Como se livrar de Bolsonaro. Por Moisés Mendes

Jair Bolsonaro. (crédito: Sérgio Lima/AFP)

Publicado originalmente no site Jornalistas pela Democracia

O brasileiro é uma usina de fabricação de planos para se livrar de Bolsonaro. Mas quase todos são projetos mentais que se evaporam, sem nada de consequente.

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Os planos são elaborados pela manhã e desmontados à tarde. Circulou dias atrás uma ideia que defendia a derrubada de Bolsonaro nas ruas pelos que têm mais de 60 anos.

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Todos os vacinados, alguns com passado de resistência na ditadura, sairiam em passeatas diárias até que Bolsonaro caísse. Os veteranos fariam o que os jovens não fazem mais.

Esses e outros planos se somam a ideias politicamente convencionais, como a do impeachment. Uma parte acha que Bolsonaro deve ser derrubado antes da eleição, e outra que deve sangrar para chegar à disputa já sem forças e apoios.

Mesmo que não possam ou não consigam verbalizar, é fácil concluir que a maioria não aguenta mais Bolsonaro. Não só as forças democráticas sempre ativas.

Os militares não aguentam. Os empresários, os políticos da direita, a Globo, a Folha, o Supremo e a torcida do Flamengo. Todos desejam o fim de Bolsonaro.

Os que não desejam representam no máximo, como base fiel do sujeito, apenas 15% da população. Considerando-se os agregados eventuais, que aparecem nas pesquisas, outros 15% são o seu lastro político.

Os outros dois terços querem outro cenário sem Bolsonaro, os filhos e os cúmplices de Bolsonaro, mesmo que digam que são contrários ao impeachment.

A questão é: como o Brasil pode se livrar do único governante de uma democracia definido como genocida? O único que conspirou contra a vacina, que despreza os avanços da ciência, que não usa máscara e que só agora, como tentativa de sobrevivência, exalta a vacinação.

Bolsonaro é uma excrescência política que destrói o país sem que ninguém tenha a fórmula capaz de mandá-lo embora. A direita soube como se livrar de Dilma, mas as esquerdas e parte do centro não conseguem se livrar de Bolsonaro.

Há mais de 50 pedidos de impeachment na Câmara, todos engavetados. Mesmo que fossem admitidos e colocados em votação, é quase certo que Bolsonaro iria sobreviver. Porque não há pressão popular.

O Supremo amordaçou Bolsonaro, estabelecendo que ele não pode desafiar decisões de Estados e municípios na pandemia. O STF tem dois inquéritos que envolvem os filhos e os amigos dos filhos de Bolsonaro. Ontem, o ministro Luis Roberto Barroso ordenou o Senado a abrir a CPi da Pandemia.

A maioria do Supremo é considerada antiBolsonaro, antigolpe e antinegacionismo. Mas não há o que fazer contra Bolsonaro, que já cometeu duas dúzias de crimes e continua desafiando leis e bom senso, mas nos condenou a vê-lo como um criminoso impune.

Os grandes empresários sabem que Bolsonaro vai destruir a Amazônia, que os projetos de reformas são cascatas, que ele envenenou as relações internacionais e disseminou o ódio entre os brasileiros. Que ataca gays, negros, índios, que não sabe nada de nada do país, mas os empresários ainda cortejam Bolsonaro.

Eles queriam mesmo um Huck, um Moro, um Amoedo, um Mandetta, em Doria, até um Rodrigo Maia. Mas inventaram Bolsonaro e não conseguem se livrar dele.

Não há confiança em Bolsonaro, mas os ricos  também não confiam em quem possa ser uma alternativa ao sujeito. Nem Hamilton Mourão é confiável, porque não tem carisma, não passa segurança e parece ter sido, até agora, apenas um empregado sob as ordens de Ricardo Salles em questões da Amazônia.

Bolsonaro é o ogro que, num almoço com 25 empresários, provoca o riso da maioria deles ao atacar a imprensa com essa frase: “Só não falam que eu sou boiola”.

Esses mesmos riram também quando ele disse, a respeito de João Doria: “Vagabundo, caralho”.

Mas os grandes empresários apenas engolem Bolsonaro por causa do desamparo geral. Para eles, não há quem possa substituir Bolsonaro diante da ameaça da ressurreição política de Lula.

Nem os militares conseguem se livrar de Bolsonaro, que se livrou do ministro da Defesa e dos comandantes das três armas. Bolsonaro contraria previsões e vai aparelhando o Estado burocrático e as Forças Armadas com grande desenvoltura.

Militares, Globo, empresários e quem, à direita, se opõe a Bolsonaro não têm uma solução mágica que interrompa o processo de destruição liderado por Bolsonaro.

As esquerdas também não dispõem dessa força, por meios convencionais, que interrompa o avanço do fascismo. Nem os partidos ditos de centro, os sindicatos, as universidades, as ONGs, os ambientalistas.

Só há um jeito de fragilizar Bolsonaro e travar o genocídio e a destruição da economia, de empregos, sonhos e projetos. Os jovens sabem o que fazer.

Sem os jovens nas ruas, não haverá salvação. Os estudantes chilenos, uruguaios, argentinos, bolivianos, todos eles sabem. Eles sabem em Mianmar que não há democracia sem a vigilância de quem tem vigor físico e atrevimento mental para desafiar os déspotas.

São eles, os jovens, que nos momentos graves precisam salvar os idosos, e não o contrário. Sempre foi assim e terá de continuar assim.

(Texto publicado originalmente no Jornal Extra Classe)

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