, logo nas primeiras horas, que duas ministras haviam empregado babás sem pagar os obrigatórios impostos e contribuições sociais.

A primeira cabeça a rolar foi a da ministra da Cultura, Maria Borelius. Sob intensa pressão da mídia, ela admitiu que na década de 90 havia empregado babás sem pagar os devidos impostos.

”Sou mãe de quatro filhos, e na época gerenciava a minha própria firma”, argumentou Borelius, ao explicar que não teria conseguido equacionar a vida doméstica e profissional sem a ajuda de babás. Mas em seguida, ela diria a frase fatal: ”Eu não tinha meios para pagar todos os impostos e taxas exigidos para ter uma babá”.

Alguém desconfiou, e foi checar. Como a lei da transparência garante acesso aos arquivos das autoridades fiscais, um assessor de imprensa do partido Social-Democrata pôs-se a pesquisar as declarações de imposto de renda de Maria Borelius e do marido da ministra. E descobriu: nos anos 90, a família Borelius ganhara ao todo 17 milhões de coroas suecas – uma soma consideravelmente superior à média dos ganhos de uma família sueca.

”Você está frita, Borelius”, fuzilou a jornalista Lena Mehlin no título da sua coluna política no jornal Aftonbladet.

”Na década de 90, Borelius pagou suas babás no black. Isso foi uma estupidez. Mas mais estúpido ainda foi afirmar que não tinha dinheiro para pagar de maneira honesta”, criticou Lena.

Nos dias seguintes, o céu se fechou sobre a cabeça de Borelius. Novas investigações revelaram que a casa de verão da família, no sul da Suécia, havia sido comprada pelo marido da ministra através de uma empresa baseada no paraíso fiscal de Jersey.

O primeiro-ministro chamou a sua ministra, enfim, para uma última conversa.

Maria Borelius deixou o cargo de ministra e também sua cadeira no Parlamento. Durou oito dias no cargo, e nunca mais voltou à política.

Dois dias depois da saída de Borelius, revelou-se que a ministra da Cultura, Cecilia Stegö Chilò, também havia pago suas babás em dinheiro, a fim de evitar impostos. Mas a renúncia de Cecilia se produziria com requintes de constrangimento: a imprensa também descobriu que nos últimos 16 anos ela não pagara a licença de TV. A taxa, de cerca de 200 dólares anuais, é a principal fonte do financiamento das emissoras públicas suecas – que é supervisionado justamente pelo Ministério da Cultura.

O marido de Cecilia bem que havia tentado salvar a mulher de uma vergonha nacional. Cinco dias antes da nomeação de Stegö Chilò para o ministério, como se tentasse pôr asas em um porco, ele registrara o aparelho de TV da família no órgão responsável pela coleta da licença de televisão. A renúncia de Cecilia foi inevitável.

A ministra durou dez dias no cargo. E também sumiu da cena política depois de dar à Suécia momentos de dissabor e arrepiante escândalo político, padrão local.

Mas é como diz o sueco Bengt Johansson, professor da Universidade de Gotemburgo: ”Escândalos não acontecem em ditaduras”.

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